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Guerra de spreads preocupa Banco de Portugal

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal
Carlos Costa, governador do Banco de Portugal

O apertar da margem de lucro, devido à forte concorrência, pode levar a um agravamento do crédito malparado, avisou ontem o supervisor bancário.

É um déjà-vu. Tal como antes da última crise financeira, os bancos estão a baixar as margens de lucro para ganhar mais clientes no crédito. O Banco de Portugal deixou ontem um alerta: a guerra de spreads pode levar ao agravamento do nível de incumprimento no futuro. O aviso surge numa altura em que o crédito malparado em Portugal, apesar da melhoria, está ainda acima da média da Europa. No final de 2018, o rácio de non-performing loans (NPL) situava-se em 9,4%.

A tentativa de aumentar o volume de crédito através da fixação de spreads de taxa de juro que não cubram o risco de crédito de maneira sustentável poderá resultar, no futuro, num maior nível de incumprimento”, avisou ontem o Banco de Portugal no Relatório de Estabilidade Financeira de junho.

Há bancos a oferecer já spreads mínimos de 1%. O BPI foi o último a baixar o spread, que agora se situa em 1,2%, abaixo dos 1,23% oferecidos pela Caixa Geral de Depósitos .

Esta guerra de spreads acontece numa altura em que “existe evidência, em termos agregados, de sobrevalorização no mercado imobiliário residencial desde a segunda metade de 2017”. Neste cenário de sobrevalorização, “é importante que as instituições tenham particular cuidado na definição dos critérios de concessão de crédito”, alertou o supervisor.

Mercado imobiliário arrefece

A exposição ao mercado imobiliário é uma das fragilidades que o Banco de Portugal identificou na banca portuguesa e que a torna vulnerável. “Uma eventual redução acentuada e brusca da procura de imóveis por não residentes constitui um risco para a estabilidade financeira”, adiantou. “O mercado imobiliário português continua a estar particularmente dependente da intervenção de não residentes, seja por via do turismo, seja por investimento direto”. E alertou que “o abrandamento mais acentuado da atividade económica a nível global, decorrente em particular da materialização de eventos de tensão geopolítica, aumentos dos prémios de risco e eventuais alterações no quadro regulamentar nacional sobre o mercado imobiliário, poderão vir a traduzir-se numa interrupção brusca do dinamismo do imobiliário e, consequentemente, num ajustamento em baixa dos preços”.

Moderação nos dividendos

Mas há outros fatores que tornam a banca portuguesa vulnerável. O sistema financeiro português tem também uma “elevada exposição” a títulos de dívida pública portuguesa. Incerteza política ou tensões comerciais entre países, pode levar a um aumento da aversão ao risco e apanhar os bancos portugueses numa situação de maior vulnerabilidade, considera o Banco de Portugal.

No caso da exposição a dívida pública portuguesa, os bancos tinham uma exposição correspondente a 9% do ativo total. “Uma eventual subida de 100 pontos base das yields da dívida pública nacional teria impacto negativo de cerca de 51 pontos base no rácio (de capital) CET1 dos bancos portugueses”.

“É essencial prosseguir políticas que promovam a sustentabilidade das finanças públicas, a poupança dos particulares e das empresas, o crescimento potencial da economia portuguesa e a resiliência do sistema bancário”, adiantou. Destacou que os bancos devem continuar a cumprir os “planos de redução de NPL submetidos às autoridades de supervisão” e devem adotar “políticas prudentes de aplicação dos resultados gerados, em particular na distribuição de dividendos”.

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