Energia

Galp e Eni desistem do furo petrolífero em Aljezur

Carlos Gomes da Silva, presidente executivo da Galp. Foto: D.R.
Carlos Gomes da Silva, presidente executivo da Galp. Foto: D.R.

As duas empresas escusam-se a fazer “comentários adicionais” dada “a existência de diversos processos judiciais em curso”.

Depois do CEO da Galp, Carlos Gomes da Silva, ter anunciado esta manhã, numa conference call com analistas, que o consórcio Eni-Galp decidiu abandonar o projeto de exploração de petróleo no offshore do Alentejo, a Galp emitiu um comunicado no qual explica as razões para a desistência: “As condições existentes tornaram objetivamente impossível prosseguir as atividades de exploração”.

Apesar de não ter sido especificado, estas mesmas “condições” estão relacionadas com o facto de, em agosto, o Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé ter deferido uma providência cautelar interposta pela Plataforma Algarve Livre de Petróleo suspendendo a licença. Nessa altura, o consórcio Eni-Galp disse estar a “avaliar esta decisão e as respetivas opções”.

O resultado dessa avaliação surge agora: “Em relação a Portugal, tomámos a decisão de abandonar a exploração”, afirmou Carlos Gomes da Silva aos analistas. A concessão para a prospeção a cerca de 50 quilómetros da costa terminava em 15 de janeiro de 2019.

Um ano antes, em janeiro de 2018, o governo dava conta de “investimentos superiores a 76 milhões de euros” já feitos pelo consórcio, do qual a Eni detém 70% e a Galp 30%. Nessa altura, o tema da prospeção de petróleo em Portugal era ainda central para a Galp. “Estamos a cumprir todo o nosso plano, como foi planeado”, garantiu Carlos Gomes da Silva, o CEO da empresa, em fevereiro, no Capital Markets Day 2018, que decorreu em Londres. Nessa altura, apontava ainda o início dos trabalhos para a habitual janela temporal com boas condições climatéricas, entre abril e junho, depois adiada para setembro/outubro.

“A Galp e a Eni tomaram a decisão de abandonar o projeto de exploração de fronteira na bacia do Alentejo. Apesar de lamentarmos a impossibilidade de avaliar o potencial de recursos offshore do país, as condições existentes tornaram objetivamente impossível prosseguir as atividades de exploração.
Dada a existência de diversos processos judiciais em curso sobre este assunto, as duas empresas não farão comentários adicionais neste momento”, reafirmou a Galp no documento.

Apesar disso, a empresa garante que vai “continuar a investir em Portugal”, mas em vez de ser por via da exploração petrolífera, como acontece no Brasil e em Angola, será mais pela aposta na “mobilidade sustentável” e nas “fontes de energia de base renovável em regime de mercado”. Este ano, a Galp já investiu em vários projetos de energia solar fotovoltaica em Portugal. Quanto às eólicas, a empresa considera que não são rentáveis.

Apesar do foco se manter no petróleo e no gás, a empresa começou já a apostar em projetos de energias renováveis, tal como já tinha sido sinalizado nos eventos Capital Markets Day de 2017 e 2018. Uma central fotovoltaica em Odemira, com uma capacidade de produção de 6 MW, será o primeiro projeto de energia renovável da petrolífera já em 2018. Além disso a Galp comprou uma empresa com mais de 150 MW já licenciados para construção.

“Vamos continuar a investir em Portugal e a abrir caminhos no campo da mobilidade sustentável, a apostar na competitividade e na eficiência energética e ambiental das refinarias bem como reforçar progressivamente a aposta nas fontes de energia de base renovável em regime de mercado.
É aqui que temos a nossa âncora e que estamos a lançar as bases para a transformação estratégica da empresa em resposta aos desafios da descarbonização”, sublinhou a empresa no comunicado divulgado esta segunda-feira.

A mesma nota enviada às redações frisa ainda que “a Galp é uma empresa de matriz portuguesa, tem os seus centros de decisão e tecnológico em Portugal e é um agente de importância crucial para a nossa economia, nomeadamente enquanto seu maior exportador além de ser a empresa de base portuguesa mais internacionalizada”.

O anúncio feito hoje pela Galp e pela Eni veio assim contrariar não só a estratégia da Galp como as garantidas dadas em maio por fonte oficial da ENI ao Dinheiro Vivo de que os trabalhos ao largo da costa alentejana arrancariam em setembro/outubro de 2018, com duração de 46 dias.

Isto depois da “luz verde” dada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que dispensou a realização de um estudo de impacte ambiental no âmbito do furo para prospeção de petróleo em Portugal, por considerar que “o projeto não é suscetível de provocar impactes negativos significativos”, e depois também de o governo ter autorizado o adiamento por mais um ano do período inicial da prospeção, por considerar que o atraso não era da responsabilidade do consórcio.

“O poço será perfurado usando tecnologia topo de gama e práticas operacionais para garantir condições de máxima segurança. O objetivo é confirmar a presença de hidrocarbonetos neste setor da costa portuguesa”, disse a Eni ao Dinheiro Vivo. “O poço está localizado a uma distância de 46 quilómetros da costa, num ponto não visível a partir de terra e a uma profundidade de cerca de 1000 metros”, acrescentou.

Também em 2018, o governo decidiu travar a atribuição de licenças para a prospeção e pesquisa de petróleo no mar português até ao final de 2019. “Estabelecemos uma moratória, não sendo possível atribuir novas licenças de pesquisa e prospeção de petróleo até ao fim desta legislatura”, anunciou Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros.

Com Lusa

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