Opinião: Hugo Veiga

Fá-lo por ti

À entrada do Tivoli, uma banda de rua
À entrada do Tivoli, uma banda de rua

Resgate o artista que vive em si. Você pode ser economista durante o dia e tocar numa banda de amigos à noite.

Entrou agosto e é provável que um grande número dos leitores esteja de férias. Mais provável, é que a grande maioria dos leitores esteja a descansar de um ano dedicado a trabalhar em algo que detestou ter feito. Muitos, dir-me-iam em privado: “Sabes, Hugo, o que eu queria era ser músico”, “escritor”, “artista plástico”… “mas arte não alimenta e sabes como é, temos de pagar os estudos dos filhos, a prestação da casa”.

Sei,… sei bem como é. Há milhares de razões pelas quais não podemos ser artistas agora. E elas ficam ricocheteando na nossa cabeça, principalmente durante as férias; tempo em que temos mais tempo para pensar no que raio temos feito com todo o nosso tempo.

Porque é que a maioria de nós resiste à ideia de se associar à arte? Talvez achemos que a arte exige muito talento ou treinamento completo e profissional. Talvez acreditemos que nos afastamos muito tempo dela. Verdade é que todos somos artistas nascidos.

Quando éramos crianças, tudo o que fazíamos era arte. Desenhávamos com lápis na parede. Dançávamos, cantávamos, expressávamos livremente a nossa arte e todos achavam incrível. Por mais insuportáveis que estivéssemos a ser.

Depois, veio a idade em que começamos a mentir. O momento em que começamos a contar histórias (storytelling!). Em que falamos de coisas que não experienciamos. Alguns pais reprimem esse impulso. Felizmente, os meus pais encorajaram. Quando eu dizia que tinha pego o mar com ambos os braços, os meus pais perguntavam “Foi?… Como?”. “Assim, ó”, explicava enquanto abria bem os braços. “E onde o puseste?” Questionavam pelo seguimento da história, porque queriam que me tornasse responsável pelo que comecei. E eu continuava a explicação (coloquei o mar no baldinho).
Todos nós fomos crianças, mas onde estão elas? Vivemos numa sociedade que exonerou a liberdade infantil com obrigações morais e afazeres idiotas. Matamos o artista mas o impulso mantém-se vivo. E ele ainda se expressa. Muitas vezes, da pior forma. Em bares de karaoke, cantamos com inflexão de joelhos e mão em riste. Fazemos air guitar no Hotel California, usamos até um piano na Final Countdown. Em casamentos, dançamos de forma perfeita. 10.0, 10.0, 9.9 seriam as notas dos jurados da Europa de Leste se ali estivessem. E nós agradeceríamos com uma vénia, deixando descair a gravata à la Rambo.

Se está a ler este texto, escarrapachado ao sol enquanto come uma bola-de-berlim, peço-lhe: resgate o artista que vive em si. Você pode ser economista durante o dia e tocar numa banda de amigos à noite. Ser gerente de marketing de profissão e sair armado com uma máquina fotográfica pela cidade aos fins de semana; ser profissional de uma agência de publicidade e testar receitas exóticas em casa. E… a sério (se o leitor me permite a intimidade), não o faças esperando likes no Facebook. Não precisas de aprovação exterior para o teu eu interior.

Vai por mim, fá-lo por ti.
Boas férias.

Executive Creative Director da AKQA São Paulo

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