Vitalidade da economia é afinal anemia

Na crise pandémica que há mais de um ano escurece as perspetivas económicas mundiais, o emprego em Portugal tem conseguido resistir ao pior. E disso tem feito alarde António Costa à frente do seu batalhão de governantes, empunhando a bandeira de uma importante conquista em tempos de guerra. Quando se vê os números de perto, porém, os sinais de alerta são flagrantes e deviam despertar antes grande preocupação.

Se alguma perda de rendimentos foi inevitável por efeito da pandemia, a brutal crise social que o desemprego em grande escala traria ao país tem sido evitada - ou adiada -, mas a capacidade de manter esse suporte por muito mais tempo está a esboroar-se. E o que não desaparece deixará uma fatura pesada e permanente a engordar os gastos do Estado.

Conforme se extingam os apoios às empresas - o lay-off deverá continuar, assegura o Executivo, mas a verdade é que serão cada vez menos as companhias que cumprem os requisitos para poderem recorrer a esse apoio; e os prazos previstos para impedir despedimentos nas que dele beneficiaram vão-se esgotando - e sem que a recuperação chegue na força e velocidade que seria desejável, sobretudo nos setores dos serviços e mais dependentes do consumo, muitas ver-se-ão obrigadas a reestruturar-se e cortar quadros.

O fator mais preocupante, porém, está do lado do Estado, onde o reforço de funcionários - que representam despesa pública a longo prazo - tem sido feito a um ritmo recorde. Nos últimos meses, as contratações para a função pública subiram a pique, tendo sido já recuperada toda a dimensão que a troika obrigou a emagrecer - e sem que isso se traduza sequer num aumento de qualidade dos serviços públicos. Portugal tem hoje 731 285 funcionários a cargo do Estado, uma escassa diferença de 200 para o recorde de empregos públicos, atingido em 2005, com José Sócrates a liderar o governo. Só nos três meses antes deste verão, o reforço de funcionários públicos foi de 16,7%. E destes, não chegam a 4 mil os que representam reforços na saúde: na comparação com junho de 2020, há hoje apenas mais 1166 médicos e 2802 enfermeiros.

O estado do emprego em Portugal não está nem perto de traduzir, como dizia Siza Vieira, a "vitalidade da economia". É antes prova vive da gravidade da sua anemia.

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