A OPA azedou

Azedou a sério. Na
sexta-feira, a Cimpor pôs em documento estratégico o que a administração pensa
sobre a OPA lançada pela Camargo Correa: que é curta, mal paga, pouco
interessante para alguns acionistas, que destrói valor, que desagrega ativos e
que atira a cimenteira para fora de Portugal.

Não foi dito assim, mas é o que
lá está. Como alternativa, a Cimpor propõe uma fusão e um dividendo
extraordinário, dois prémios para os acionistas desesperados por remuneração e ansiosos para manterem o controlo da sua fonte de receita.

Claro que os brasileiros, que
lançaram uma OPA para assegurar o controlo da empresa, ficaram furibundos. No comunicado de resposta da Camargo só saltam adjetivos: o convite para uma fusão é
“intempestivo, irrealista, desapropriado, inaceitável”. Pior: como os
principais acionistas de referência votaram favoravelmente à operação (BCP e
Caixa foram rápidos a dizer “venda-se”), nem percebem bem a proposta de fusão.
Quem tem razão? Ninguém, como é normal nestas coisas. Mas vamos por partes. E
por frases.

1.”Esta proposta interessa
apenas a um acionista que não tenha a liberdade de vender as suas ações na
OPA”, dizem os brasileiros. O “acionista”é Manuel Fino, o mesmo que ficou
com acesso bloqueado aos dividendos depois de a Camargo ter adiado o pagamento.
Se lerem aqui percebem o problema: preso aos empréstimos que pagaram os seus
10,7% na Cimpor, Manuel Fino é o que mais perde com uma oferta (5,5 euros/ação)
que subavalia a sua participação. Daí a proposta de fusão (que protege os ativos)
e a sugestão pela Cimpor que seja pago um dividendo extraordinário (que protege
Fino). Com tanta proximidade, os brasileiros podem, legitimamente, duvidar da
leitura que a administração fez do problema.

2. “O desinvestimento em
regiões fulcrais da base operacional da Cimpor envolveria a perda dos
benefícios comerciais e operacionais decorrentes da integração de Portugal e
Espanha”, respondeu a administração Cimpor. A alienação de ativos – que é
essencial para que a OPA passe nos reguladores brasileiros – é o grande
calcanhar de Aquiles desta proposta. Nem a garantia de que o centro estratégico
fica em Portugal esconde a certeza de que a parte nacional será dissolvida a
prazo. Estranho foi ver a Caixa assinar a correr uma venda que prejudica os
interesses nacionais.

3. “A transação cria um
bloco de controlo (…) sem o pagamento de um prémio de alteração de controlo”,
dizem os pequenos acionistas. Há a perceção de que esta OPA – se for bem-sucedida
– abre caminho para a saída de bolsa da Cimpor, o que para os pequenos acionistas
seria o fim. Por isso é normal os pequenos acionistas queiram rentabilizar uma
última hipótese. O prémio, mesmo assim, não é mau: basta lembrar que a Cimpor
abriu o ano nos 5,14 euros e que há um ano batia nos 4,67 euros.

A saída para este azedume pode ser mista: se a Camargo Correa subir a parada, a pressão vendedora dos bancos
chegará rapidamente a Manuel Fino. E se isso acontecer, nem a venda de activos portugueses será um argumento legítimo para travar uma OPA que só não avança porque há acionistas – grandes e pequenos – à espera de um preço mais favorável

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