A Gisele Bündchen na seleção

Realmente é muito simbólica a questão dos jogadores e dos
carros deles. Na véspera do jogo de amanhã com a Alemanha é isso que
se discute no país. Havia indignação: muita. E demagogia:
muitíssima. Os Lamborghini, os Mercedes e os Porsche. O parque
automóvel sempre foi uma obsessão nacional. O problema não é termos uma boa
equipa, mas um meio-campo sofrível – os carros dos futebolistas é que
nos lixam completamente. Falta-nos meio-campo, mas isso é um detalhe
perante as navalhadas que nos apetece cravar no Lamborghini.

Portugal
não gosta de sucesso. Dá-se mal com ele. Os ricos, os capitalistas
– até os que ganham o dinheiro com o suor do corpo, como os
atletas – metem-nos algum nojo. Chateiam a malta. São uns
provocadores. Deviam disfarçar-se, ser humildes. Andar de Seat.
Mas eu não vou nesta conversa. Quero falar-vos do que me preocupa:
o meio-campo da seleção. Há ali muita mediania, muito passe
falhado. Não temos um organizador, um cérebro, um maestro de
chuteiras. Não temos o Rui Costa ou o Deco. Temos o Moutinho. Eis o
nosso problema.

Há pessoas – há equipas – que conseguem muito
com pouco. Gente com talento mediano que atinge coisas
extraordinárias. Carreiras de sucesso. Êxito. Até lambem os dedos
com a fartura. Aquele careca que anda com a loira pecaminosa – por
mil trovões, como conseguiu? Mais exemplos: a Grécia no Euro 2004,
a Dinamarca em 1996. O que acontece quando se dá este milagre? Não
é apenas sorte. É mais do que isso. Chama-se confiança, segurança,
arrogância. Portugal ainda tem isto em dose curta.

Para ganharmos
temos de ser muito bons. O que digo? Estou a ser comedido. Temos de
ser magníficos. Temos de reinventar a pólvora – e a bola também.
Temos de ser a Gisele Bündchen do futebol. Não nos chega
umRonaldo, precisamos de três ou quatro. Meia dúzia é que era. É
uma questão económica. A economia do talento: conseguir muito sem
muito talento. Ainda não atingimos esse ponto civilizacional
superior. Ou teremos atingido?…

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