Vacinas: O que os outros estão a fazer

As vacinas que a União Europeia comprou estão atrasadas. Uma fonte da UE, disse à Reuters, que as entregas serão reduzidas para 31 milhões de doses, o que representa um corte de 60%, no primeiro trimestre deste ano. Esta enorme confusão, como todos os aspetos da pandemia, pode ser usada para avaliarmos os nossos preconceitos em relação à organização da atividade económica. O que está em causa neste caso? A flexibilidade governamental e capacidade pública para reagir à medida que a realidade se altera constantemente.

Comecemos pelo início: a Agência Europeia do Medicamento ainda não aprovou a vacina de AstraZeneca / Oxford, apesar de ser onde há maior encomenda europeia. A situação é caricata. De acordo com o The Spectator, a AstraZeneca corre o risco de ser processada pelo atraso, mesmo quando não há autorização para a sua aplicação. Alias, o mesmo jornal, no seu habitual tom caustico, lembra ainda que poderá haver um atraso adicional devido à necessidade de imprimir as bulas em diferentes línguas Europeias.

Fugindo um pouco das questões caricaturais, é relevante compreender como é que diferentes países reagiram aos riscos de atraso das vacinas e da doença em geral. Comecemos pelos governos mais flexíveis e rápidos perante as dificuldades.

A Alemanha decidiu comprar os medicamentos associados ao um tratamento experimental - o mesmo tratamento que ajudou Donald Trump a recuperar da covid-19. Este fim de semana o governo alemão anunciou a compra de 200.000 doses por 400 milhões de euros (um décimo do valor da TAP). Note-se que estes tratamentos ainda não receberam luz verde dos reguladores europeus, sendo por isso administrados casuisticamente, num processo avaliado pelos médicos, de forma a prevenir "doenças graves ou hospitalizações entre certos grupos de risco".

O governo da Hungria também se afastou das práticas comunitárias (embora para este país esta seja uma prática corrente). O Executivo de Orban chegou a um acordo para comprar grandes quantidades da vacina desenvolvida pela Rússia, a Sputnik V, que também não recebeu a aprovação da autoridade europeia para o medicamento.

Os planos de vacinação foram revistos em alguns países e regiões. Por exemplo, no estado mais populoso da Alemanha, Renânia do Norte-Vestfália, e zonas de Itália, foi suspensa a administração da vacina de duas doses por escassez.

Do outro lado, de maior rigidez há que citar a Itália: o primeiro-ministro italiano ameaçou este fim de semana processar as farmacêuticas por incumprimento contratual. Ameaça também seguida pela Comissão Europeia esta segunda-feira com o argumento de que acompanhou e suportou grande parte do investimento.

Do Governo Português ainda não se conhece qualquer reação, ou plano de contingência, perante o atraso das vacinas.

A conclusão é simples: O desafio que temos pela frente não é apenas social, económico ou de saúde pública. No curto prazo, é também e sobretudo um problema de organização institucional e política. Dizemos que estamos "em guerra" e com uma "medicina de catástrofe" e não nos preparamos para as vacinas, para o seu eventual atraso, e para as contrariedades que são normais em período de crise. Acreditamos que somos flexíveis e imaginativos - desenrascados. Nada disso é visível nos dias que correm. O que esta crise demonstra, pela 1001-ésima vez, é que a gestão não se compadece de golpes táticos. E que o planeamento, flexibilidade e ousadia superam sempre o desenrascanço e o "plano de última hora".

Filipe Charters de Azevedo, é fundador e CEO da DATA XL e da SafeCrop

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