Workaholics: flores ou ervas daninhas

O tema do "workaholism" que, traduzido não literalmente, seria em português "trabalhoólico", nunca é muito discutido pois quem se "atrever" a atacar tal dependência passa muitas vezes por ser contra o trabalho e, portanto, politicamente incorreto neste mundo de múltiplas fachadas.

Quando ouço, principalmente gestores, dizer na comunicação social que são workaholics fico sempre com uma dúvida: a pessoa está a assumir isso como um defeito correto - como, por exemplo, dizer nas entrevistas de emprego que o maior defeito pessoal é a teimosia -, ou está orgulhosamente convencida de que ser workaholic é o que se espera de um(a) profissional dedicado(a) e empenhado(a) no seu trabalho?

De facto, ser dependente do trabalho e ser empenhado no trabalho são coisas muito diferentes. O "trabalhoólismo" pode conduzir a efeitos destrutivos para a pessoa e o seu circuito de contactos próximos, pessoais e profissionais, enquanto que o profissional dedicado pode contagiar ações e sentimentos positivos à sua volta devido a um consistente aumento da sua performance e bem-estar.

O "trabalhaólico" não tem praticamente interesses fora do seu âmbito funcional e, com o tempo, vai afunilando toda a sua vivência pelo excessivo foco na função. Esse afunilamento não permite que a pessoa traga novos conhecimentos e novas realidades à sua empresa.

Nos mercados atuais com elevada concorrência e mudança, há uma crescente necessidade de inovação e capacidade de romper com paradigmas de forma a assegurar diferenciação. Nesse sentido, essas pessoas não podem contribuir, pois o seu universo cognitivo está dentro de uma estreita caixa mental. Começam a não saber distinguir prioridades, baralhando os dois universos - profissional e pessoal - em detrimento deste último, gastando o seu tempo e energias físicas e mentais de uma maneira pouco eficaz para a empresa e, a médio prazo, para o próprio. Deste modo, a obsessão com o trabalho acaba por ter também consequências a nível pessoal que se refletem negativamente na concentração na função, numa espiral destrutiva.

Na maior parte das empresas este facto é agravado quando essas pessoas estão colocadas em cargos de relevo, com elevadas responsabilidades e maiores probabilidades de gerar entropia e energias negativas nas suas equipas tendo, assim, elevado impacto na organização.

Em total contraste, o profissional dedicado e concentrado pode trabalhar longas horas quando necessário, mas mantém outras atividades e interesses - desportivos, culturais, voluntariado, etc. - os quais lhe permitem estar em contacto com o mundo e pessoas "reais" (algumas até clientes da sua empresa) e incorporar essas experiências da vida, consciente ou inconscientemente, na sua organização.

Este profissional sabe que o compromisso e o contributo que dá para o sucesso da sua empresa é uma parte necessária, mas não suficiente para o seu bem-estar e alegria de vida, pois há um Mundo que se interseta onde está a sua família e amigos, que ainda é mais importante para a sua construção e manutenção como ser humano feliz e produtivo.

O desafio das organizações que querem ser criativas e com capacidade de diferenciação nos respetivos mercados está em criar condições, através da sua cultura e valores, de modo a atrair este tipo de profissionais.

Diretor Comercial e de Marketing da RHmais

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