Zuckerberg está errado

Existe uma linha que separa a opinião do crime, a livre expressão da incitação ao ódio e à violência. É claro que uma rede pode impô-la

À porta do centro comercial Santa Monica Place, muito perto do icónico pontão e da praia cinematográfica banhada pelo oceano Pacífico, militares fardados da Guarda Nacional patrulhavam as ruas onde nos últimos dias desceu o caos. Era um cenário impossível de prever fora de um filme apocalíptico, com gás pimenta, balas de borracha e cargas policiais que varreram pontos da cidade tão distintos como Santa Mónica, Beverly Hills e baixa de Los Angeles.

Ninguém imaginava que o confinamento da pandemia de covid-19, que correu de forma cívica na cidade, teria este fim abrupto e violento, com helicópteros a sobrevoarem constantemente e militares armados a patrulharem as ruas. A câmara municipal foi guardada durante todo o fim-de-semana. Os telemóveis soaram várias vezes com mensagens do sistema de emergência, informando os residentes do recolher obrigatório. As farmácias de serviço encerraram e muitas lojas foram pilhadas e danificadas. Em Long Beach, a destruição foi tão grande que o mayor falou à população numa conferência de imprensa improvisada noite dentro. Ontem, Santa Mónica e Beverly Hills impuseram recolher obrigatório a partir da uma da tarde. Mais de 400 pessoas foram presas. Não é só o caldo que está entornado; a cozinha inteira está a arder.

E isso é claro para as plataformas de redes sociais que estão a ter um papel fundamental nesta insurreição, gerada pela morte do afro-americano George Floyd às mãos de um polícia. Quando o Twitter assinalou um tweet do presidente Donald Trump como “glorificação da violência”, muitas vozes se insurgiram contra a medida, porque crêem que não cabe a uma rede social ser árbitro da verdade. Essa é a posição de Mark Zuckerberg. E ela está errada.

Se é preciso anular a secção 230 do código que protege os sites e empresas tecnológicas de responsabilidade, tal como o presidente Trump quer, então faça-se. Mas não sejamos tolos a fingir que as plataformas são ou devem ser neutras. A liberdade de expressão protege-nos de retaliação do governo por discordarmos dele; não nos protege da crítica e muito menos da verificação de factos. Mais, ninguém acredita que o Estado Islâmico deve poder publicitar decapitações no Twitter e ninguém acha que nazis devem poder recrutar comparsas para a limpeza étnica no Facebook. Existe uma linha que separa a opinião do crime, a livre expressão da incitação ao ódio e à violência. Claro que uma rede pode impô-la.

A atitude de laissez faire et laissez passer tem sido desastrosa. Já experimentámos e correu mal. A discussão pública está num nível pantanoso, com graves consequências para o processo democrático. A desinformação tem sido fatal durante a pandemia de covid-19. E agora é um faroeste nos protestos relativos a George Floyd, com infiltração de grupos extremistas, vindos de fora das comunidades afectadas, que pretendem instrumentalizar as reivindicações de movimentos pacíficos para obterem o resultado oposto.

O país está a ferro e fogo não só por causa da morte de George Floyd, que foi asfixiado depois de estar nove minutos no chão com um polícia ajoelhado no seu pescoço. “Agente, não consigo respirar”, ouve-se repetidamente no vídeo, numa súplica final de quem foi mais uma vítima de brutalidade policial. Este levantamento popular impetuoso deveu-se ao facto de este polícia não ter sido inicialmente preso ou acusado de nada.

Existe uma fúria dolorosa (e bem fundamentada) em relação à forma como afro-americanos são tratados neste país, o que se reflecte em vida e na morte. Os mesmos que se ultrajaram quando Colin Kaepernick se ajoelhou em campo são os que agora não se insurgem contra o joelho de um agente no pescoço de um ser humano. Ouvir discursos de Martin Luther King de há 50 anos mostra-nos que o muito que mudou ainda é sobejamente insuficiente.

É, por isso, muito preocupante ver como a polarização exacerbada pelas redes sociais está a minar esta discussão que tem de ser tida, porque não haverá mudança voluntária. Os algoritmos que alimentam as plataformas valorizam a raiva, a fúria, a indignação, muito mais que o “gosto” e o “coração”. Aquilo que nos divide e ultraja é mais envolvente que o que nos aproxima; mais facilmente as pessoas entram num site para dar pontapés virtuais que abraços. As plataformas sociais têm uma influência gigante na forma como as pessoas vêem o mundo e interagem com o que os rodeia, mas as métricas de rentabilidade e envolvimento chocam com essa responsabilidade.

Por isso é preciso, de facto, regulamentá-las. O próprio Facebook já o pediu. Mais do que terem respaldo legal, é preciso assumir que as redes sociais são entidades híbridas, não neutrais, com um conjunto de características inéditas e um papel distinto dos jornais, dos sites e dos blogues. Mexem com o que há de mais profundo na construção do eu e do diagrama social. A neutralidade, aqui, é tudo menos neutra.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de