Trabalho

Robôs também ameaçam os salários portugueses. Vão ficar mais desiguais

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Tecnologias vão desestabilizar mais de um milhão de postos de trabalho. Mas também vão aumentar desigualdade. Vai haver menos salários médios.

Numa década, o emprego que mais crescerá em Portugal será também aquele que oferece as remunerações mais baixas. Trabalho manual, não qualificado, e pouco suscetível de ser entregue às máquinas, como o atendimento da restauração e da hotelaria. Em contrapartida, os mais competentes em tecnologia – engenheiros e programadores – terão as melhores ofertas salariais. O futuro é inevitável. Traz menos salários intermédios e mais desigualdade.

A conclusão é da consultora McKinsey, que com a Nova SBE e a Confederação Empresarial Portuguesa (CIP) apresentou ontem o estudo A Automação e o Futuro do Trabalho em Portugal. A atualização tecnológica vai desestabilizar 1,1 milhões de postos de trabalho, obrigar 700 mil pessoas à requalificação, e encolher as remunerações intermédias, conclui. À vista, está um cenário de intensificação tecnológica moderada, no qual 26% das funções no mercado de trabalho podem ser assumidas facilmente por máquinas. Em linha com as projeções internacionais.

O estudo da McKinsey aponta que “a polarização de rendimentos em Portugal pode ser intensificada”. “Com base nos salários atuais, concluímos que os postos de trabalho de remunerações médias caem em resultado da automação, devido às alterações na procura de mão-de-obra”.

“As profissões com maior crescimento em Portugal tenderão a ser ou aquelas que oferecem menores remunerações – por exemplo, trabalhadores da saúde e dos cuidados à infância – ou algo bastante oposto: trabalhos com elevados níveis de remunerações, como engenheiros de software”, segundo a consultora.

No fundo, será o aprofundar de uma tendência em curso. “A questão salarial já não é propriamente nova. Já vem a ocorrer nas últimas duas décadas. É o aumento da desigualdade por diminuição de quem está nas posições intermédias”, afirma João Cerejeira, da Universidade do Minho.

O economista defende que há trabalhos – administrativos, por exemplo – que já vêm sendo substituídos há largos anos pelas tecnologias da informação, com impacto na distribuição salarial no mercado de trabalho do país. “Tem uma implicação importante até do ponto de vista da estabilidade e coesão social termos um aumento da desigualdade entre aqueles que beneficiam do fato das suas competências serem complementares às tecnologias e aqueles que têm trabalho que vai ou ser substituído por máquinas ou então com tarefas pouco exigentes do ponto de vista cognitivo”.

Caminhos de fuga à “grande armadilha”

Assim, os mais apetrechados com competências novas serão os mais capazes “para fugir dessa grande armadilha” que é ajustamento tecnológico do trabalho. Os outros, de acordo com o economista, precisam de duas saídas: “Por um lado, repensar o sistema de Segurança Social e da distribuição de rendimento; por outro, a questão da formação profissional para as tais áreas para que as competências sejam valorizadas no mercado de trabalho”.

A requalificação profissional é urgente, diz a CIP, e está na mão das empresas. A “grande maioria”, reconhece o presidente da organização, António Saraiva, ainda não está a investir na formação dos trabalhadores. “Aproveitando a rede de centros de formação profissional, com correctas políticas públicas, com parcerias público-privadas, com as atividades privadas, com as associações, com as próprias empresas – dependendo da sua dimensão – há que promover, promover, promover formação profissional”, insiste o dirigente.

Duarte Begonha, partner da McKinsey Portugal, entende também que a formação ainda não é suficientemente valorizada, quer por patrões, quer por trabalhadores.”Embora havendo cursos, a entidade empregadora, o próprio trabalhador não vê aquilo como uma oportunidade de melhorar a sua vida e tentar ter uma nova função. É quase como uma obrigação e não uma oportunidade”.

O economista João Cerejeira, por seu turno, critica as empresas por uma excessiva dependência de fundos públicos. “As empresas estão num mundo em que estão sempre muito à espera que a formação seja financiada pelo Estado ou por fundos europeus”, entende. “Era necessário haver muito mais investimento”.

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