Opinião: Ana Rita Guerra

Xenobots, os robôs vivos e auto-regenerativos

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Sam Kriegman/UVM

Estes cientistas pioneiros conseguiram um marco notável na busca milenar dos seres humanos por formas de prolongar a vida

Calma, estamos muito longe do conceito de exterminador implacável que regenera qualquer ferida em segundos e corre mais depressa que os cães da Boston Dynamics. Mas esta criação dos cientistas das universidades de Vermont e Tufts é um avanço notável que será inscrito nos livros de história do século XXI: os xenobots são os primeiros organismos vivos programáveis, criados a partir de células estaminais de embriões de sapos.

Não são bem robôs, e não são bem animais. Os xenobots, cujo nome vem do tipo de sapo usado para a extracção das células estaminais, xenopus laevis, foram criados pelo supercomputador da Universidade de Vermont e depois testados pelos biólogos da Universidade de Tufts. O site dos investigadores chama-lhes “organismos desenhados por computador.” Bem-vindos a 2020.

Segundo a descrição dos cientistas, os xenobots têm um milímetro de largura e podem ser programados para irem ao encontro de um alvo. São “máquinas vivas”, caracterizou o cientista informático Joshua Bongard, que co-liderou a pesquisa, um organismo completamente novo. “Não são nem um robô tradicional nem uma espécie conhecida de animal”, disse. “É uma nova classe de artefacto: um organismo vivo e programável.”

O projecto foi parcialmente financiado pela agência federal que pesquisa tecnologias para utilizações militares, o que coloca um ponto de interrogação em relação aos fins possíveis. Mas as conclusões do artigo científico sobre a descoberta, que foi publicado no Proceedings of National Academy of Sciences, não mencionam qualquer aplicação no âmbito da defesa.

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As aplicações destas criaturas, tais como descritas no artigo, são variadas e em áreas onde outras máquinas não funcionam apropriadamente. Por exemplo, segundo o co-responsável pela pesquisa Michael Levin, será possível usar xenobots para “raspar” a placa de gordura que se forma nas artérias do corpo humano. Ou enviá-los para recolher micro-plásticos nos oceanos. Ou ainda para limpar resíduos radioactivos. E para administrar medicamentos em partes específicas do corpo. Ao contrário dos robôs convencionais, os xenobots não se degradam e não têm de ser reciclados.

Mas isso também obriga a colocar questões éticas: se futuras versões forem mais complexas e tiverem sistemas nervosos, como é que serão classificadas? Como é que deverão ser tratadas? São interrogações que devem ser debatidas em paralelo ao desenvolvimento das aplicações destes organismos, cujo potencial é extraordinário. Imaginem o que isto poderá trazer em termos de invenções que permitam aumentar a longevidade dos seres humanos. Em termos de pesquisa da biologia das células.

Eis o que dizem os investigadores na sua página: “salvo as doenças infecciosas, praticamente todos os outros problemas da medicina se resumem ao controlo da anatomia. Se conseguíssemos fazer formas biológicas 3D à medida, podíamos reparar defeitos de nascença, reprogramar tumores para tecidos normais, regenerar após uma lesão traumática ou doença degenerativa, e derrotar o envelhecimento (tal como os organismos altamente regenerativos como a planaria fazem).”

Atentem bem nisto. Estes cientistas pioneiros conseguiram um marco notável na busca milenar dos seres humanos por formas de prolongar a vida. Se não tornarmos o planeta inabitável entretanto, poderemos imaginar a extensão da vida natural para os 150 anos? Com muito maior qualidade de vida do que é possível almejar hoje para a terceira idade? E conseguiria a sociedade – e a Terra – albergar estas novas gerações de ultra-velhos? É um cenário fascinante, que talvez ainda nos confronte durante este século.

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