Uma vacina contra o populismo

Desde o início da pandemia o Zimbabué já perdeu quatro ministros que sucumbiram com Covid-19. No Reino Unido vimos um país em suspenso e sem rumo certo enquanto o seu chefe do Governo esteve internado e em recuperação. As reuniões do Conselho Europeu já foram diversas vezes condicionadas pela não-presença dos seus membros por terem contraído Covid-19 ou por estarem em confinamento forçado ou preventivo.

No nosso país vários ministros já contraíram o vírus. O primeiro-ministro esteve em isolamento profiláctico preventivo. O Presidente da República, no alto dos seus 72 anos, foi dado como contaminado, depois designado de falso negativo em confinamento rigoroso e, finalmente, liberado. A Directora-Geral de Saúde (cargo de vital importância e responsabilidade na gestão da pandemia) também contraiu o vírus, tendo sido obrigada a largar a chefia da luta contra o Covid-19 enquanto esteve em recuperação.

Quando se vacinam os titulares de órgãos de soberania não estamos a vacinar o "Tiago" ou a "Marisa", estamos a vacinar os líderes que escolhemos e que nos prometeram assegurar o bom funcionamento das instituições. O bem-comum. A implementação de políticas sufragadas pela comunidade em prol da comunidade.

Ao vacinar estes políticos estamos a garantir a continuação e a estabilidade na gestão política de um país. E no fundo estamos a vacinar-nos contra uma crise no meio da crise.

E como um sistema político é um todo, um verdadeiro ecossistema, e nesse ecossistema incluem-se os titulares de cargos públicos, bem como os líderes da oposição, e/ou outros cargos que garantam o precioso e necessário escrutínio e funcionamento das instituições.

Ao vaciná-los, garantimos os fundamentais "checks and balances" que temos andado tanto a elogiar como qualidades de outros países.

Os políticos que abdicam da sua vacina, na realidade estão a abdicar desta condição de representação, estão a ter uma interpretação meramente pessoal ou personalista, muito restritiva dos seus deveres e responsabilidades. A ter uma visão muito limitativa das suas obrigações perante todos nós cidadãos enquanto nossos representantes nomeados.

Devem ser vacinados todos os representantes do povo (como esta frase é forte quando lemos o texto da Constituição) que permitem e contribuam para a estabilidade e para a eficiência do sistema como um todo; garantindo o escrutínio e representação de toda a comunidade.

Já para não falar da questão do exemplo, da atitude pedagógica, num tempo em que as vacinas são diabolizadas por teorias da conspiração muitas vezes difíceis de assimilar.

É por isso que sinto que a celeuma que se criou sobre a vacinação dos detentores de cargos políticos tem um ligeiro cheiro a populismo e vacinar os nossos representantes é, neste caso, também vacinar-nos contra o populismo.

Post scriptum

Já todos perdemos alguém nesta pandemia. Não há competições no que toca ao sofrimento de cada um. O sofrimento costuma ser mau conselheiro quando se trata de legislar. Não queremos castrações químicas, nem cortes de mão a larápios, ou perseguições a políticos vacinados em expiação das nossas dores. Haverá um tempo para legislar (em definitivo) esta temática num consenso livre de tantas exaltações.

Por mim, este texto foi apenas uma necessidade de assinalar esta minha convicção no momento mais difícil de a defender.

Duarte Mexia, duarte.mexia@gmail.com

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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