"Virar de página" sem interrupções, precisa-se!

Numa altura em que as empresas começam a visualizar um "virar de página" dos nocivos efeitos provocados pela pandemia, surgem outros obstáculos, embora de natureza completamente distinta, que têm também fortes implicações na viabilidade, na sustentabilidade dos negócios e na recuperação da atividade económica.

Refiro-me ao aumento muito significativo dos custos de produção e de comercialização que enfrentam, decorrentes do preço dos combustíveis e do preço (e escassez) de diversas matérias-primas industriais.

Devemos olhar com enorme preocupação para qualquer um destes problemas. Apesar de constituírem variáveis exógenas, pois em ambos os casos o nosso país está fortemente dependente do exterior, importa uma atuação atempada naquilo que está ao nosso alcance.

Nos combustíveis, sabemos que o preço está alinhado com a evolução do preço do petróleo Brent - que é já superior ao valor registado pré-pandemia. Também sabemos, que o preço dos combustíveis em Portugal é fortemente agravado pelo excessivo peso da componente da fiscalidade, que representa, em média, mais de metade do preço final. É aqui que devemos atuar, sem querer com isso deixar de defender a descarbonização da economia. Até se alcançar a transição energética vai demorar algum tempo e as empresas têm de ser apoiadas. A menor dependência de combustíveis fósseis deve passar, também, pela substituição do modo de transporte das mercadorias - do rodoviário para o ferroviário. Para isso, as empresas precisam de uma ferrovia competitiva, operacional e sustentável. Cerca de 60% do valor das nossas exportações de bens é feito pela rodovia, sendo apenas 1% pela ferrovia.

Quanto ao elevado preço (e escassez) de diversas matérias-primas industriais, reafirmo a rápida e urgente necessidade de um programa estratégico para a valorização da indústria portuguesa. Reindustrializar hoje não é apenas a manufatura, mas sim, a produção de todos os bens e serviços transacionáveis que conseguimos não só exportar, mas em que também conseguimos reduzir em mercado aberto e concorrencial as importações através da produção nacional.

Sem uma indústria forte (e sem serviços a ela ligados), a economia perde a sua capacidade de inovar, gerar valor acrescentado e de criar e reter empregos qualificados.

Não podemos consentir qualquer interrupção deste importante "virar de página".

Presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP)

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