A Sicília fica aqui

Há uns anos, um alto quadro da Portugal Telecom contou-me isto. Foi lançado um concurso para atribuir a limpeza dos prédios e sucursais da empresa pelo país inteiro. Alguns edifícios não estavam incluídos, mas era um contrato importante e com valor. A empresa que o ganhasse tinha naquele acordo a sua razão de ser, ficava autossuficiente durante aquele período de tempo, não precisava de se chatear a arranjar mais clientes. É fácil imaginar: se eu vender as lapiseiras todas à PT ou a outra multinacional qualquer e se não fizer um mau negócio, a probabilidade de ganhar escala e, por isso, dinheiro aumenta consideravelmente.

Chegaram três propostas à avaliação final, todas de companhias
com designações irrelevantes e insuspeitas, isto é, que não
denunciavam o que na verdade estava por trás de todas e de cada uma
delas. Os contratos tinham todos diferenças financeiras e métodos
próprios de apresentar o serviço, o que só por si era
tranquilizador. O que este alto quadro da PT me contou,
salvaguardando que quem avaliou as propostas não percebera se fora
por mera coincidência ou não (até porque só o notou mais tarde),
é que as três propostas tinham por trás companhias de uma forma ou
de outra ligadas ao universo Espírito Santo, fosse alguém da
família, uma empresa do grupo ou simplesmente alguém daquela área
de interesses. Aquilo dava sempre jackpot aos Espírito.

Na altura procurei desenterrar estes contratos, mas o assunto
ficou por ali porque não tinha nem as datas nem os nomes das
empresas, muito menos o acesso para puxar o fio que me pudesse
conduzir onde eu queria. A PT já era uma empresa privada e, apesar
de cotada em bolsa, este tipo de detalhes é mais difícil de apanhar
do que no Estado; além de que esse alto quadro se mostrava
convencido de que a PT não fora prejudicada, porque pagara, dizia-me
ele, o preço adequado ao serviço comprado. Simplesmente não
compreendia como fora possível aquela coincidência diabólica – as
três empresas tinham todas ligações ao Grupo Espírito Santo, não
haveria nenhumas outras pelo país?

Hoje as relações entre o BES, o GES e a PT transformaram-se numa
espécie de triângulo das Bermudas onde foram engolidos não apenas
900 milhões de euros, mas também um quinhão importante da
credibilidade daquela que já foi a maior empresa nacional. O caso da
companhia de limpezas não era afinal mais do que um sintoma prosaico
de um sistema viciado e de compadrio que acabou por arruinar a fusão
com a Oi e pelo caminho destapou as reputações de porcelana de um
grupo de gente sem escrúpulos. Na verdade, o que me preocupa não é
a PT, o que assusta, o que perturba, é estarmos perante um modo de
vida normal em Portugal. A Sicília, afinal, está aqui, somos nós,
capisci?

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