Opinião: João Almeida Moreira

A desilusão amorosa do mercado

Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. EPA/JOEDSON ALVES
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. EPA/JOEDSON ALVES

A Bovespa bateu o recorde de movimento de dinheiro no day after da primeira volta das eleições.

Novembro de 2017.

Incógnito, como de costume, o “mercado”, essa entidade de que se sabem algumas características – é nervoso, influenciável, imprevisível, agitado, às vezes furioso – mas não se conhece o rosto, falava na primeira página do Folha de S. Paulo, o maior jornal do Brasil. Dizia ele que para evitar a vitória nas eleições de 2018 do antigo metalúrgico, sindicalista e presidente Lula da Silva, então ainda solto e a liderar todos os cenários nas pesquisas de opinião, se inclinava para o segundo classificado nessas mesmas pesquisas.

Antes, ao “mercado” interessava ter o seu próprio candidato mas como os nomes que mais lhe agradavam – o do ultra-liberal João Doria, prefeito de São Paulo, e o do neo-conservador Henrique Meirelles, ministro das finanças de Michel Temer – não conseguiram concorrer ou não cativaram o povão das sondagens, a opção passava a ser o tal vice-líder nas projeções, nada menos que Jair Bolsonaro, em fase de moderação forçada no discurso económico para seduzir, lá está, o “mercado” e conduzido por um homem do ramo, Paulo Guedes, na economia.

Outubro de 2018.

O day after da primeira volta das eleições, uma segunda-feira, dia 8, fica na história do Brasil como o dia em que a Bovespa, bolsa de valores de São Paulo, bateu o recorde de movimento de dinheiro até então. O “mercado”, louco de paixão por Jair Bolsonaro e pelo seu ministro das finanças Paulo Guedes, dava uma prova do seu amor – além de nervoso, influenciável, imprevisível, agitado, furioso, ele também é romântico.

Por “mercado”, leia-se, claro, “mercado brasileiro” porque a sua versão internacional, representada, por exemplo, pela Standard & Poor’s, lembrava por aqueles dias que Fernando Haddad, mesmo sendo de esquerda, apresentava menos risco do que Bolsonaro. “O candidato do PT não é um estranho e Bolsonaro é, o que aumenta o risco de incoerências ou atrasos a lidar com o Congresso após a vitória nas eleições e os problemas orçamentais e sociais já estão aí e são urgentes”, previa Joydeep Mukherji, analista da agência para o mercado latino-americano.

As gestoras americanas de ativos Black Rock e Ashmore iam mais longe. A primeira, a maior do mundo, dizia que uma vitória de Bolsonaro poderia comportar “um gatilho de agravamento” na agenda latino-americana; a segunda sublinhava em relatório que enquanto Haddad “é de uma ala moderada do PT”, o candidato de extrema-direita tem “preocupantes tendências autoritárias”.

Até a imprensa internacional que mais dá voz ao “mercado”, como o Financial Times e a The Economist, ia na mesma direção. A segunda chamava mesmo de “desastre” uma eventual vitória do candidato do PSL.

Entretanto, chegamos a junho de 2019.

Após ouvir de 22 a 25 de maio 79 investidores institucionais, entre gestores de recursos, economistas e consultores de grupos nacionais e internacionais na Bovespa – o “mercado”, portanto – a assessoria XP Investimentos concluiu que de janeiro, mês da posse, a maio, a percepção de que o governo de Bolsonaro era “ótimo ou bom” caiu 72 pontos – de 86% para 14%. Enquanto o nível de “mau ou péssimo” subiu de 1% para 43%.

O “mercado”, que além de nervoso, influenciável, imprevisível, agitado e furioso, também é romântico, está, sabemos agora, a passar por uma traumática desilusão amorosa. Coitado dele e de todos os brasileiros.

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