A dívida é como as bicicletas: sem rodinhas, a criança vai ao chão

Há várias dessintonias no discurso de Passos Coelho, mas a maior (ou pelo menos a mais séria) centra-se na dívida. Passos garante que as necessidades de financiamento do Estado para 2013 estão asseguradas. Que o país não precisa de mais dívida, que pode começar já a gerir 2014, que se não houver atropelos (leia-se o Constitucional), o regresso aos mercados no próximo ano está no bom caminho.

Só que as certezas diluem-se nas dúvidas e na falta de explicações. Portugal vai hoje ao mercado financiar-se a 12 meses (a uma taxa relativamente barata, 1,7%), mas mantém na agenda de 2013 emissões a um ano, 18 meses, talvez dois anos. Ninguém explica bem porquê, mas com boa vontade podemos acreditar que são emissões curtas para ir testando o mercado.

Olhando para o balanço do Estado – os quase 10 mil milhões de euros que o Governo tem nos vários bancos – percebe-se que o país, a curto prazo, nunca entrará em default. As taxas de juro a curto prazo refletem essa segurança e mostram que, se Portugal vivesse só de dívida a curto prazo, o caso não seria tão sério.

Mas não vive. E quando se olha para um horizonte mais longínquo, as coisas complicam-se. Com taxas para a dívida de 3,6% (a dois anos), 5,6% (a cinco anos) e 6,3% (a dez anos), o país está longe de ter recuperado a credibilidade e longe, muito longe, de conseguir aguentar-se nesta estrada de financiamento. Com uma previsão de taxas de crescimento de 0,3% (2014, Banco de Portugal) e um stock de dívida de 206 mil milhões de euros, não há conta que resista.

Por isso, a dúvida está no que Passos não diz. Bruxelas já ajudou a reescalonar os prazos de pagamento da dívida e vai ajudar no regresso aos mercados com um programa cautelar. Será uma verdade parcial: mesmo que consiga emitir dívida, o Estado terá sempre uma mão invisível a ajudar nas compras. É como andar de bicicleta com rodinhas: andar, anda, mas sem rodinhas a criança cai.

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