Indústria

Active Space Technologies. Engenharia portuguesa do espaço até à indústria

Na incubadora do Instituto Pedro Nunes, em Coimbra realizou-se o Open Day da Active Space Technologies. Ricardo Patricio com um prototipo de um mini satélite na mão. Fernando Fontes/Global imagens
Na incubadora do Instituto Pedro Nunes, em Coimbra realizou-se o Open Day da Active Space Technologies. Ricardo Patricio com um prototipo de um mini satélite na mão. Fernando Fontes/Global imagens

Empresa de Coimbra, que anda à procura de engenheiros, prepara-se para lançar o primeiro produto para a indústria: o veículo automático Active ONE.

Há 12 anos que a Active Space Technologies trabalha em missões espaciais com agências de todo o mundo a partir da sede em Coimbra, incluindo NASA e Agência Espacial Europeia (ESA). Agora, com vários projetos que vão de Marte a Júpiter, a empresa está também a iniciar algo que nunca tinha feito: apostar no mercado português.

Tudo numa área nova, virada para a indústria. Nos últimos anos, a empresa ganhou alguns projetos de integração de veículos automáticos (AGV, Automated Guided Vehicle) em fábricas. E agora decidiu desenvolver o seu próprio produto. Chama-se Active ONE e vai ser apresentado publicamente em novembro, na Exponor.

“É um veículo que segue uma banda magnética no chão ou lasers. Tudo feito em Portugal”, avança ao Dinheiro Vivo Ricardo Patrício, cofundador e CEO da Active Space Technologies. O interessante neste investimento é que não só se trata de engenharia feita em Portugal como terá como alvo inicial clientes portugueses – algo relevante tendo em conta que, em 2015, a empresa exportou 98% da sua produção.

“Temos vindo a expandir e a crescer na cadeia de valor”, sublinha Ricardo Patrício. Mais de 90% do fabrico, montagem e teste é feita em Portugal. “Temos a malta dos moldes, do sector automóvel, que está muito bem posicionada em termos de fabrico”, indica. “Se calhar tirámos partido da crise que houve no sector automóvel aqui há uns anos: eles acabaram por se apurar e aproveitámos essa qualificação.” São sobretudo empresas pequenas. “É uma oportunidade para eles, porque o sector automóvel deixou de ser o santo graal e veem-nos como alternativa.”

Com este produto na mão, a Active Space quer conquistar fábricas portuguesas, não apenas as grandes do segmento automóvel – Autoeuropa, Peugeot-Citroën, Mitsubishi e Toyota – mas também noutras indústria. Ricardo Patrício calcula que o peso da exportação, que basicamente tem sustentado a empresa desde a sua formação, em 2004, vai “descer bastante” com o AGV próprio. “Ainda estamos a entrar, mas já vendemos quer para a Volkswagen quer Citroën.”

Portugal será prioritário, pela proximidade, mas a intenção é depois levar o produto para os mercados internacionais. “Ainda temos bastante margem para crescer no mercado europeu. Ao contrário do Espaço, em que é sempre um projeto diferente do anterior e a concorrência não é muito grande, na indústria temos um produto. Achamos que tem um potencial enorme”, afirma o CEO.

Crescimento em 2016

Depois de fechar o ano passado com 2,2 milhões de euros de faturação e 800 mil euros de EBITDA, a Active Space prevê crescer cerca de 20% em 2016 e ficar entre os 2,6 e os 2,7 milhões de euros. “O crescimento para os próximos três anos está garantido”, afiança Ricardo Patrício. “Em termos de carteira de projetos, temos cerca de 3,6 milhões de euros contratualizados, com projetos plurianuais.”

Isso também tem levado a equipa a expandir. A Active Space tem 41 colaboradores em Portugal e pretende aumentar os quadros. “Estamos sempre a contratar”, diz o CEO. As áreas de interesse são engenharia mecânica, eletrónica e física. Em julho, abriram escritório em Lisboa para estarem mais perto do Instituto Superior Técnico, que tem engenharia aeroespacial, e para serem mais atrativos em termos de talento. A estrutura em Lisboa tem agora quatro pessoas, e a procura por mais engenheiros também abrange os escritórios lá fora – Holanda e Reino Unido. Neste último caso, Ricardo Patrício desvaloriza o impacto do Brexit.

“Vai ser mais uma oportunidade”, acredita. “O Reino Unido está a investir bastante no sector da aeronáutica. Estando a desenvolver estas competências muito críticas com aplicação militar óbvia, é uma boa oportunidade já estarmos no país.”

O executivo refere-se à outra área onde a Active Space tem reforçado as competências, além do Espaço e da Automação – a Aeronáutica. “Estamos a entrar por baixo em termos de tecnologia e a posicionar-nos num ambiente muito extremo, dentro de motores, caixas de velocidade, óleos a 250 graus com acelerações enormes e vibrações, sítios onde sensores comerciais não funcionam”, explica. Um dos sucessos recentes nesta área é o consórcio por detrás do projeto i-Bearing, liderado pela Active Space e financiado em meio milhão de euros pelo programa de investigação europeu Clean Sky 2. Consiste no desenvolvimento de sensores e métodos para previsão em tempo real de falhas de rolamentos do gerador do moor em aeronaves. A ideia é prever falhas 100 horas antes da sua ocorrência.

Tecnologia portuguesa no Espaço

Foi aqui que a Active Space começou e é onde tem maturidade, com novos projetos a entrarem de forma consistente.No ano passado e no início deste ano, ganharam novos contratos com a Airbus, sobretudo para a missão a Júpiter, JUICE – Jupiter Icy moons Explorer. “É um projeto muito interessante e integrado, o mecanismo crítico de uma antena de meio metro de diâmetro que serve para comunicar com a terra”, explica o CEO.

A missão a outro planeta, Marte, é talvez das mais sonantes. A empresa está envolvida no sistema de locomoção do rover da ExoMars, fazendo o sistema de teste e verificação das seis rodas motorizadas para a Thales Espanha. Estão ainda a fabricar alguns componentes estruturais, sistemas eletrónicos e ‘mockups’ do rover.

Outro projeto a decorrer é o da segunda geração do MetOP, um conjunto de seis satélites para observação da terra dedicados à meteorologia. A Active Space vai fazer os sistemas de voo para três satélites. Ainda com a ESA, a empresa participa no Euclid, uma missão puramente científica para deteção de matéria escura. “Estamos a fazer estruturas para a Airbus, que vai usá-las para montar todo o satélite.”

Operando sobretudo na Europa, com foco em Espanha, Alemanha e Reino Unido, a Active Space diz que a crise económica não afetou a empresa, pelo contrário. “Sentimos que há uma retoma nos últimos anos, até na indústria, que tem ultrapassado as dificuldades que os países têm visto”, declara o CEO. “Sentimos nos nossos clientes que há um aumento da produção bastante significativo. Como estamos na automação, sentimos que eles estão mais interessados nos nossos serviços e produtos para otimizarem os próprios processos, têm de cortar custos. Mas em termos de produção, há sinais bastante positivos”, avança. “Mesmo em Portugal.”

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