Opinão

Uma Autoeuropa do “Espaço”

Ariane_5

Muitas vezes pensamos que “indústria aeroespacial” e Portugal não ligam, não combinam, ou seja, que não temos grande tradição e envolvimento nestas atividades. Somos conhecidos pela nossa vibrante indústria do calçado, pela qualidade dos nossos têxteis, dos vinhos, da cerâmica, dos moldes, do turismo, da gastronomia, dos componentes automóvel, etc, mas na área do aeroespacial ainda não muito.

É um engano. Poucos saberão mas Portugal e a indústria portuguesa tem, por exemplo, uma presença permanente no Centro Espacial Europeu (CSG) na Guiana Francesa, um dos maiores portos espaciais do mundo e de onde são colocados em orbita mais de 50% dos satélites comerciais à escala global.

Várias entidades, como por exemplo o ISQ, têm vindo a colocar, há vários anos, engenheiros e especialista no Centro Espacial Europeu em missões de longo prazo. O primeiro colaborador do ISQ a ser colocado no porto aeroespacial da Guiana ainda chegou a tempo de assistir ao lançamento do Ariane 5, que levou a missão Roseta que se tornou mundialmente conhecida dez anos depois.

Hoje em dia existe mesmo uma Delegação na Guiana Francesa em parceria com a empresa francesa APAVE e onde hoje temos uma equipa operacional permanente.

Para alem da atividade operacional diretamente ligada ao Centro Espacial, estamos também utilizar a infraestrutura local no âmbito de um projeto de desenvolvimento de tecnologia para a Agência Espacial Europeia e estamos a trabalhar com entidades industriais presentes no desenvolvimento de tecnologia de Realidade Aumentada para a redefinição das atividades de inspeção.

O ISQ tem assim contribuído para o desenvolvimento e sustentabilidade da indústria aeroespacial europeia, que é a líder do mercado comercial mundial. Este é um dos mais longos projetos internacionais do ISQ, que tem permitido consolidar a sua presença no setor aeroespacial, mas também captar e desenvolver talento que depois transita para grandes projetos científicos internacionais tais como o Reator de Fusão Nuclear do ITER e o maior telescópio ótico do mundo (E-ELT) que está a ser construído pelo ESO. Muitas outras empresas portuguesas estão envolvidas hoje em dia em vários projetos relacionados com a industria aeroespacial.

Entretanto, a realidade operacional e comercial do Centro Espacial está a mudar pelo que o ISQ e os restantes atores industriais presentes estão a adaptar-se às novas dinâmicas e oportunidades. Este processo abre múltiplas oportunidades que podemos aproveitar. O caminho que estamos a seguir passa por ganhar espaço, diversificar as parcerias e por outro lado projetar a experiencia que estamos a adquirir nesta operação noutros cenários, como por exemplo o projeto de criação do primeiro micro-satélite português (Programa INFANTE).

Vem tudo isto a propósito do recente anúncio de criação na ilha de Santa Maria nos Açores de um porto aeroespacial. Este é um assunto da maior importância e que pode permitir a médio prazo a afirmação e consolidação de mais um sector de relevância estratégica fulcral para Portugal. Estamos a falar de um sector que é a “Fórmula 1” da indústria. Onde o melhor do melhor se conjuga todos os dias para colocar no espaço objeto que custam centenas de milhões de dólares e sem os quais a industria, as economias e mesmo a sociedade já não consegue viver.

Portugal tem, hoje em dia, todas as condições para subir na cadeia de valor e se afirmar também na indústria aeroespacial dado que nos últimos anos várias foram as empresas e entidades que têm vindo a desenvolver projetos específicos nesta área.

A criação deste novo porto aeroespacial pode significar “uma nova Autoeuropa”, mas neste caso no âmbito do sector aeroespacial com um impacto estruturante a nível da educação e da qualificação dos engenheiros portugueses, na indústria, na criação de emprego qualificado e na economia.

Pedro de Almeida Matias, Presidente do ISQ

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