entrevista

David Dinwoodie. “O movimento mindfulness é essencial para os executivos”

David Dinwoodie, diretor da ESADE Executive Education

(Orlando Almeida / Global Imagens)
David Dinwoodie, diretor da ESADE Executive Education (Orlando Almeida / Global Imagens)

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, o diretor da formação executiva da ESADE falou dos maiores desafios que as empresas e os gestores enfrentam.

O norte-americano David Dinwoodie mudou-se recentemente para Barcelona, onde, desde abril, está aos comandos da formação executiva da ESADE, uma das melhores escolas de gestão a nível global. Para trás, deixou o cargo de vice-presidente do departamento de Soluções de Liderança Global no Centro de Liderança Criativa (CCL), o principal organismo mundial de desenvolvimento de liderança nos últimos 50 anos. Anteriormente, tinha participado na gestão de empresas como a Ernst & Young, a BICC General Cable, a Planeta deAgostini e a Bristol-Myers Squibb. Ao Dinheiro Vivo, falou dos principais desafios que atualmente gestores e empresas enfrentam, à margem de um evento em Lisboa, onde participou como orador, para falar de internacionalização.

Acredita que exportar e internacionalizar as empresas é o melhor caminho para o sucesso?

Eu acho que, num mundo cada vez mais global, torna-se também cada vez mais importante para as empresas internacionalizarem-se e procurarem outros mercados que tragam novas oportunidades. Ainda assim, não creio que esse modelo sirva para toda a gente. Até porque a exportação e ter uma operação no estrangeiro são processos muito complexos que precisam de ser bem analisados para se perceber se fazem ou não sentido para determinado negócio.

Mas neste mundo cada vez mais global – e também mais digital, – quais acha que são os maiores desafios para os executivos?

O maior desafio é terem que pensar em modelos de negócios completamente diferentes dos que estavam habituados há uns anos. Um executivo tem de fazer uma gestão tendo em conta o longo prazo. Só que esse longo prazo é cada vez mais curto. Tudo acontece cada vez mais rápido. Esse é um dos maiores desafios. Gerir empresas num mundo em constante mudanças e conseguir rapidamente adaptar essa gestão às novidades que surgem.

É cada vez mais imprevisível, esse mundo em constante mudança?

É cada vez menos previsível, sem dúvida. A complexidade de fazer negócios no estrangeiro, a certos níveis, está a tornar-se mais difícil. A concorrência é cada vez mais feroz.

Para além disso temos uma sociedade cada vez mais digital, com startups a nascer e a trazer novos dinamismos e formas de trabalhar ao mercado. Acha que podem ser uma ameaça às grandes multinacionais, mais tradicionais?

Na verdade, um bom executivo tem de estar sempre a olhar para seu mercado para perceber tudo o que está a ser feito e o que é que os seus clientes precisam. As startups que estão a surgir podem vir até a ser benéficas paras empresas mais tradicionais se elas souberem absorver esse conhecimento, mudança e modo fazer.

Em relação a culturas de trabalho, por exemplo, Espanha e Portugal têm uma forma de trabalhar muito semelhante. A forma de trabalhar de cada país pode beneficiar ou prejudicar esse mesmo país e as suas empresas, em contexto internacional?

Obviamente que a cultura de trabalho de cada país tem um grande impacto na forma como as pessoas trabalham e se relacionam entre si. Às vezes facilita, noutras dificulta. Dos estudos que fiz, as empresas que se diversificam pelo mundo, não só geograficamente, mas também as que empregam pessoas diferentes e de várias nacionalidades, ou religiões e backgrounds são as que têm maior potencial porque ganham sempre novas perspetivas de abordar os mercados. É sempre positivo. E, ao contrário, quem não aposta na diversidade dos seus recursos humanos encontra maiores dificuldades.

Sendo que o David é norte-americano, quais são as maiores diferenças que encontra na cultura de trabalho dos Estados Unidos em relação à mediterrânica (Portugal e Espanha)?

Há muitas diferenças. Os norte-americanos são, por natureza, muito inovadores. Estão sempre à procura da mudança e da evolução. Querem sempre encontrar novas formas de fazer as coisas e adaptam-se muito bem. Na Europa, há uma cultura mais tradicional. As pessoas mantêm-se muitos anos no mesmo emprego. O que também é bom: há um maior compromisso e um sentido de pertença mais forte. É uma força. As pessoas também estão mais ligadas umas às outras.

Ultimamente tem-se falado muito de burn out em carreiras de topo. De que forma os executivos podem ter um equilíbrio maior entre o trabalho e a sua vida pessoal, de forma a evitar estas situações de stress extremo?

É um tópico muito importante. Temos feito muitas pesquisas sobre este assunto. E o interessante é que as pessoas se focam muito na questão da pressão que os executivos sofrem, quando atingem estes cargos de topo. A verdade é que, com o mesmo nível de pressão, há pessoas que lidam relativamente bem e outras cedem mais facilmente. O que percebemos foi que o estilo de vida é essencial na gestão de situações de stress. Quanto mais saudável for uma pessoa – em relação a hábitos de sono, saber parar, alimentação ou desporto, – menos exposta fica a burn outs. Todo o movimento de mindfullness é essencial para os executivos.

Mas não é difícil desconectar quando se atinge carreiras de topo?

Não sei se temos de desconectar totalmente. Basta ter uma relação saudável com o trabalho, da mesma forma que temos de ter uma relação saudável com todos os aspetos da nossa vida pessoal. No final do dia, é isso que importa. Eu acredito que é bastante possível uma pessoa ser bastante focada no que faz e bastante focada também noutros aspetos da sua vida.

Assumiu recentemente o cargo de diretor da formação executiva da ESADE. Quais são as suas prioridades e que desafios lhe traz esta posição?

Estou bastante entusiasmado. É muito interessante assumir este cargo numa altura em que tantas mudanças estão a acontecer na equipa de gestão da escola, com novos objetivos e planos estratégicos para o futuro. Neste momento estamos a apostar na transformação digital e a procurar novas formas de interagir com os nossos alunos, de forma a tornar a educação num bem muito mais acessível e flexível para as pessoas e as empresas. Acredito que o digital nos torna muito mais práticos e ajuda-nos a criar muito mais valor.

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