Vamos ao que interessa

Só com uma informação global poderemos ter as armas necessárias para enfrentar este futuro

Andámos entretidos e distraídos. Mergulhados nas tricas e intrigas das eleições, com golpes, traições e reviravoltas. Não houve tempo para mais nada. De manhã à noite, as notícias em Portugal circularam em remoinho apenas em redor do umbigo da política nacional. Agora, que acabaram as distrações, vamos ao que interessa... mas vai doer.

Vai ser um acordar violento. Terminadas as eleições (se não houver segunda volta das presidenciais), os jornais vão finalmente voltar a dar notícias. Estivemos entorpecidos com primeiras páginas à volta de candidatos, processos judiciais, arranjos e arranjinhos. Fomos como sempre vampirizados pela política caseira como se fosse o assunto mais importante das nossas vidas, mas não é! E enquanto estávamos distraídos com tudo isto, o mundo... claro que não parou.

Já não há dúvida de que estamos à beira de uma nova crise económica, e os economistas que anteciparam a de 2008 dizem que desta vez pode ser pior. Experimentem ler Nouriel Roubini no The Guardian e vão passar a dormir bem pior com as bombas e as bolhas que se anunciam, para além da derrocada da economia chinesa. As aparentes boas notícias da queda do petróleo começam agora também a revelar-se como preocupantes e sérias ameaças às nossas carteiras. Começou ao mesmo tempo uma quarta revolução industrial que, em grande parte por causa da internet, vai provocar a perda de 5 milhões de empregos nos próximos 5 anos. E como se tudo isto não fosse já suficientemente assustador, ficamos a saber que 2015 foi o mais quente dos últimos 136 anos. E as temperaturas vão continuar a subir neste planeta que tratamos tão mal, e onde os oceanos se arriscam a ter mais plástico do que peixe.

Isto não são notícias de hoje, nem dores de cabeça inesperadas. São tudo factos já publicados, analisados e desenvolvidos, mas que a maioria dos portugueses ainda não percebeu. Continuamos a ser demasiado egocêntricos na procura da nossa informação. Os jornais começam invariavelmente a paginação e os alinhamentos com temas nacionais (leia-se São Bento, Belém, Espírito Santo e afins) ou com desgraças e todas as corrupções cá do burgo. Só no meio ou no fim, e se houver tempo, olhamos então para o resto do planeta. Como se o que se passa no mundo não tivesse a maior influência nas nossas vidas.

Temos de mudar urgentemente esta nossa forma de dar, procurar e ler notícias. Enquanto estamos distraídos com a nossa vidinha doméstica, com as nossas eleições e a gritar contra os políticos, os outros países discutem e preparam-se para o embate que aí vem.

Procurar notícias, por vezes desagradáveis, sobre o que se passa no outro lado do mundo de facto não nos faz mais felizes, mas torna-nos seguramente mais fortes. Temos de perceber de vez que só com uma informação global poderemos ter as armas necessárias para enfrentar este futuro, que infelizmente se anuncia de novo pouco sorridente.

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