As cinco chaves da semana

Aplique a diáspora e esfregue bem

Diáspora não é uma doença de pele e Cotec não é a pomada
para aplicar duas vezes ao dia nas zonas afetadas. Não vale a pena
consultar o seu médico. Diáspora foi a palavra mais repetida ontem
no encontro que a Cotec (Associação Empresarial para a Inovação)
organizou em Cascais
e que teve o privilégio de juntar 24 grandes
(enormes, gigantes, poderosos) gestores portugueses ou lusofalantes
com responsabilidades em multinacionais, digamos, universais.

Não há
qualquer dúvida de que a ideia de juntar estas cabeças é excelente
em qualquer momento, mas numa altura de enormes desafios ainda o é
mais, até porque permitiu juntar à equipa não apenas Passos Coelho
e Cavaco Silva, mas também Durão Barroso.

Ora bem, com estes
ingredientes surpreende a pobreza do resultado (conhecido). Faz algum
sentido fazer um happening deste calibre e esconder os gestores –
ninguém pôde falar com eles – e dar voz apenas aos políticos que
ouvimos todos os dias? O encontro de ontem é o retrato do país:
somos uma oportunidade estragada pelo gasto statu quo
político-partidário. Saiam da frente, bolas, deixem ver os
fazedores. Ontem era o dia deles.

Ponto final – A reunião de ontem reflete o nosso atraso. Não o
resolve.

O Pingo Doce sem nódoa

Há pelo menos duas maneiras de olharmos para a ação de
guerrilha social do Pingo Doce. A primeira (sobre a qual escreve o
Pedro Bidarra – eia aqui)
sublinha a notória e notável
incompetência dos sindicatos em saber aproveitar o momento histórico
que vivemos para mobilizar as pessoas até para o 1.o de maio –
talvez até aproveitando, já em andamento, a fantástica boleia do
Pingo Doce. A segunda maneira de olharmos para o fenómeno de
terça-feira realça o seguinte: como é fácil criar assunto em
Portugal!

Numa altura em que só se fala de fragmentação do
interesse das pessoas, uma marca de supermercados dominou por
completo a atenção de um país inteiro. Nem todos gostaram, é
verdade – os moralistas de direita sentiram-se repugnados com a visão
do povo em delírio (uma fila de fãs da Apple é bem mais chique);
os de esquerda ficaram previsivelmente enojados com o poder de
atração hipnotizante do maravilhoso arroz carolino a preço de
saldo.

Convém esclarecer estas almas penadas que o que aconteceu em
Portugal aconteceria em todo o lado, de Oslo a Beirute, com uma
diferença – não teria o foco mediático que teve porque ações
destas são mais comuns noutros lados.

Ponto final – Pingo Doce em alta.

A nódoa do Pingo Doce

A ASAE é aquela entidade que gosta de prender belíssimas e
tenras morcelas e que, no meio de um combate sério à insegurança
alimentar, arrasa tudo o que é tradição e património gastronómico
nacional. Além deste detalhe, a ASAE é agora também a agência que
coloca notícias
em off nos jornais a apontar apressadamente
possíveis ilegalidades na ação do Pingo Doce.

Não sei se houve ou
não dumping, mas sei que a ASAE tem a obrigação de apenas revelar
as conclusões quando tiver concluído a investigação e de fazê-lo
com toda a transparência e com todas as explicações, tintim por
tintim. Filtrar informação parcelar, como fez anteontem à noite à
Antena 1
(hoje saiu um comunicado às 17h00), é pura intoxicação:
é veneno e uma podridão.

O assunto é sério, não por causa desta
operação da Jerónimo Martins mas porque, além dos descontos, o
Pingo Doce permitiu que a atenção nacional se possa centrar num
problema verdadeiramente grave: o esmagamento de preços a que são
sujeitos os produtores, obrigados a vender ao Continente-Pingo Doce o
pouco que produzem a preço de fome.

Ponto final – O duopólio Continente-Pingo Doce deve ser
investigado. Não hoje, sempre.

O BES livrou-se do Estado

Esta semana vai ser muito interessante para os bancos. Se não for
na próxima semana, será na seguinte. Ou na seguinte. Na verdade, há
quase um mês que se aguarda a portaria do governo que vai regular o
acesso dos bancos ao fundo de capitalização de 12 mil milhões de
euros.

De que forma podem os bancos aceder a este dinheiro? Quanto
poderá ser em forma de capital contingente (CoCos) e a partir de que
valor o Estado terá mesmo de ficar com uma participação acionista
direta? Em qualquer dos casos, que limitações serão impostas à
gestão dos bancos ajudados? Poderão financiar OPA, poderão pagar
bónus à gestão? Poderão fazer aquisições? O que acontecerá aos
dividendos?

As perguntas são muitas e em quase todas é certo que
ter o Estado como acionista é justamente considerado um peso e um
risco. É por isso que a maldita portaria tarda em sair: as
negociações são intensas e o assunto muito delicado. Ninguém pode
desejar ter bancos (quase) nacionalizados, porque isso mata o negócio
e desvirtua a economia. O BES, com menos problemas do que outros, é
único que já se livrou desta cruz. Fê-lo com o dinheiro dos seus
acionistas e algum contorcionismo. E agora tem as mãos livres para
atacar um mercado difícil e arriscado, mas também com oportunidades
de investimento únicas – ou seja, baratas.

Ponto final – O governo está a demorar uma eternidade a definir a
forma de acesso dos bancos ao fundo de capitalização.

O mau conselho de Borges

António Borges, o consultor para as privatizações nomeado pelo
governo, é um caso extraordinário. Além de deixar sempre no ar a
impressão de que não acaba nada do que começou, agora quer fechar
com a máxima urgência aquilo que ainda mal arrancou. Recomendar
entusiasticamente a venda da Cimpor e dar como muito bom o preço

(baixo, ridículo) oferecido pela Camargo Corrêa é não entender o
seu papel nesta história.

Ora bem, se Borges não percebe o que lhe
é pedido pelo governo, faço-lhe a gentileza de explicar: a Caixa
Geral de Depósitos tem 9,6% da Cimpor para vender. Sendo claro que o
deve fazer, o banco do Estado tem de ter uma só preocupação:
conseguir o melhor preço possível. Não é preciso ter um MBA do
Insead para saber que nunca se aceita a primeira oferta. Isto é
válido para quase tudo nos negócios, mas numa OPA é o bê-á-bá.

No caso da Cimpor, sendo evidente que a cotação atual das ações
não reflete o valor da empresa (que já esteve nos 7,6 euros por
ação e a oferta é de 5,5), o mínimo que se exige a Borges é que
se deixe de facilitismos, apesar dos vários erros que já cometeu
neste processo.

Ponto final – Borges está a dar fracos conselhos na OPA da
Cimpor.

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