Consumo

Mercado do luxo já vale quase 5% do PIB. São 9000 milhões

Fotografia: D.R.
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Nos últimos cinco anos, Portugal entrou no radar mundial. Hoje, o Financial Times traz a Lisboa a Cimeira do Luxo

Foi em outubro do ano passado que Jo Ellison regressou a Portugal, após 15 anos sem visitar o país. A editora de moda do jornal britânico Financial Times veio ver com os próprios olhos os motivos para tanto burburinho. “O mundo inteiro quer visitar Portugal. O renascimento do país nos últimos anos é incrível”, conta em conversa telefónica com o Dinheiro Vivo, dias antes de aterrar em Lisboa, para onde quis trazer a Cimeira do Luxo, que arranca hoje na capital.

Depois de 12 anos a dar a volta ao mundo, os organizadores da FT Business of Luxury, que reúne os principais líderes do setor, quiseram perceber o segredo por trás da ascensão de Portugal como destino de luxo.

“A ideia de fazer o evento em Lisboa surgiu na cimeira do ano passado, em São Francisco, quando conversávamos sobre o incrível renascimento da cidade a nível cultural. E percebemos que todos partilhávamos a perceção de que Portugal, e Lisboa em particular, é hoje um dos melhores sítios para se estar e para aproveitar. Foi considerada pela Condé Nast Traveller como a cidade mais cool do mundo no ano passado, receberam a Web Summit em novembro, têm imensa arquitetura moderna e têm uma gastronomia incrível que está a ganhar popularidade”, sublinha Jo Ellison.

Das palavras aos atos foi um pequeno passo. “Fiz questão que a cimeira deste ano fosse em Portugal”, garante a britânica.

Mercado de luxo cresce entre chineses

O setor do luxo não está a dar os primeiros passos no país, mas nos últimos cinco anos registou um crescimento sem precedentes. “O segmento não tinha qualquer expressão antes de 2012. Tudo o que está a acontecer hoje vem tudo do movimento do imobiliário, que depois gerou turismo”, explica Helena Amaral Neto, coordenadora dos cursos dedicados ao luxo do ISEG.

Não existem estudos concretos sobre o peso do setor como um todo na economia portuguesa, mas a especialista não tem dificuldade fazer as contas. “Só na componente imobiliária associada aos vistos Gold estamos a falar de 2,7 mil milhões de euros. Se juntarmos o turismo de luxo, o retalho, o setor automóvel, entre outros, chegamos facilmente a um valor de vendas global próximo dos 5% do PIB”, estima a docente. É qualquer coisa como 9000 milhões de euros.

Só no ano passado foram vendidas perto de 7500 casas consideradas de luxo em Portugal, ou seja, 20 imóveis milionários por dia, perto de 6% do total das propriedades vendias. Lisboa, Cascais, Sintra e Algarve estão no topo das preferências dos investidores, na grande maioria estrangeiros.

“Temos condições de luxo que não são comparáveis com qualquer capital europeia. Além de que no setor imobiliário somos muito baratos para o nível que temos. Dois milhões de euros não compram nem um T2 em Londres”, sublinha Helena Amaral Neto, que identifica uma tendência específica que terá vindo para ficar. “Costumo chamar-lhe a quarta invasão francesa”, brinca. É entre os gauleses que o estatuto de residente não habitual, criado em 2010, tem vindo a conquistar mais adeptos.

Foto: DR

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O regime que oferece uma década de benefícios fiscais atraiu mais de 10 mil estrangeiros em 2016. Um número que deverá triplicar este ano, caso se mantenha o ritmo registado nos dois primeiros meses do ano, em que foram feitos mais de seis mil pedidos. “A grande maioria são franceses e são do segmento alto, que vai alimentar o imobiliário de luxo”.

No retalho, as atenções estão todas viradas para Oriente. A criação de rotas diretas entre Portugal e China a partir do verão vai potenciar um mercado ainda por explorar. “Os chineses são dos principais consumidores de retalho de luxo da Europa. São turistas que organizam as viagens em função das compras. E compram na Europa porque lá os produtos de luxo custam quase o dobro, por motivos fiscais. Em Portugal temos uma vantagem adicional que é o IVA a 23%. Os clientes chineses podem pedir o reembolso, o que faz com que em Portugal as compras saiam ainda mais baratas”, explica a docente.

No primeiro trimestre do ano, segundo dados da Global Blue, cada cidadão chinês que fez compras em Portugal gastou em média 644 euros. A liderança continua a pertencer aos visitantes angolanos, que representam 38% das compras realizadas por cidadãos que não pertencem ao espaço europeu. Nos primeiros três meses de 2017, as compras tax-free aumentaram 51% face a 2016.

Não é só a venda de bens de luxo que está em alta no país. Aos pouco, Portugal está também a conseguir afirmar-se na produção de nível premium. “Há muitas marcas de luxo que começam a olhar para Portugal como opção para produzir roupa e sapatos. Acredito que em breve poderão competir com Itália, por exemplo”, refere Jo Ellison.
A editora do Financial Times afirma ainda compreender a opção de estrelas como Michael Fassbender, Monica Belucci ou Eric Cantona, que recentemente compraram casa no país.

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

“As pessoas procuram Portugal devido à qualidade de vida. Sabem que vão comer bem, que o tempo vai estar incrível e que têm o mar sempre por perto. É um país que está a ser redescoberto também pelos portugueses. As pessoas reconhecem que o país tem imenso potencial para florescer. E o mercado do luxo está muito atento a isso porque sabe que Portugal não se restringe às lojas de marca para compras, vai muito além. Lisboa é o sítio ideal para se ter a experiência completa de uma vida de luxo. É a combinação perfeita entre o moderno e o tradicional”.

Prova de que Portugal está no epicentro do setor do luxo é a agenda dos próximos meses. No final de junho a capital recebe a INNOCOS Summit, um evento de dois dias dedicado ao setor da cosmética que contará com responsáveis de marcas como Chanel ou Estee Lauder.

Quem também escolheu Lisboa como palco da próxima grande conferência dedicada ao segmento foi o grupo Condé Nast, proprietário de publicações como a Vogue, GQ e Vanity Fair. O evento promete trazer a Portugal mais de 500 participantes entre 18 e 19 de abril do próximo ano.

Helena Amaral Neto destaca outro fator que está a colocar Portugal na rota dos milhões. “O contexto atual favorece-nos. As ameaças terroristas ou a situação política de países como Reino Unido, França ou Brasil tornam Portugal muito atrativo. A questão da segurança, que se calhar às vezes não valorizamos porque damos como adquirido, hoje em dia é um verdadeiro luxo”.

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