Viagem ao reino do socialismo

O caso já não é novo e vem somar-se a outros igualmente noticiados pelo absurdo de impunidade com tiques de despotismo que vigorava quando o PS governava Lisboa - e que se prolonga com a sua presença no poder central. Não foi só a troca de mimos entre o então presidente da câmara e o então diretor da TVI, nem os ajustes diretos da autarquia a um agora ex-ministro, nem sequer os desmandos de um vereador do Urbanismo que era rei e senhor dos destinos da cidade, chegando a liderar as obras de Lisboa sem escrutínio prévio dos órgãos eleitos pelos cidadãos, até ser constituído arguido por suspeitas de corrupção e abuso de poder. Esses foram apenas os casos mais recentes que se somam a nova bomba na câmara de Lisboa, remontando à sua liderança socialista, a culminar uma série de 13 saídas de governantes da maioria absoluta mais escandalosa da história.

Se indícios havia de que os socialistas gerem as suas passagens pelo poder como uma medieval quinta de família - em que todos os de dentro têm lugar e as despesas são pagas com recurso à cobrança de impostos -, chega-nos agora relato de mais contratos duvidosos cujo propósito maior, desconfiam os investigadores do Ministério Público, seria financiar ilicitamente o PS.

Do lado de lá da história, estão históricos socialistas que depois de verem esgotadas as suas hipóteses em cargos públicos - por limitação de mandatos ou casos de justiça - viram a luz ao fundo do túnel em contratos com outras câmaras socialistas, como era então a da capital.

Do lado de cá, estava Fernando Medina, então líder de Lisboa e hoje ministro das Finanças de António Costa (de quem herdou a câmara), que na quarta-feira jurava que "os processos de contratação da Câmara Municipal de Lisboa eram instruídos pelos serviços competentes para contratação, no cumprimento das normas aplicáveis", sendo apoiado pelos socialistas que se mantêm na autarquia: "Fernando Medina não praticou nenhum ato nesse âmbito." Umas 12 horas depois, porém, garantia já o ex-autarca: "A decisão [os contratos com Joaquim Mourão] foi minha", "precisámos de uma pessoa com aquele perfil e aquelas características". E sublinhava até "os grandes méritos" do contratado.

O PS, em versão Largo do Rato e em modo Praça do Município, nega a pés juntos ter recebido apoios fora da lei. E até chama a atenção para algo, isso sim, vergonhoso: a ideia do atual presidente da CML, Carlos Moedas, de criar um gabinete anticorrupção, uma óbvia e "lamentável tentativa de aproveitamento político", dizem os socialistas de Lisboa - com riscos evidentes para os próprios, acrescentamos nós, entendendo a aflição com que tentam desviar as atenções da década e meia de manobras levadas a cabo por Costa e seus delfins (muitos deles levados para o governo) para a decisão de dar luz verde a um hotel de uma empresa de Isabel dos Santos, travada instantaneamente pelo atual autarca.

Nos 14 anos consecutivos em que conduziu a maior câmara do país, o PS exerceu um mandato musculado de vontades próprias, entendendo-se isento de escrutínio e acima da obrigação de prestar contas. Quase parece, aliás, uma característica do socialismo moderno, se observarmos os mandatos de líderes do PS deste século, vários deles em julgamento, outros ainda sob investigação das autoridades competentes. Como por exemplo os que juntam o nome do atual primeiro-ministro, do atual ministro das Finanças e do primo de Ricardo Salgado, ex-vereador do Urbanismo de Lisboa no universo Olissipus.

Talvez por isso seja tão difícil a António Costa aceitar a sugestão em que Marcelo tem insistido, de que os atuais governantes - PM incluído - deviam fazer o teste do algodão. "A declaração de rendimentos e património é uma coisa, o questionário cobre outras realidades: matéria criminal, pagamento de impostos e à Segurança Social, sociedades com familiares...", lembrou o Presidente, explicando a quem não entende por que razão é desejável que ministros e secretários de Estado em funções respondam às 36 perguntas. Quantos dos atuais governantes chumbariam logo nas perguntas 32 (Tem qualquer tipo de processo judicial, contraordenacional ou disciplinar pendente em que esteja direta ou indiretamente envolvida/o?) e 33 (Tem conhecimento de que seja objeto de investigação criminal qualquer situação em que, direta ou indiretamente, tenha estado envolvido?)?

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