Venha de lá essa dose de reforço

Enquanto mais de metade da população mundial levou pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19, a percentagem de totalmente vacinados ronda os 39%. Há milhares de milhões de doses que ainda têm de encontrar o caminho para os braços dos cidadãos, se ambicionamos voltar a ter uma vida sem fronteiras fechadas, restricções de contactos ou tele-trabalho forçado.

Mas as estatísticas revelam um lado muito mais sombrio da vacinação que o progresso lento, quase um ano depois do incrível esforço científico ter produzido vacinas contra esta pandemia. Os números indicam que 74% das doses foram administradas nos países de médio e alto rendimento, enquanto apenas 0,7% foram distribuídas nos países mais pobres. África, um continente inteiro, tem apenas 10,3% da população com pelo menos uma dose recebida. Há alguma surpresa por ser de lá que vem a nova variante Ómicron?

A disparidade no acesso às doses das várias vacinas, que privilegia os países ricos e penaliza os países pobres, é um falhanço grotesco da humanidade. Vergonha para todos os governos e entidades que, podendo partilhar a produção ou aceder a ela, preferiram a mesquinhez ou o populismo.

Não há saída isolada deste buraco. Enquanto houver focos de infecção em geografias de baixa vacinação, toda a gente estará em risco. Israel, que em tempos foi dos países que mais rapidamente avançou no processo de vacinação, fechou as fronteiras por causa da Ómicron. Outros se seguiram, embora alguns especialistas considerem que já é tarde demais para evitar que a variante se espalhe pelo mundo todo.

A seguir a esta haverá outra, e depois outra. O novo coronavírus é eficiente e implacável. Vamos ter de nos vacinar todos os anos. Pode demorar décadas até que esta peste seja extinta, se alguma vez for. As pessoas que andam para aí a envergonhar-se com cartazes anti-vacinas vão ter um duro despertar quando perceberem que isto ultrapassa políticos e governos e agendas conspiracionistas. Que não importa quem esteja no poder: a covid-19 vai fazer parte das nossas vidas e a vacina contra a doença entrará para os programas de vacinação. Que não nos livraremos disto em 2022, nem em 2023, nem nos anos seguintes.

É uma infeliz contradição que haja tantos países pobres com parco acesso a sequer à primeira dose da vacina, e que nos países desenvolvidos já se esteja a administrar a dose de reforço. Mas recusar esse "boost" não vai ajudar ninguém. Sabemos que a eficácia da vacina começa a reduzir-se seis meses após a toma da segunda dose e que será necessário continuar a tomar doses de forma temporalmente indefinida. Venha daí a dose de reforço, porque é a realidade desta pandemia e recusá-la não vai alterar os factos.

O que podemos é criticar a forma como tão pouco tem sido feito para avançar a vacinação nos países mais pobres, os que precisam de mais auxílio. Não há por aí um general que possa montar uma task force mundial? Não há por aí uma organização de saúde que consiga fazer mover o mecanismo? Ou os cidadãos de certos países são mais salváveis que os de outros?

Dizia-me um contacto recentemente que esta pandemia provocou uma união dos povos como há muito não se via. Arregalei os olhos em descrença, e perguntei: "é mesmo isso que te parece?" Porque se há coisa que está mais que comprovada desde que esta tragédia começou é que, para muita gente em muita parte, não vai ficar tudo bem.

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