A minha carta a Ramírez

Logo que soube que Pedro J. Ramírez ia deixar a direção do “El Mundo” fiquei com um formigueiro nos dedos. Tinha de escrever esta nota com toda a urgência. O Pedro J. produz esse efeito de impaciência nos jornalistas: um sentido de missão, responsabilidade e sentido coletivo. Ele põe toda a gente a correr atrás de um assunto. É também por isso que o Pedro J. é o melhor diretor de jornais que conheci nestes últimos 20 anos. É também por isso que digo, sem admitir a menor dúvida ou aceitar a mais leve hesitação, que não há melhor do que ele à frente de um jornal na Península Ibérica.

Ninguém teve a inteligência, a coragem, a perseverança e a visão que ele revelou ao longo destes anos todos – duas décadas – num lugar de máxima responsabilidade e total exposição. Não conheço outro diretor de jornais que tenha enfrentado tão frontalmente, tão brutalmente e tão perigosamente os poderes políticos e empresariais mais corruptos de Espanha ou o equivalente em Portugal.

A sua folha de serviço inclui cachas e investigações jornalísticas que vão do caso GAL (terrorismo de Estado patrocinado pelo PSOE contra a ETA); ao atentado de 11 de março de 2004 em Madrid, que ainda hoje o “El Mundo” não deixou cair; ao processo Urdangarin, o marido da infanta Cristina, que faz tremer a monarquia; aos casos de corrupção regional e, claro, a tudo o que diz respeito à ETA, que o obriga ainda hoje a andar sempre escoltado.

Conheci Pedro J. porque ele foi meu publisher quando fui diretor e, antes, diretor-adjunto do “Diário Económico”, que pertencia à Recoletos. Ele veio um par de vezes a Lisboa e eu fui algumas a Madrid participar em discussões e reuniões. O que tive a oportunidade de testemunhar? Um tipo culto, inquieto, direto, teimoso e capaz de ouvir os outros sem os atropelar. Vi um tipo que respirava jornalismo e notícias, notícias de todo o género e feitio – do ciclismo, que ama, ao basquetebol, que o faz vibrar, à política e à literatura.

Uma vez, ele disse-me: as pessoas só pagam por exclusivos, os exclusivos são o plasma que nos faz mexer nos jornais, sejam entrevistas ou simples declarações em primeira-mão, fotografias novas, informações que fazem cair os governos. É por isso que temos de lutar todos os dias.

Jornalismo é basicamente isto, disse-me ele; e a função de um diretor de jornal é decidir, muitas vezes sozinho, publicar ou não publicar a informação recolhida. “Nisso, um diretor de jornal está sozinho. E à sua frente encontrará quase sempre um pelotão de fuzilamento pronto a disparar, seja a informação verdadeira ou falsa.”

Quando há uns anos o “El Mundo” se mudou para as novas instalações, nos arredores de Madrid, Pedro J. mandou pintar em todo o edifício cenas tiradas do “Watergate”, o filme que conta a história da investigação que derrubou a presidência de Richard Nixon. As imagens, omnipresentes e marcantes, foram escolhidas com um propósito não apenas decorativo, mas para lembrar aos jornalistas do “El Mundo” não o poder que exercem, mas o objetivo principal desse mesmo contrapoder – fiscalizar, verificar, pesquisar, confrontar e, finalmente, publicar as notícias que o statu quo não quer (não quer mesmo) ver publicadas e conhecidas.

Ainda hoje, dia em que se torna pública a saída de Pedro J., lá estão na edição em papel do “El Mundo” as páginas com o sugestivo antetítulo “políticos sob suspeita”, uma investigação que dura há meses e junta nas mesmas páginas dezenas de processos e o trabalho que o diário tem vindo a fazer para tentar expor um pouco da corrupção que há por toda a Espanha.

É por isso que o “El Mundo” é um jornal feio e duro. Não é sexy, colorido e alegre. Não é um jornal fácil de ler. Não tem coisas giras, como tantas vezes se ouve nas redações: escreve lá isto que é giro! O “El Mundo” não é giro e está obsessivamente centrado em Espanha, obsessivamente concentrado na vida das instituições e dos protagonistas espanhóis.

O dinheiro que o “El Mundo” tem investido todos estes anos, mesmo sabendo que nem sempre consegue obter resultados, tem sido em grande medida na investigação; e a investigação é o mais caro que há num jornal: é preciso tempo e é preciso muito talento, isto é, jornalistas bons e caros.

Pedro J. Ramírez foi o primeiro e único diretor de jornal (dos que eu conheci) que sempre aceitou o risco de construir equipas para investigar assuntos e processos sabendo que no fim, meses e meses depois de cavar, gastar tempo e consumir orçamento, poderia não conseguir publicar uma só linha sobre o assunto. É preciso tomates para fazer isto, tomates ainda maiores em tempos de crise. Um mau gestor, um gestor assustado e burocrata achará que é dinheiro mal gasto e, como se diz hoje, pouco eficiente e nada produtivo. Esse tipo de gestor quer “jornalismo giro”. Eu, se pudesse, bania essa palavra das redações.

O que é absolutamente invulgar nesta decisão deliberada e refletida do Pedro J. Ramírez, é que não aconteceu uma vez ou outra – não. Investigar sem a obrigação de publicar é um princípio que está inscrito na matriz do “El Mundo” desde o primeiro dia; e foi essa tranquilidade e firmeza jornalística, cruzada com a exigência máxima no momento da edição (às vezes o mais correto é não publicar), além da concorrência natural entre repórteres, que fez deste jornal o único na Península Ibérica capaz de incentivar e desenvolver uma verdadeira cultura editorial sem a qual a democracia fica manca e incompleta e, portanto, em risco de vida.

O que o “El Mundo” tem ajudado a criar é aquilo que os americanos chamam de “level playing field”, ou seja, um campo de jogo equilibrado onde todos os participantes (pessoas, famílias, empresas, igrejas, instituições, partidos, etc.) possam encontrar regras de jogo relativamente iguais. Não garante que todos possam ganhar, mas ajuda a criar condições, pela exigência permanente e inegociável de transparência e controlo efetivo sobre as decisões, que otimiza e assegura a continuidade do jogo democrático.

Realmente não é coisa pouca.

Dou apenas mais um exemplo deste esforço desencadeado por Pedro J. Ramírez. Há uns anos ele viu-se envolvido num escândalo sexual. Cassetes de vídeo dele foram enviadas para toda a Espanha. As imagens eram, digamos, muito cruas. O que fez Ramírez? Não se demitiu. Chamou as chefias do seu jornal, direção e editores, e mostrou-lhes a gravação toda. Sentou-se ao lado deles e viu o filme. Por mais embaraçoso que tenha sido, no fim nomeou dois jornalistas top para que investigassem o caso e o noticiassem. Sujeitou-se ao escrutínio jornalístico, deu-lhes carta branca.

Ramírez estava convencido que lhe tinha sido montada uma cilada pelos antigos GAL e que o objetivo era desacreditá-lo publicamente para que tivesse de demitir-se de uma vez por todas. A vingança servida fria e com perversidade.

Pedro J. não se demitiu.

Mas foi demitido agora que investigava a contabilidade B do partido Popular (o caso Barcenas) e um sem número de suspeitas e processos que envolvem o PP, o PSOE, dezenas de empresas, empresários e empreitadas e até os sindicatos da Andaluzia, além da filha e do genro do rei. Tudo isto no meio de uma crise de vendas em banca e de uma recessão que ameaça não deixar muita coisa de pé depois de o vendaval passar.

É este património jornalístico – a luta vigorosa contra o crime de colarinho branco e a corrupção – que está em risco a partir de hoje com a saída de Pedro J. do “El Mundo”. Já o veremos.

É sabido: o que acontece em Espanha arranja sempre maneira de chegar a Portugal. Não são bons ventos, não.

Veja aqui o vídeo da despedida de Pedro J. Ramírez da redação do “El Mundo”

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