O país que trabalha

Nestes tempos de Grande Recessão há muita poeira no ar. Até o óbvio é notícia de jornal, não porque não haja notícias, mas porque o statu quo exije que se não dê nada por adquirido. Nem trabalho, nem salário, nem o valor dos impostos, nem o euro, muito menos a Europa, nem sequer a vocação dos bancos. Há duas semanas, por exemplo, o BPI anunciou ter uma linha de crédito de mil milhões de euros para emprestar às pequenas e médias empresas. Esta semana, outro banco, o Santander, veio dizer que tem 1,5 mil milhões. Não desvalorizo estas informações porque o crédito está a cair a pique em Portugal, exceto para as empresas públicas – onde o crescimento é superior a 10%, o que significa que elas rapam o pouco que há. Mas é significativo que seja razão de espanto e elogio o facto de dois bancos estarem a fazer aquilo que, na verdade, sempre foi a sua razão de ser: vender dinheiro às empresas.

A míngua é tanta que ficamos boquiabertos, quase agradecidos. Atenção, atenção: há bancos a emprestar dinheiro às PME. Chegámos a um ponto em que o banal se tornou excepcional: restaurantes com pessoas, pessoas a ir de férias, famílias a querer ter mais filhos, investidores a querer investir, políticos que enfrentam os protestos, bancos a ter crédito para vender. Notícias destas chegam hoje facilmente às capas dos jornais. Mas como foi possível chegarmos aqui? Não é apenas o efeito da recessão, as causas são mais profundas.

Foquemo-nos na actividade financeira. Durante a última década muitos bancos mantiveram o nome na fachada mas na verdade especializaram-se noutros negócios: tornaram-se quase exclusivamente especuladores. Emprestaram dinheiro não para desenvolver ideias e negócios, mas para forçar tomadas de posição e reviravoltas em empresas cotadas. Para a economia produtiva, para os empreendedores, foi comparativamente pouco dinheiro, por isso chegámos aqui onde estamos: um país com pouco a mostrar e muitíssimo a pagar.

Agora, além de limpar os escombros, convém que se entenda o essencial: daqui para a frente, com a privatização do que sobra das empresas públicas ou a venda das participações do Estado – ou seja, como uma economia menos estatizada –, é vital ter reguladores mais independentes e mais interventivos. Verdadeiros reguladores, portanto, não cúmplices como Vítor Constâncio, o antigo governador do Banco de Portugal que permitiu quase tudo a quase todos. Curiosamente, dele não se fala; fala-se do actual, Carlos Costa, procurando ferir-lhe a autoridade e afectar-lhe a confiança. Quem será que ganha com isto? O País que vive do trabalho não é certamente.

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