Opinião

We don’t need no education

Fotografia: Adelino Meireles/Global Imagens
Fotografia: Adelino Meireles/Global Imagens

Sou suficientemente radical para afirmar que muita coisa tem de mudar nas universidades

As universidades portuguesas enfrentam importantes desafios. A par da transformação digital, com as suas fortíssimas implicações em termos de conteúdos programáticos e de metodologias de aprendizagem, assiste-se a uma crescente mobilidade de estudantes e professores, o que torna a concorrência formativa cada vez mais global. Por outro lado, à adaptação constante dos programas para dar resposta às rápidas mutações do mercado de trabalho, junta-se a necessidade de desenvolver human skills, como inteligência emocional e pensamento crítico, que são transversais a todas as áreas científicas, independentemente das hard skills de cada uma.

No âmbito daquela que é considerada a sua primeira missão, as nossas universidades têm de alterar de forma radical a sua postura. Com efeito, o professor é ainda visto como um recetáculo de saberes acumulados cujo papel é transmitir esse conhecimento a alunos que o devem absorver de forma mais ou menos passiva. Neste contexto, dentro da sala de aula (e não só!) o professor é o ator principal.

Isto tem de mudar. Mais do que ser transmitido, o conhecimento deverá, pelo menos em parte, ser construído em conjunto com os alunos que, desta forma, se tornarão agentes ativos do processo, assumindo um papel que atualmente não têm. O foco deverá estar cada vez menos no ensino e mais na aprendizagem – naquele, o elemento central é o docente, nesta é o estudante. Esta mudança irá redefinir todo o processo de construção do conhecimento e de desenvolvimento de competências e atitudes:

Mais coletivo – a aprendizagem deverá ser realizada mais em conjunto e de forma interativa. Os chamados trabalhos de grupo são apenas uma das abordagens possíveis, pois o que verdadeiramente interessa é que, através do conhecimento e experiência dos próprios alunos, se potenciem novos saberes e competências de forma co-criativa e relacional.

Mais experiencial – por outro lado, a aprendizagem não deverá ser apenas “mais prática” – terá de ser mais experiencial, no sentido de que os alunos deverão ser expostos a vivências que se aproximem, tanto quanto possível, de desafios concretos em contexto real, treinando assim a forma de lidar com o imprevisto, o stress e a mudança.

Mais interrogativo – mais do que dar respostas, apenas reproduzindo o que lhes foi transmitido, espera-se que os alunos saibam levantar questões – ou seja, que saibam pensar pois, como afirma Alvin Toffler, “a pergunta certa é geralmente mais importante que a resposta certa à pergunta errada”.

Sei que o que foi dito não é uniforme para os vários ciclos de estudo – uma coisa é a licenciatura, outra o mestrado e outra totalmente diferente é o doutoramento. Também sei que a área científica introduz grandes especificidades – certamente que a forma de ensinar/aprender será distinta conforme se trate de ciências da vida, humanidades, ciências sociais, tecnologias ou artes.

Mas também sei que as instituições de ensino superior portuguesas, sejam universitárias ou politécnicas, têm de demonstrar estar à altura dos desafios de um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo. Não assumo uma posição tão extrema quanto os Pink Floyd quando declaram que “we don´t need no education”. Mas sou suficientemente radical para afirmar que muita coisa tem de mudar nas universidades. A começar nas pessoas (docentes, não docentes e estudantes) e a acabar nas estruturas de governação, passando pela avaliação do mérito e gestão do talento. Isto sem falar nas vertentes de investigação e impacto na sociedade…

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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