Opinião

O Netflix dos transportes

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O mercado da mobilidade já é diferente hoje do que era há apenas um par de anos, quando os taxistas já andavam à estalada com condutores da Uber

Eram quatro e meia da manhã quando o condutor da boleia pedida via smartphone chegou e disse que não fazia viagens para o aeroporto. Antes que pudesse reclamar, a porta fechou e o carro sumiu-se estrada fora, deixando para trás o odor do dióxido de carbono e do meu pânico imprevisto. Os minutos seguintes foram passados a saltar entre apps de boleias para tentar arranjar o transporte mais rápido até ao LAX, onde tinha um voo estupidamente cedo. Quando cheguei – ainda a tempo – à porta de embarque decidi que não voltava a fazer igual.

O que eu queria ter tido nessa madrugada era uma solução semelhante à da app que acaba de chegar a Los Angeles, depois de um lançamento limitado em Seattle e Portland. A Migo, apesar de não ter o nome mais interessante do mercado, oferece um serviço genial para a era da “mobilidade como serviço”, que no fundo é esta disponibilidade constante e imediata de transportes a pedido a partir de qualquer lado.

Funciona como um motor de busca para apps de boleias e outro tipo de transportes, tendo um visual muito semelhante ao do Uber e da Lyft. Introduz-se a localização e o destino e a Migo identifica que carros estão por perto, quanto tempo demorarão a chegar e quanto vão custar. Também inclui outros meios, como trotinetes eléctricas e transportes públicos. Não é apenas uma app de planeamento e não está limitada a uma cidade nem a transportes municipais específicos. Mostra tudo numa faixa vertical do lado direito e reflecte alterações em tempo real, permitindo conectar perfis (Uber, Lyft, Car2Go, etc) e fazer o pedido sem sair da app. Como é que ainda ninguém se tinha lembrado disto?

Foi provavelmente uma das perguntas que fizeram os investidores que acabaram de injectar nove milhões de dólares na startup, uma série A que incluiu a Hyundai Cradle, a Enterprise Holdings e a Thayer Ventures. Para a Uber, Lyft, Yellow Cab e outros parceiros, a Migo funciona como um canal de aquisição de clientes; para os passageiros, é uma ferramenta útil que permite comparar preços e, mais importante ainda, tempos de chegada e deslocação.

Jeff Warren, CEO da Migo, diz que a aplicação é “o Netflix dos transportes”, indo buscar serviço a todo o tipo de fornecedores. Neste momento, tem 80 mil utilizadores – e um saco cheio de dinheiro para angariar mais.

No anúncio do investimento que foi feito ontem, a CEO da Enterprise (a mesma do rent-a-car), Pamela Nicholson, disse que se tratava de uma injecção estratégica porque a Migo “oferece um valor real aos consumidores num mercado de mobilidade saturado.” O vice-presidente da Hyundai Cradle, John Suh, colocou a questão de uma forma mais vaga, mas muito certeira: “O mercado da mobilidade de amanhã vai provavelmente ser muito diferente do de hoje. Acreditamos que a Migo tem uma plataforma que irá ao encontro da procura emergente.”

O mercado da mobilidade já é diferente hoje do que era há apenas um par de anos, quando os taxistas já andavam à estalada com condutores da Uber. Agora há trotinetes eléctricas a substituir boleias no centro das cidades. Há motas eléctricas que custam menos de trinta cêntimos por minuto e não exigem carta de motociclos. Acima de tudo, há uma mudança de mentalidade que ocorreu mais rapidamente que o esperado. As construtoras automóveis demoraram algum tempo mas perceberam que o futuro será – seguramente – diferente. E aqueles que chegarem primeiro com um serviço inteligente, como a Migo, terão mais hipóteses de se tornarem dominantes.

Por enquanto, a app só está disponível em 75 cidades dos Estados Unidos e ainda não iniciou a expansão para a Europa. A boa notícia, e o mais provável, é que devem surgir novos concorrentes com propostas semelhantes, o que só deverá beneficiar o mercado. Se há muito a criticar nos novos serviços de mobilidade e na economia de partilha, há outro tanto a elogiar na forma como viraram as ofertas para algo que realmente beneficia o consumidor. Qualquer plataforma que nos facilite a vida neste inferno de trânsito e mau estacionamento em que nos vemos constantemente metidos vai ter futuro.

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