Uma transição energética justa não pode esquecer a reconversão dos trabalhadores

Para fazer face aos desafios que a transição energética representa para alguns países a Comissão Europeia criou o Mecanismo para uma Transição Justa. Trata-se de uma ferramenta essencial para garantir que a descarbonização se materializará de modo equilibrado.

O mecanismo disponibilizará, entre 2021 e 2027, 65 a 75 mil milhões de euros para aliviar o impacto da descarbonização nos países mais afetados. O grande objetivo é suavizar os impactos sociais e económicos da transição, com especial atenção às indústrias e aos trabalhadores que sentirão as mudanças de forma mais direta.

O Governo português já garantiu que vai lançar um programa de formação profissional específico para a transição energética. Os investimentos a realizar no setor energético do futuro serão baseados em energias renováveis endógenas, por oposição à aposta no petróleo e gás importado, o que representará novas oportunidades de emprego verde. Mas será necessário um programa de reconversão significativo que aposte na requalificação da mão-de-obra já ligada ao setor.

A estas novas oportunidades poderão corresponder postos de trabalho com melhor remuneração. É preciso não esquecer que o setor energético do passado dependia em grande parte de importações, com margens de lucro menores em Portugal, já que grande parte da rentabilidade da cadeia de valor ficava nos países produtores de petróleo e gás.

No Reino Unido as contas já começaram a ser feitas. Mais de 90 por cento dos trabalhadores da indústria do petróleo e gás estão bem posicionados para trabalhar nos novos setores energéticos à medida que avançar a descarbonização, segundo um estudo da Robert Gordon University, na Escócia.

O mesmo estudo estima que em 2030 sejam necessários cerca de 200 mil postos de trabalho no domínio do armazenamento de energia eólica, hidrogénio e captura de carbono. Este número compara com os cerca de 160 mil profissionais que trabalham atualmente, direta ou indiretamente, no setor energético offshore do Reino Unido.

Para o Governo português a reconversão dos trabalhadores das centrais a carvão é prioritária e a APREN não poderia estar mais de acordo. Para cumprir a descarbonização, até 2050, as empresas terão que contratar técnicos, engenheiros e outros profissionais, o que demonstra o enorme potencial da economia verde associada às renováveis.

O processo de descarbonização em Portugal - país que tem sido uma referência internacional enquanto precursor nas renováveis - tem que ser exemplar também a este nível.

A transição energética vai possibilitar a criação de mais valor, emprego e riqueza para o país, mas deve acompanhar cuidadosamente medidas específicas destinadas aos trabalhadores afetados por esta transição.

Os recursos financeiros existem. Portugal tem que aproveitar o mecanismo para proteger as pessoas e os cidadãos mais vulneráveis à transição. Não se trata apenas de facilitar o acesso a energia limpa, barata e segura, tal como já acontece em Portugal. Não falamos somente da luta contra a pobreza energética. Não é só a habitação mais eficiente em termos energéticos que está em causa. É preciso garantir, igualmente, oportunidades de requalificação profissional e oportunidades de emprego nos setores em transição. Ninguém deve ficar para trás.

CEO APREN

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