opinião: Filipe Charters de Azevedo

Visão Estratégica 20/30 – lições alemãs

Arquivo DN
Arquivo DN

Portugal enfrenta hoje uma situação parecida com a da Alemanha no pós-guerra. Naquele país foram testados três modelos de desenvolvimento. Apenas um resultou e criou o colosso alemão. Portugal pode aprender com a História: Queremos liberdade ou planos de boas intenções?

No final da segunda Guerra Mundial os aliados desenvolveram um plano para a Alemanha: O plano de Morgenthau (o secretário do Tesouro Norte-Americano no final da Segunda Guerra). A ideia era eliminar a capacidade industrial da Alemanha e recuperar aquele país como um espaço agrícola.

O plano teve alguma influência até 1947, mas tinha demasiadas falhas dando por isso (demasiada?) discricionariedade ao governador militar. Mas o maior problema, era o enorme descalabro económico que se adivinhava: apesar de uma ideia romântica de autossuficiência havia fome, muita fome.

Perante esta realidade, os EUA enviaram o seu antigo presidente, o republicano Herbert Hoover, numa missão de fact-finding. O relatório produzido, de 18 março de 1947, indicava: “Existe a ilusão de que a Nova Alemanha (…) pode ser reduzida a um ‘estado bucólico [pastoral state]’. Isso não pode ser feito a menos que se extermine ou se remova 25 000 000 de pessoas”.

Ou seja, este planeamento idílico levaria 25 milhões de pessoas a morrer à fome. Note-se que em 1947 a Alemanha tinha aproximadamente 66 milhões de habitantes. Era um plano bem-intencionado, assente nas vantagens comparativas e que encaixava a Alemanha, como uma peça de um puzzle, no espaço europeu e no mundo.

Plano Marshall

Perante estes factos dramáticos, dá-se o discurso histórico de George Marshall na Harvard University em 5 junho 1947. Este discurso deu origem ao European Aid Program, ao Plano Marshall.

O discurso começava com um diagnóstico da situação alemã: “Laços comerciais de longa data, empresas privadas, bancos, companhias de seguros e companhias de navegação desapareceram, por perda de capital, nacionalização ou por simples destruição”. Após o diagnóstico, veio a parte importante: a solução. De forma quase telegráfica (o discurso é muito curto) Marshall salienta quatro pontos importantes que constituem a base do seu plano para Alemanha e Europa.

Em primeiro lugar, Marshall recuperou uma ideia económica europeia de séculos: “Todas as nações ricas têm cidades” e todas têm um setor transformador/industrial. Ou seja, o segredo não estava só na agricultura, como no primeiro plano, no plano de Morgenthau. Em segundo lugar, destacou o político, era necessário “romper o círculo vicioso e restaurar a confiança do povo europeu” – esta ideia de confiança é fundamental para compreender o processo de construção europeia e a dádiva americana. Salientou depois, em terceiro, que a “política não devia ser direcionada contra um país ou doutrina, mas contra a fome, a pobreza, o desespero e o caos”. O objetivo devia ser criar condições mínimas de subsistência, para que depois pudesse haver instituições livres e democráticas. Finalmente, e em quarto lugar, Marshall enfatizou que a ajuda ao desenvolvimento não deve ser fragmentada ou paliativa: “Qualquer assistência que este governo [americano] possa prestar no futuro deve fornecer uma cura e não um mero paliativo.”

Pondo de outra forma – o plano Marshall era simples: A Alemanha, e o resto da Europa, deveriam ser reindustrializados, com políticas que incluíam intervenções económicas pesadas: dinheiro em barda, impostos elevados, quotas e proibições de importação, preços e os salários rigidamente congelados. O comércio livre e a liberdade em geral só seriam possíveis após a reconstrução e a competitividade internacional serem alcançadas.

Liberalização de Erhard

O resultado deste plano? Apesar do que nos ensinaram na escola, foi um fracasso. Sim, correu mal. O erro de Marshall foi o de acreditar que o desenvolvimento e o fim da pobreza originam a liberdade e a liberdade económica, e não o contrário.

Não havendo nenhum Estado que consiga garantir e tirar da pobreza toda a sua população, neste caso 66 milhões, a única solução é dar condições para que cada um percorra o seu próprio caminho de prosperidade e, este aspeto é muito importante, que optando pelo seu próprio sucesso contribua para o bem comum.

Este alinhamento de incentivos chegou com Ludwig Erhard. A ilustração máxima desta visão dá-se com o fim de controlo de preços. Sem esperar a autorização dos Aliados e da administração militar, Erhard aboliu todo o tipo de racionamento e controlo de preços. Os seus diálogos com as autoridades americanas tornaram-se lendários:

– Coronel Norte Americano: Como se atreve a aliviar o sistema de racionamento quando há uma falta de víveres?

– Erhard: Mas eu não aliviei o racionamento, eu aboli-o! Agora, o único cupão de que as pessoas precisam é o Deutschemark [nova moeda]. E vão trabalhar à doida para ter esses marcos, espere e vai ver!”

Resultou em cheio! Na Mais breve história da Alemanha o jornalista Hawes conta: “Não há alemão dessa geração que não se recorde como, praticamente da noite para o dia, as lojas se encheram rapidamente e as fábricas criaram trabalho”.

Não houve nenhum planeamento federal, não houve consultores providenciais, não houve financiamento monetário com intuito de ‘estimular a economia’. Claro que as fábricas só tinham sido parcialmente destruídas nos bombardeamentos, que a nova moeda era forte e a taxa de câmbio era competitiva. Destaco ainda que foi dado espaço e tempo para a Alemanha encontrar o seu papel na Europa e no mundo.

Mas acima de tudo, e esta é a conclusão a reter e é bastante simples: Em momentos de escassez a solução passa sempre pela liberdade económica. E não o contrário.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Foto: EPA/PATRICK SEEGER

Bruxelas dá luz verde a Banco Português de Fomento

Exemplo de ouro numa loja de câmbio em Klaaswaal, Países Baixos. (EPA/ROBIN VAN LONKHUIJSEN)

Ouro atinge recorde e excede os 2 mil dólares

Centenas de turistas visitam todos os dias os jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Fotografia: Leonel de Castro/Global Imagens

FMI: Portugal com perdas acima de 2% do PIB devido à quebra no turismo

Visão Estratégica 20/30 – lições alemãs