Opinião

Opinião. A Inteligência Artificial não está a chegar… já está cá!

REUTERS/Nigel Treblin
REUTERS/Nigel Treblin

Esta disrupção vai, muito provavelmente, criar tantas indústrias e parcerias como aquelas que destrói

No Mobile World Congress (MWC) deste ano em Barcelona, Masayoshi Son fez uma declaração arrojada. O fundador do SoftBank, uma empresa de tecnologia e telecomunicações, anunciou que “o dia em que a inteligência artificial vai ultrapassar o cérebro humano… vai chegar nos próximos trinta anos”. Uma afirmação imensa num evento marcado pelo relançamento do Nokia 3310.

A Inteligência Artificial (IA) tem uma longa história. Prometeu florescer primeiramente nos anos 1950, quando os programadores começaram a treinar os computadores para detetar padrões em bancos de dados. Desde então, a definição de IA progrediu para passar a abranger uma qualquer tecnologia que entenda o mundo exterior, processe essa informação e aja por meio de resposta.

Até recentemente, ou as máquinas careciam do poder computacional para correr os necessários algoritmos ou os bancos de dados eram demasiado diminutos para conter informação suficiente para um treino adequado. Além disso, tem sido relativamente fácil ensinar os computadores a resolver equações diferenciais complexas ou a jogar xadrez, mas quase impossível atribuir-lhes competências básicas como andar ou agarrar coisas. Isto é conhecido como o Paradoxo de Moravec.

Porém, a emergência de IA genuína é hoje uma real possibilidade. Isto deve-se a uma convergência sem precedentes entre a poderosa computação assente na nuvem (cloud), a tecnologia móvel e a escala absoluta dos meta-dados (big data). Melhores processadores significa que os computadores podem processar mais dados e mais depressa. Em contrapartida, big data significa mais informação para os computadores processarem. O resultado é que, mais do que nunca antes, os computadores podem aprender mais, e mais depressa, sobre o mundo exterior.

Contudo, é importante compreender que muita da IA atual está já a consegui-lo nos bastidores ou prestes a iniciar essa jornada. E o desenvolvimento dos smartphones tem sido fundamental para isso. A Lei de Moore, uma observação que o desempenho dos chips duplica todos os anos, significa que o smartphone médio tem, atualmente, um poder computacional bastante superior aos maiores supercomputadores de há cinquenta anos.

Combinado com a sempre ligada conectividade e múltiplos tipos de sensores, o smartphone tornou-se numa das ferramentas mais poderosas do mundo para a compilação de dados. Todos os dias, as pessoas em todo o mundo utilizam o seu telefone para monitorizar o consumo de calorias, fazer compras e cada vez mais, através da ‘Internet das Coisas’, controlar as máquinas em seu redor. A informação daí resultante pode ser armazenada, analisada e interpretada de forma pouco onerosa, de tal forma que quase todos os nossos telefones integram já uma qualquer forma de IA.

Por exemplo, no mundo dos transportes, os algoritmos para o planeamento de rotas, que se adaptam às mudanças nas condições do tráfego, fazem já parte das nossas vidas. E pequenas melhorias como o auto-estacionamento e o cruise control ajustável estão numa trajetória semelhante. Hoje, comunicamos de forma rotineira com os nossos computadores através de assistentes virtuais como a Alexa da Amazon, a Siri da Apple e a Assistente da Google. Mesmo no mundo dos serviços financeiros, a IA está a ser utilizada para calibrar decisões de investimento na forma de “conselheiros robô” como o Wealthfront, que fornecem serviços automatizados e ainda detetam a fraude.

No entanto, estes desenvolvimentos na fase inicial (early-stage) estão a ganhar forma para guiar a próxima vaga de inovação, inteligência e automação ao longo das próximas décadas. A Tesla gaba-se que os seus veículos já “têm o hardware necessário para uma condução totalmente automática com um nível de segurança francamente superior à condução humana”. Entretanto, no campo da medicina, as possibilidades de salvar vidas humanas são ainda maiores. Uma equipa do Imperial College em Londres desenvolveu IA que consegue diagnosticar a hipertensão pulmonar com uma precisão de 80%1, comparado com os cardiologistas que apresentam uma precisão de tipicamente 60%. A Google, entretanto, atingiu resultados ao nível do estado da arte para a identificação do cancro da mama2. E enquanto os assistentes virtuais já compreendem e reagem aos nossos comandos, não deveríamos ficar surpreendidos por começar a vê-los prever e apoiar as nossas ações no futuro.

Estas mudanças vão ter um impacto dramático nas empresas em que investimos, direta e indiretamente. Por exemplo, o trabalho nos carros sem condutor de empresas como a Google, Tesla e Uber ameaça, não apenas os estabelecidos gigantes da indústria automóvel, como os negócios que os fornecem. Os automóveis guiados por IA vão mover-se de forma diferente, mas continuam a ter donos, a ser reparados e, com a eliminação do erro “humano”, a serem segurados de uma forma também diferente.

Esta disrupção vai, muito provavelmente, criar tantas indústrias e parcerias como aquelas que destrói. Para compreender como isto pode afetar os investidores, basta olharmos para o S&P 500. Em 1960, o ativo típico estava no índice há pelo menos 60 anos. Trinta anos mais tarde, esse período tinha baixado para 20 anos. A tendência atual caminha para os 12 anos3. O ritmo alucinante a que a tecnologia progride significa que as empresas estão cada vez mais vulneráveis à disrupção – desde 1989, todos os rendimentos de longo-prazo do S&P 500 vieram apenas de 20% dos ativos. Em resultado disso, esta vulnerabilidade à disrupção é algo que escolhemos incluir ativamente na nossa análise mais abrangente de empresas.

Os benefícios potenciais da IA levaram a que alguns equiparassem os seus avanços à próxima revolução industrial. Da mesma forma que as máquinas a vapor mudaram a face das economias rurais e a força de trabalho, a IA tem potencial para interferir com modelos de negócios na sua totalidade. Enquanto investidores, é nosso papel identificar as empresas que vão impulsionar e beneficiar dessas mudanças, bem como aquelas capazes de resistir. Apesar disso, abraçar e adaptar a esses desafios é o que torna os próximos trinta anos tão entusiasmantes.

Sebastian Thomas, Technology Portfolio Manager na Allianz Global Investors

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