Política Monetária

Economia arrefece e adia subida de juros do BCE

Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu.  (EPA/RONALD WITTEK)
Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu. (EPA/RONALD WITTEK)

Responsáveis do BCE têm reconhecido que houve uma travagem na economia do euro. Juros vão demorar mais tempo a subir.

Os investidores estarão atentos, na reunião do BCE desta quinta-feira, às pistas deixadas por Mario Draghi sobre a evolução futura dos juros. A autoridade monetária poderá ter de esperar mais tempo que o previsto para começar a retirar as taxas de referência de mínimos históricos devido aos sinais de abrandamento na economia da zona euro.

Na reunião de dezembro, o Banco Central Europeu (BCE) dizia esperar “que as taxas de juro diretoras se mantenham nos níveis atuais, pelo menos, até durante o verão de 2019”. Mas mantinha a opção de continuar com juros em mínimos “enquanto for necessário para assegurar a continuação da convergência sustentada da inflação no sentido de níveis abaixo, mas próximo, de 2% no médio prazo”.

O BCE “espera que as taxas de juro diretoras se mantenham nos níveis atuais, pelo menos, até durante o verão de 2019 e, em qualquer caso, enquanto for necessário para assegurar a continuação da convergência sustentada da inflação no sentido de níveis abaixo, mas próximo, de 2% no médio prazo.

Atualmente, a autoridade monetária aplica uma taxa negativa de -0,40% nos depósitos que recebe dos bancos e financia as instituições financeiras com um juro de 0%. Estas taxas diretoras influenciam os valores das Euribor, que estão em valores negativos. Um alívio para quem tenha de paga prestações de empréstimos a taxa variável. Mas uma dor de cabeça para quem queria colocar as poupanças a render.

Apesar de o BCE sinalizar o início do ciclo de subida de juros no verão deste ano, são poucos os que apostam neste timing. “Face há apenas três meses, os mercados estão agora a incorporar que o início da subida dos juros aconteça substancialmente mais tarde. Estimamos que o mercado esteja a assumir que o ‘durante o verão de 2019’ seja adiado por nove a 12 meses”, dizem os economistas do RBC Capital Markets, numa nota a que o Dinheiro Vivo teve acesso.

Estimamos que o mercado esteja a assumir que o ‘durante o verão de 2019’ seja adiado por nove a 12 meses.

Uma sondagem feita pela Reuters junto de economistas que acompanham o BCE mostrou que as estimativas para o início da subida de juros foram adiadas. Há um mês o consenso apontava para um aumento no terceiro trimestre do ano. Agora, a perspetiva dominante é que o banco central seja forçado a esperar pelo final de 2019.

O que mudou?

Nos últimos meses os sinais vindos da economia europeia mostraram sinais de fraqueza. O presidente do BCE, Mario Draghi, admitiu na semana passada que o abrandamento “vai durar mais tempo do que o anteriormente esperado”.

O líder do banco central enumerou as razões que estão a levar à travagem: abrandamento da economia chinesa, tensões comerciais e incertezas geopolíticas como o Brexit. Draghi defende que esses fatores causam incerteza e que isso tem um custo. “E o custo é menos confiança, das empresas e dos consumidores”, avisou.

Também o presidente do Eurogrupo, Mário Centeno, admitiu esta semana à Bloomberg que o abrandamento pode durar mais tempo. O ministro das Finanças português referiu, no entanto, que alguns desses problemas são temporários, exemplificando com os sinais mais fracos vindos da produção industrial alemã.

A maior economia do euro escapou a uma recessão técnica no quarto trimestre de 2018. Mas tem perdido fulgor devido à quebra na produção automóvel. Depois do escândalo das emissões poluentes, as construtoras estão a ter problemas em cumprir com as normas. Os economistas da BlackRock observam que a economia germânica estagnou no segundo semestre de 2018 e que o crescimento na zona euro parou no final do ano.

Ainda assim, a maior gestora de ativos do mundo rejeita o cenário de uma recessão no euro. Isto apesar da probabilidade atribuída pelo mercado estar a aumentar. Segundo a sondagem da Reuters, as estimativas dos economistas apontam para uma probabilidade de 35% para esse cenário, um aumento face aos 30% verificados há um mês.

BCE pode abrir o jogo só em março

Apesar dos dados mais frios vindos da economia, o BCE poderá querer esperar por março para mexer na orientação que dá ao mercado sobre a evolução das taxas de juro. Alguns responsáveis do banco central têm sinalizado esse encontro como a altura para mudar as indicações dadas ao mercado. Só em março é que os responsáveis de política monetária terão uma atualização das estimativas para a economia do euro que lhes permitirá avaliar melhor os riscos.

“Um a revisão em baixa das estimativas [em março] seria uma oportunidade para o BCE mexer na orientação sobre o início das alterações nas taxas de juro e/ou introduzir um novo elemento nas diretrizes para o percurso dos juros de forma a prevenir que os mercados extrapolem para juros demasiado altos no futuro”, considera o RBC Capital Markets.

Com dados mais fracos da economia e da inflação, o BCE pode ficar impedido de subir juros sob pena de poder provocar uma recessão com condições monetárias mais apertadas. Isto numa altura em que bancos centrais como a Reserva Federal dos EUA já aumentaram o custo do dinheiro por várias vezes.

“Pensamos que o BCE vai falhar completamente o ciclo do aperto na condições monetárias. O crescimento do PIB abrandou abruptamente no final de 2019 e ficará provavelmente abaixo da tendência nos próximos anos. Como resultado, a inflação core permanecerá bem abaixo da meta e os falcões [responsáveis que defendem políticas monetárias mais restritivas] não irão vencer a discussão sobre um endurecimento da política”, disse à Reuters Andrew Kenningham, economista da Capital Economics.

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