Vira o disco e (não) toca o mesmo. Vagas, carreiras alternativas e a qualidade da formação médica

Ao longo dos últimos 20 anos, foram esgrimidos em praça pública argumentos em defesa da limitação do acesso aos cursos de Medicina em Portugal. As justificações prendiam-se com várias ordens de razão: o custo elevado da formação, a incapacidade de garantir ensino pré e pós-graduado de qualidade (sendo este provavelmente o mais relevante), a comparação do número de médicos com outros países, o risco de um excesso de profissionais a médio prazo, preocupações do foro salarial, entre outras. Mesmo admitindo que esta limitação se justificava, o discurso era incompreensível para a opinião pública uma vez que, simultaneamente, se constatavam sucessivas, gritantes e constrangedoras dificuldades de resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Eis que surge uma situação de pandemia, profundo sobressalto emocional à escala global, na qual os profissionais de saúde foram, precisamente, um dos bens mais escassos. De um momento para o outro, as opiniões eram unânimes: não havia médicos suficientes, independente do número, distribuição geográfica, senioridade ou especialidade. Sendo certo que muitos dos argumentos que justificam a limitação no acesso possam continuar válidos, tornou-se imoral falar em excesso de formação médica enquanto houver memória do esgotamento da capacidade de resposta que se viveu.

O Sistema Nacional de Saúde, englobando todas as respostas em cuidados de saúde (SNS, instituições privadas e do setor social), evoluiu de uma vertente predominantemente assistencial para investigação, formação pós-graduada e, muito recentemente, pivot de formação pré-graduada, vertentes essas que foram tidas durante muitos anos como estando exclusivamente sob a responsabilidade do serviço público e das instituições de ensino superiores públicas. Se esta descrição parece partir de pressupostos errados quando temos em consideração os grandes centros hospitalares, com um histórico de responsabilidade na formação médica de décadas - ou mesmo séculos -, está muito próxima da realidade da maioria das instituições de saúde que tiveram, durante décadas, como única função, prestar cuidados de saúde às populações dos seus concelhos ou distritos.

A evolução do ensino superior e da formação médica levou a que hoje exista formação pós-graduada, reconhecida e de qualidade, em instituições de saúde privadas. Recentemente, também a formação pré-graduada em Medicina passou a ser uma realidade no setor privado, em paralelo, aliás, com o que se verifica em muitos outros países com os quais nos comparamos em termos de indicadores de saúde.

É, por isso, claro, que o discurso da limitação na quantidade, independentemente das razões que o possam justificar, terá de dar lugar, em exclusivo, a um discurso de defesa intransigente da qualidade da formação médica, sem admitir compromissos. E não é suficiente assumir que a formação em Portugal tem paralelo (ou mesmo melhor qualidade) com os demais países europeus, usando como justificação a facilidade com que muitos médicos formados no nosso país ingressam em programas de internato no estrangeiro, até porque o contrário também se verifica: em Portugal, e de acordo com os dados da Ordem dos Médicos, consistentemente desde há vários anos, um em cada 10 médicos é estrangeiro. Os médicos que se formam e trabalham em Portugal têm o impacto que têm na saúde dos portugueses fruto da influência que exercem no Sistema Nacional de Saúde, do seu papel de liderança de equipas multidisciplinares, do trabalho clínico que desempenham diariamente, fatores para os quais a sua formação contribui inegavelmente, a par com muitos outros, mas cujo real impacto está por avaliar.

A qualidade na formação médica deverá passar pela capacitação em áreas que, estando já dentro do seu espetro de competências destes profissionais, só raramente eram uma opção. Um processo que já começou e que terá de ser alvo de um impulso adicional a curto prazo.

A pandemia que vivemos deixou claro que os médicos podem e devem estar no planeamento em saúde, não só no plano teórico, mas também operacional, bem como na discussão de questões éticas sensíveis ou nos processos de decisão das autoridades de saúde. Estas são carreiras, lato sensu, que têm um impacto muito significativo na vida das pessoas e que necessitam, a par da vertente clínica, dos melhores médicos. Tudo aquilo que subjaz ao raciocínio clínico contribui para um processo de pensamento que é uma mais-valia ímpar. Reflexo disso é o papel central e crescente que os médicos têm na criação de tecnologias aplicadas à saúde, correspondam estas ao desenvolvimento de processos transformadores ou a novas visões para a relação médico-doente-contexto social.

Em todos os contextos, de resto, os processos de digitalização foram transformadores. A simulação biomédica saltou de um paradigma de treino e ensino para uma estratégia de otimização de algoritmos de atuação clínica; a realidade aumentada não é apenas mais uma forma de aprender anatomia passando a estar presente nos blocos operatórios; o próprio domínio da tecnologia enquanto ferramenta de comunicação é nuclear.

Paradoxalmente, este aprofundamento de "novas" competências tem de coexistir com uma formação nos domínios clássicos da formação médica, sejam eles a fisiopatologia, a ética ou mesmo a comunicação e semiologias médicas, os quais de resto, são as bases do raciocínio clínico.

O futuro apresenta, por isso, desafios para a formação médica. A qualidade terá de ser uma obsessão, a par com promoção das novas competências que permitirão ao médico ter um papel ainda mais ativo na sociedade, alargando e aprofundando a sua atuação em áreas que eram consideradas menos relevantes por se afastarem da visão clássica assistencial do médico.

Luís Patrão, Médico e cofundador da UpHill

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de