Vai ficar tudo bem se...

O ‘vai ficar tudo bem’ não pode ser uma promessa vã ou uma máxima confinada à primeira vaga da covid-19.

Até ser finalmente debelada a presente crise, e numa fase em que voltamos ao estado de contingência (e sem podermos afastar outros cenários mais graves e indesejados), este deve ser um objetivo capital sustentado em dados, conhecimento empírico e científico, análise e reanálise, capacidade de implementação e partilha, envolvimento e empenho continuado de todos, e, acima de tudo, liderança e rasgo político.

Apesar dos números estarem em crescendo globalmente, o país e o mundo tentam regressar a um relativo e necessário novo normal, reabrindo escolas e retomando o trabalho presencial. Devemos, por isso, retirar ilações do passado recente e estar atentos aos sinais promissores em países como a Nova Zelândia ou a Austrália, referências para as nossas autoridades de saúde. Como assegurava The Guardian no início desta semana, “Victoria continuou uma tendência de queda constante nos casos diários nos últimos dias, com o aumento das infeções a diminuir para os dois dígitos graças ao confinamento rígido após um pico de mais de 700 casos num único dia no início de agosto.”

Nesse sentido, assegurava, nesse mesmo dia de rentrée global, Tomás Pueyo no The New York Times, “Medidas como máscaras, testes, rastreamento de contactos, isolamentos, quarentenas são ainda necessárias, mas há uma abordagem que não foi enfatizada o suficiente: a cerca. Os países que fecharam rapidamente as suas fronteiras ou monitorizaram cuidadosamente qualquer pessoa à entrada tiveram mais sucesso em retardar as infeções”. E, embora não estejamos de todo aí (com empenho, talvez consigamos evitá-lo!), não devemos esquecer os casos dramáticos de Ovar ou Reguengos.

O primeiro embate do mundo com a Covid-19 foi devastador e revelou a fragilidade dos sistemas de saúde um pouco por todo o planeta, mesmo em países e economias mais desenvolvidas, como Bélgica, EUA, Itália e Suécia. E se, em muitos casos, a incompetência ou agendas ideológicas enviesadas favoreceram a dramática progressão das infeções e fatalidades, na sua grande maioria estes números resultaram, em grande medida, de anos, senão décadas, de um desinvestimento crónico e mesmo escandaloso em cuidados de saúde e também em inovação e conhecimento científico e farmacêutico.

Neste último caso, embora focando apenas na dimensão nacional – mas não esquecendo, por exemplo, as restrições à circulação intraeuropeia de medicamentos –, o crescente estrangular de uma indústria altamente competitiva e de valor acrescentado (com um volume de negócios de mais de mil milhões de USD anualmente, ocupa a 26ª posição do ranking global de produtores), estranhamente vista como fonte de encargos e não de receitas, impostos, emprego e inovação, tem tido impactos muito negativos para todas as empresas made in Portugal – e, por inerência, também para as populações, muitas vezes confrontadas com a falta atempada de medicamentos. Como temos reiterado, o reequilíbrio entre as tutelas da Saúde e da Economia na relação com a indústria é ainda mais premente agora, num momento em que estamos prestes a enfrentar os impactos dos adiamentos em cuidados saúde protelados devido à pandemia.

Estamos coletivamente numa guerra em que todas as batalhas ajudam a ganhar tempo até chegar uma ou várias vacinas e/ou tratamentos eficazes – ou, mesmo, a imunidade de grupo. Contudo, até lá, e não obstante o novo modelo de “economia intermitente”, que prevê fechos e aberturas localizados em função dos surtos, devemos reforçar o SNS, proteger os setores essenciais e não descurar o trinómio e difícil equilíbrio economia-saúde-finanças. Obviamente, isso não deve implicar deixar para trás ou estrangular as galinhas dos ovos de oiro da nossa economia. É necessário pensar e atuar agora. Isso aplica-se à época turística de 2021, mas também a indústrias de ponta como como a farmacêutica. Só assim poderá ficar tudo bem.

Membro do Advisory Board, European Health Futures Forum

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