Não é o Estado, somos nós

O empréstimo da PT à Rioforte (Grupo Espírito Santo) é uma das piores decisões tomadas por uma empresa portuguesa em décadas. Enfiar (emprestar) 900 milhões de euros num grupo em desagregação não foi apenas um ato de gestão temerário e suicida, foi um inacreditável abuso de confiança que só pode custar o lugar a Henrique Granadeiro na PT e na futura CorpCo (que resultará da fusão entre a PT e a Oi), sendo certo que a reputação profissional do gestor é irrecuperável, a não ser que surja qualquer explicação que, para já, parece improvável.

Talvez um destes dias Henrique Granadeiro aceite dar explicações públicas sobre o assunto — tem, aliás, esse dever –, mas por enquanto tem-se limitado a defender-se através de comunicados de imprensa que pouco justificam e só demonstram o grande serviço que prestou a Portugal. Não há dia que passe em que a imprensa brasileira não insista num ponto: os acionistas portugueses terão de pagar em ações o rombo provocado por Granadeiro. Perderão peso na fusão, lugares, capacidade de decisão.

Isto é: o que Granadeiro fez, se nada acontecer entretanto, foi dar a machadada final na pretensão de Portugal ter uma multinacional na área das telecomunicações. Os 37% que estavam previstos para os acionistas portugueses podem ficar reduzidos substancialmente, o que será apenas o primeiro passo para que, um dia, esse valor se torne ainda mais pequeno e insignificante.

É tudo demasiado grave para que não seja sublinhado. Granadeiro não podia ter feito o que fez e da forma que fez. Só se entende que permaneça no lugar mais uns dias até ficar clara a solução para o problema — talvez o prolongamento do prazo de pagamento da totalidade ou de parte dos 900 milhões de euros. Quando, na terça-feira, se confirmar que a Rioforte não consegue pagar (seria extraordinário que pagasse, porque a informação posta a circular vai toda em sentido contrário), Granadeiro só tem uma solução: sair e dar uma conferência de imprensa assumindo o erro capital. É o mínimo dos mínimos.

Para quem conhece Henrique Granadeiro, como eu conheço, não deixa de ser duro escrever isto, mas não há outro caminho. Aliás, mesmo que a Rioforte pague, o método silencioso que ele usou para emprestar os 900 milhões de euros não é digno de confiança, não seria admissível em empresa nenhuma, o que me conduz ao último ponto.

Em Portugal, mas não só, muitas vezes as empresas ficam reféns dos gestores. Deixam de pertencer aos acionistas, ficam na mão dos administradores executivos que não só acabam por encontrar maneira de se fixar remunerações (salários e prémios) sem sentido, como, com o passar do tempo, se julgam realmente donos das empresas.

Isto acontece em todo o mundo (como se vê, não são apenas os acionistas maioritários que abusam muitas vezes dessas posições), mas em Portugal é particularmente grave porque entre nós não há acionistas ativistas. Ou seja, acionistas que entram nas empresas para mudar a gestão, influenciar o rumo dos acontecimentos, etc.

Nem sempre isto é bom, alguns só entram para sacar dinheiro à empresa (exigindo o pagamento de dividendos chorudos e às vezes inoportunos), mas a verdade é que, não sendo uma empresa uma organização totalmente democrática, deveria pelo menos existir a regra “uma ação igual a um voto” e os estatutos dessas empresas não podem em caso algum permitir atos de gestão corrente que deixem passar como faca em manteiga o empréstimo de 900 milhões de euros (três anos de lucros da PT) como se fosse o pagamento de uma mesada.

Neste sentido, se isto acontecesse os acionistas ativistas não deixariam pedra sobre pedra. Haveria consequências imediatas. Mexidas, demissões, investigações, queixas, barulho. O que, sendo potencialmente injusto — as decisões a quente são muitas vezes erradas –, pelo menos aumentaria a confiança nas empresas cotadas e isso talvez desse algum ânimo ao nosso moribundo mercado de capitais. O que aconteceu na PT, com ou sem fusão, é o reflexo de uma cultura empresarial caduca e perigosa. Não por acaso o país está na situação em que está. Não é o Estado, somos nós.

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