Opinião: João Almeida Moreira

Viva a “nova” política brasileira

Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil.  EPA/MARCELO SAYAO
Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil. EPA/MARCELO SAYAO

A eleição do último sábado para a presidência do Senado Federal, que somou 82 votos na urna mesmo com apenas 81 eleitores, que foi fiscalizada por um parlamentar que de dia trabalha no Congresso e à noite volta para a cadeia por estar preso, em que se viu uma senadora a roubar o microfone e o bloco de notas do presidente da sessão e que teve um eleito da nação a desafiar outro para “a porrada”, expôs a diferença entre a política do antigamente e a política do amanhã no Brasil.

Renan Calheiros, o favorito a ganhar a eleição, representava a velha política. Adepto do coronelismo, do nepotismo e de todos os “ismos” próprios do terceiro-mundo, o senador responde a uma dezena de inquéritos em torno da Operação Lava-Jato no Supremo, fora os que prescreveram, como o do caso da empreiteira amiga que pagava o aluguer da casa onde moravam a sua amante e o seu filho fora do casamento.

Calheiros (63 anos), aliás, é um prodígio: poderoso milionário do Alagoas, o estado mais miserável do Brasil, apoiou com unhas e dentes o seu conterrâneo Fernando Collor de Mello na disputa pela presidência do Brasil, em 1989.

Com Collor caído em desgraça, tornou-se ministro da justiça do governo de Fernando Henrique Cardoso. Seguiu-se período de submissão e améns aos governos do PT.

Outubro de 2018 parecia o fim da linha para o rei do oportunismo: como no nordestino Alagoas estar contra o PT é suicídio político, declarou apoio a Fernando Haddad, o rival do futuro presidente Jair Bolsonaro.

Afinal, não era o fim da linha: nas primeiras semanas de bolsonarismo, piscou o olho ao capitão reformado declarando-se “um soldado pronto a bater continência”.

No entanto, o passado imoral trouxe-lhe inimigos. Na internet houve tanta campanha contra Calheiros que alguns senadores, na hora do voto, que deveria ser secreto, acabaram por perguntar via redes sociais por quem deveriam optar – e fizeram-no de acordo com os “likes” recebidos.

Venceu a corrida à presidência do Senado, então, o preferido do twitter e do whatsapp Davi Alcolumbre (41 anos), representante da “nova’ política – assim mesmo, entre comas, muitas comas.

Alcolumbre foi apoiado por Onyx Lorenzoni, o ministro de Bolsonaro que recebeu subornos da mais corrupta das empresas brasileiras, a JBS, e usou faturas falsas em campanha, e recebeu o voto de Flávio Bolsonaro, o primogénito do presidente que ao que tudo indica empregou assessores fantasma de quem desviou o salário e é amigalhaço dos criminosos por trás da execução da vereadora de Marielle Franco.

Talvez por contar menos 22 anos de idade que Calheiros, Alcolumbre tem apenas dois inquéritos a correr no Supremo, por recurso a faturas falsas em campanha.

Em 2016, votou contra a perda do mandato de Aécio Neves, o político enterrado até ao pescoço na lama da corrupção, mesmo que o seu partido tenha deixado a decisão ao critério de cada senador.

E no final do ano passado apoiou o projeto de aumento salarial dos juízes do Supremo que, por efeito dominó, elevou os gastos com a função pública em quatro mil milhões de reais em plena maior crise económica das últimas décadas.

Antes, o representante da “nova” política – não se esqueça de fazer aquele gesto das aspinhas com o indicador e o dedo médio – fora notado por encher o tanque do seu carro com verba pública milionária no posto de combustível de Salomão Alcolumbre, seu tio, e de ter redigido o inadiável projeto para renomear o aeroporto da sua Macapá natal para Aeroporto Alberto Alcolumbre, em honra de outro tio.

Enterrada a velha política, viva a “nova” política brasileira!

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