Uma rede para emigrantes portugueses

Há um restaurante português conhecido pela doçaria, o Natas Pastries, a norte de Hollywood. Quem lá vai buscar um pastel de nata ou experimentar o frango com piri-piri raramente ouve falar português na esplanada ou na sala de restauração - que por estes dias continua fechada devido à covid-19.

A existência deste restaurante é até desconhecida por muitos expatriados portugueses que vieram dar à costa a Los Angeles, em busca de sonhos na indústria do entretenimento ou outra área de negócio.

Na verdade, é comum dizerem-me, em entrevistas, que não conhecem mais nenhum português nesta zona e não faziam ideia de que havia uma comunidade luso-americana em Artesia, a uns 50 quilómetros daqui. Há uma desconexão entre a força da identidade lusa na comunidade e os emigrantes que chegaram mais recentemente, da mesma forma que há um desfasamento entre aquilo que Portugal foi e os emigrantes mais antigos se lembram e aquilo que Portugal é agora. A Rede Global da Diáspora pretende resolver essa lacuna.

A ideia de uma rede social que ligue a diáspora portuguesa não é nova. Foi tentada anteriormente, na aurora das redes sociais, quando a Jason Associates lançou "The Star Tracker", uma plataforma para talentos portugueses espalhados pelo mundo. Em 2008, tinha 22 mil membros que entravam por convite, porque a ideia era que fosse um espaço de talentos e não uma rede aberta a toda a gente como qualquer outra. Ganhou o prémio Open Web Awards do Mashable. Andou nas bocas do mundo. E, uns anos depois, acabou por desaparecer.

Não foi isso que aconteceu com a GPS, Global Portuguese Scientists, mas esta rede criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos é específica para cientistas portugueses pelo mundo. O que a Rede Global da Diáspora pretende fazer é outra coisa.

Promovida pela Fundação AEP, a Rede tem financiamento europeu e a colaboração de uma série de entidades nacionais e internacionais, que estão agora a dar um empurrão vigoroso para pôr o projecto a andar. A ideia é robusta e ambiciosa. Tem várias ferramentas interessantes, como um mapa para mostrar aos utilizadores onde comprar produtos portugueses perto de si e um directório de empresas, bancos, associações e instituições de utilidade. Um dos principais propósitos é estimular a aproximação de pequenas e médias empresas portuguesas da diáspora, aumentando as exportações. Outro é incentivar os emigrantes a investirem em Portugal, algo que muitos querem fazer e não sabem por onde começar. E outro, talvez o mais importante para quem reside fora, é a possibilidade de encontrar compatriotas e fazer networking. Se esta plataforma for bem feita, será um instrumento fenomenal para os portugueses e luso-descendentes no estrangeiro.

A Rede fez uma apresentação virada para as associações portuguesas nos Estados Unidos no último fim-de-semana porque é sabido o papel vital que elas têm na ligação da diáspora a Portugal. Como chamariz, um incentivo monetário de um euro por cada novo membro que as associações consigam registar, num mínimo de 250 para aceder ao donativo.

Com uma comunidade tão vasta - são mais de 346 mil só na Califórnia, e o número deve aumentar quando saírem os resultados do novo Censo - é incompreensível que não tenha havido grandes iniciativas vindas de Portugal no passado para estreitar os laços dos emigrantes nos Estados Unidos com o país de origem. A sede de portugalidade nestas comunidades é incontornável. Há uma grande paixão lusitana deste lado do Atlântico, que muitas vezes não tem sido correspondida.

A resiliência dos emigrantes e dos clubes, associações e salões portugueses é ainda mais notável neste momento de crise, em que os eventos estão cancelados por causa da covid-19 e ninguém sabe o que haverá do outro lado da pandemia, quando voltarmos à normalidade. Este é mesmo o momento certo para aproximar a diáspora do país e ligar os emigrantes entre si, de uma forma que nenhum Twitter ou Facebook foi capaz de fazer até agora.

Portugal fez um trabalho notável de auto-promoção nos últimos anos, que se tem traduzido num aumento consistente de conhecimento do país cá fora e dos seus elementos identificadores - o vinho, o azeite, os pastéis de nata, o fado, as ondas da Nazaré. Agora falta investir na rede de consulados e nos recursos que permitem aos emigrantes e lusodescendentes terem acesso permanente aos serviços de que precisam. É necessária uma estratégia concertada para alavancar o poder da diáspora. A Rede Global pode ser o catalisador para isso.

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