Vêm aí as cegonhas

Segunda-feira de manhã muitos chegaram com cara de poucos amigos. No ginásio, no trabalho, ao almoço, alguns deles pareciam mesmo que iam explodir. Pensei que era mais uma ressaca do futebol, mas os resultados da véspera não eram caso para tanto. Intrigado, perguntei porque estava afinal tanta gente irritada. A resposta chegou de rajada: “Pedir-nos para ter filhos? Francamente! Como é que eu posso ter mais se nem sequer consigo sustentar-me a mim e criar os que tenho?”

Por mais virtudes que possam ter algumas ideias ou intenções, a forma e o momento como são comunicadas pode deitar tudo por terra. Morrem logo ali à nascença. Foi o que parece ter acontecido com o inesperado e inadequado anúncio de um plano para incentivar a natalidade, feito em pleno congresso do PSD.

Num momento em que o partido tem de limpar a imagem da governação e gerar confiança, não encontrou nada melhor do que avançar com um plano para que os portugueses façam mais filhos. Anúncio que não podia ser nem mais deslocado nem mais desastrado.

Não é necessário ser especialista em comunicação para saber que não era o tempo nem o lugar para avançar com esta ideia. Claro que a falta de crianças em Portugal é um problema seriíssimo. É terrível viver num país onde se morre 18 mil vezes mais do que se nasce. Todos sabemos que vivemos num país que está cada vez mais velho e mais hipotecado pelo abismo geracional. Como jornalista já fiz quase mais debates sobre este tema do que campanhas eleitorais nos últimos 30 anos. Já perdi também a conta aos planos e às medidas de incentivo à natalidade anunciadas por sucessivos governos. E o que aconteceu? Nada. Não paramos de avançar rapidamente para um país só de velhos.

Será que ninguém antecipou que anunciar um objectivo destes no meio de um congresso só serviria para causar ruído de comunicação e matar a virtude da própria ideia? Por muito mérito que possa ter esta intenção, não se pode fazer este tipo de anúncio no meio de uma reunião magna partidária. Não faz sentido. Foi colocar-se a jeito para os ataques jocosos, sarcasmo dentro do próprio partido, incendiar as redes sociais e sobretudo levar à indignação milhões de portugueses.

Não seriam necessários muitos estudos de marketing para se perceber logo ali que esta declaração não seria bem recebida. Como é que se pode pedir aos casais portugueses que tenham mais filhos? A esmagadora maioria luta para sobreviver, não consegue ter rendimento para sustentar as famílias, trabalham horas a mais, os cuidados de saúde são cada vez mais escassos e caros e as escolas não chegam ou não têm condições. E a lista segue muito além do espaço desta coluna.

Por tudo isto é preciso um grande desconhecimento, ingenuidade ou descaramento para pedir mais filhos aos portugueses. A menos que ainda acreditem que eles são trazidos pela cegonha.

Pivô e jornalista da RTPEscreve ao sábado

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