Medina Carreira vive num país perigoso

Este país assusta. Em dois dias, Medina Carreira passou de
fiscalista com nome a branqueador de impostos, de economista consagrado a caso de polícia
estampado nos jornais. De repente, e por culpa de uma conversa cruzada num
telefone, apareceu como nome de código numa escuta ao Monte
Branco, um esquema para branquear capitais.

Tinha culpa? Uma conta em
offshore? 625 mil euros em enriquecimento ilícito? Uma estratégia para enganar
o Estado? Não, não, não e não. Medina não tinha nada disso mas foi investigado,
atirado para a praça pública e nivelado por criminoso. Alguns falaram com ele,
outros não. Mas a culpa, acrescente-se, é da Justiça. E da psicose que esta crise criou no país.

É normal que se mande investigar quando há dúvidas. Menos normal é deixar passar que essas dúvidas passem para a opinião pública quando a suspeita ainda não foi confirmada. A banalização das escutas – e da prova que se produz delas – diz bem da fragilidade judicial.

Mas foi o desperdício, a corrupção e o clientelismo
político no Estado que nos trouxeram onde estamos: falidos. Foi pelo exagero e
pela opacidade dos poderes públicos (a desatenção cívica também não
ajudou) que o país derrapou nesta vertigem de dívida e défice. Foi pelas assimetrias que criámos que passámos a desconfiar de tudo o que mexe com dinheiro público, sem percebermos que a falência do sistema também é a nossa, enquanto cidadãos atentos.

Traumatizados pelo passados, ficámos perigosos. Medina foi citado? “Então deve ser
culpado”. Fraude fiscal? “Sempre achei que algo ia mal”, dirão os piores e os mais rápidos no raciocínio. Só que a velocidade e
facilidade dos nossos juízos não são um sinal de inteligência, apenas da nossa
desinformação. Um país mais equilibrado teria uma dúvida antes de ter uma certeza, perguntaria se há provas antes de castigar. A nossa desconfiança é tanto que Medina, o anti-dívida, anti-desperdício, podia ser facilmente o oposto. Mas não é.

PS. Medina Carreira tem azar. Durante anos antecipou a falência
do Estado e ninguém lhe ligou. Achavam que exagerava, que a dívida não era
problema, que o nosso défice se havia de resolver. Não se resolveu e o país
afundou. Medina não ficou feliz com a desgraça que já tinha antecipado, mas pelo menos, deram-lhe razão. Agora atiram-lhe com mais uma dose cavalar de gozo
para cima, sem necessidade nenhuma.

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