Tecnologia

As consultas remotas “são uma necessidade mais do que evidente” no SNS

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Luis Lopes Pereira, diretor-geral Medtronic Portugal (foto cedida pela Medtronic)

Ganhar eficiência e melhores diagnósticos são promessas tecnológicas para melhorar o SNS. Análise do diretor da Medtronic Portugal em plena pandemia

Luís Lopes Pereira, diretor-geral da Medtronic Portugal, considerada uma referência no setor da tecnologia médica, explica-nos em entrevista como a empresa está a contribuir para uma maior eficiência no Serviço Nacional de Saúde, com a aplicação de ferramentas digitais “que irão continuar a ser fundamentais depois da pandemia”.

A luta que se vive em tempos de pandemia “não passa só pelo tratamento e prevenção do vírus mas também por tornar os hospitais mais eficientes no tratamento de todas as outras doenças que precisam de tratamento.” O responsável fala também na forma como durante a pandemia “a compra a nível nacional para o SNS tornou-se mais complexa e difícil de concretizar”. Daí que Lopes Pereira sugira uniformizar processos e tecnologias: “a escolha tecnológica deverá cumprir princípios que favoreçam a integração de serviços e particularmente o registo de dados dos doentes para que estes possam ser rapidamente assistidos em qualquer ponto do país”, bem como “possa haver mobilidade internacional”.

O responsável que lidera a empresa no país há 17 anos lamenta ainda que o país e os seus sistemas de saúde ainda tenham “pouca experiência ainda com Centros de Responsabilidade Integrada mas poderá ser uma boa opção para hospitais médios e grandes” – estes centros “podem trazer mais eficácia e eficiência ao sistema que muitas vezes precisa de escala para poder dar a devida resposta às necessidades de saúde”.

Sobre a telemedicina, Luís Lopes Pereira admite que a pandemia trouxe maior vontade em testar essa tecnologia no SNS até para evitar as longas listas de espera. “Torna-se urgente haver capacidade de análise para avaliar se o investimento em inovação tem um turnover positivo”, que está dependente “o resultado clínico”. Só essa análise permite perceber se se deve ou não investir na implementação da inovação, “porque não faz sentido apostar em inovação não positiva”.

Lopes Pereira, que há quatro anos que faz parte da organização sem fins lucrativos Health Cluster Portugal, explica que as vantagens do uso da tecnologia na medicina vão muito além da telemedicina ou monitorização à distância. “A aplicação de tecnologia pode aumentar o conhecimento e, através da utilização de inteligência artificial, trará mais soluções terapêuticas e definirá a sua eficácia, facilitando a estandardização dos tratamentos mais eficazes”, explica.

Durante os últimos meses de pandemia a Medtronic disponibilizou e adaptou gratuitamente algumas ferramentas a hospitais portugueses, nomeadamente “uma solução para seguimento remoto de doentes em isolamento domiciliário, que incluía uma app para o doente e um dashboard para os profissionais de saúde”. O resultado? “Foi considerada extremamente útil”, daí que esta solução “esteja a ser analisada neste momento por alguns hospitais”.

Certo é que Lopes Pereira considera que “a pandemia veio resolver um problema há muito identificado: as constantes enchentes nos serviços de urgência”. “A triagem prévia através de uma maior e melhor aposta na linha SNS24 pode ser uma forma de implementar, mais permanentemente, o conceito de consulta remota, que tem tudo para ser positivo”, analisa.

O responsável admite mesmo que as consultas remotas “são uma necessidade mais do que evidente”

Uma consulta que possa ser feita no conforto do lar ou com uma interrupção de apenas 20 minutos no local de trabalho, sem que o doente tenha de aguardar horas numa sala de espera, que não acrescente perda de produtividade laboral e custos de deslocação ao hospital, tem que se tornar uma realidade pois é uma necessidade mais do que evidente.

A Medtronic já tinha anunciado a partilha pública das especificações técnicas e fabrico do seu ventilador Puritan Bennett 560 (PB 560), para permitir que, transversalmente, todas as indústrias avaliassem a possibilidade de fabrico rápido de ventiladores. E, em colaboração com a Direção Geral de Saúde (DGS) e os hospitais, “desenvolveu uma série de mecanismos de telemonitorização e educação dos doentes à distância, que permite que as pessoas com diabetes só necessitem de se deslocar ao hospital em caso de urgência”.

A ideia passa por “educar os doentes e dotá-los das ferramentas que os possam tornar o mais autónomos possível na gestão da diabetes, em particular no caso daqueles que usam bomba de insulina”.

Segue-se a entrevista completa com Luís Lopes Pereira:

  1. Quais são as principais lições que a vossa empresa tirou com a pandemia?

O mundo nunca tinha sido alvo de uma pandemia desta natureza com um alcance tão transversal, em todas as regiões em simultâneo e com impactos que ainda desconhecemos. Para as organizações como a nossa empresa, uma multinacional líder no mercado mundial em tecnologias médicas, esta pandemia tem servido como um teste para avaliar a nossa capacidade de resiliência e de rápida adaptação a uma nova realidade, minimizando o impacto interno e maximizando a nossa capacidade de ajudar o mundo a combater a pandemia, uma vez que o nosso terreno de atuação, os hospitais, concentraram toda a sua atividade nesse combate, recebendo os doentes infetados, tratando-os e servindo como centros de diagnóstico junto das populações. O nosso desafio foi manter a empresa a funcionar dentro dos parâmetros de maior segurança para os nossos colaboradores e para os nossos parceiros. Como tal, estabelecemos desde logo uma estratégia centrada na segurança dos nossos colaboradores, na continuidade do cumprimento da nossa missão junto dos hospitais e na ajuda no combate mundial à pandemia.

Em Portugal, como em todo o mundo, percebemos que estávamos devidamente organizados para esse ajustamento rápido. Treinados e habituados à mudança, os colaboradores dos nossos escritórios, desde sempre devidamente equipados, puderam passar a trabalhar a partir de casa e os colegas que nunca deixaram de ir aos hospitais, estavam munidos do material de proteção necessário para poderem continuar a sua função, altamente qualificada, ajudando os profissionais de saúde a tratar os seus doentes. Como empresa de tecnologia, apostámos desde sempre em soluções digitais que facilitavam o trabalho interno e externo. No que respeita ao trabalho externo, temos sempre apostado em soluções digitais que facilitam a nossa interação com os profissionais de saúde, quer na informação tecnológica quer na formação, bem como em tecnologias que permitem a monitorização de doentes à distância. Iremos continuar e intensificar essa aposta.

Ao fim destes meses, sentimos que a empresa conseguiu atingir os seus objetivos de manter os colaboradores em segurança, de continuar a sua missão de aliviar a dor, restabelecer a saúde e prolongar a vida e pudemos ajudar o mundo a combater a pandemia. Atingimos altos índices de envolvimento dos colaboradores, ultrapassando o obstáculo do isolamento através de uma comunicação constante, inclusiva e assertiva. Localmente, para ajudarmos a combater a pandemia, liderámos algumas ações das quais nos orgulhamos, como por exemplo munir milhares de profissionais de saúde com viseiras que seguem as normas impostas pelas autoridades de saúde e que são fabricadas em Portugal, bem como a oferta de soluções que facilitavam a comunicação entre profissionais de saúde nos hospitais e de seguimento de doentes infetados com covid, e ainda propusemos ajudar o país a montar os ventiladores que não tinham assistência técnica local. A grande lição que tiramos é que as organizações devem estar preparadas para uma mudança drástica de funcionamento e estar capacitadas para se adaptarem rapidamente às situações críticas, sem perder o seu ADN, o seu objetivo e a sua Missão.

  1. Quais são as maiores oportunidades de negócio que a pandemia criou? Sentiram maior aceleração na adoção de tecnologia em meio hospitalar?

Na nossa perspetiva as maiores oportunidades de negócio criadas prendem-se com o desenvolvimento de novas áreas capazes de apresentar soluções e projetos inovadores passíveis de ajudar a manter a atividade médica/cirúrgica de doentes independentemente de estarem ou não infetados com covid.

Tínhamos recentemente desenvolvido em Portugal a área de IHS (Integrated Health Solutions). Na Medtronic, esta área transversal é responsável pelo desenvolvimento soluções e projetos diferenciadores, que permitem aos hospitais rentabilizar a sua atividade, não deixando de introduzir inovação tecnológica. Durante o estado de emergência esta equipa teve um papel muito ativo no desenvolvimento e apresentação de soluções que podiam ajudar os hospitais na sua atividade clínica diária, e que foram disponibilizadas de forma gratuita. Paralelamente também acelerámos a implementação/disponibilização de ferramentas e dispositivos que permitem não só a monitorização remota dos doentes mas também que estes tenham um papel mais preponderante e ativo na gestão da sua condição. Sentimos uma maior aceitação das equipas clínicas na adoção de ferramentas e plataformas digitais e tecnológicas, nomeadamente aquelas que permitem continuar a tratar adequadamente os doentes não covid e simultaneamente mantê-los longe dos hospitais, especialmente os que pertencem aos grupos de risco.

  1. Que exemplos mais bem sucedidos de uso de tecnologia assistiram a Portugal?

A área terapêutica da Diabetes na Medtronic é claramente um exemplo bem sucedido, pois de forma muito rápida fomos capazes de liderar a mudança na maneira como os doentes são orientados. Sempre de forma próxima e alinhada com a DGS, desenvolvemos uma estratégia de entrega de consumíveis aos doentes com bomba de insulina, ajudando assim as autoridades de saúde e as equipas clínicas a garantir que, pertencendo ao grupo de risco, estes doentes se mantinham afastados dos hospitais sem deixar de continuar o seu tratamento. Para os novos doentes de diabetes conseguimos comunicar e treinar remotamente através de uma plataforma apropriada. Implementámos alguns projetos piloto de monitorização remota em alguns hospitais do SNS, para os quais tivemos rapidamente de formar médicos e doentes na utilização destas plataformas.

  1. Há cada vez mais hospitais e centros interessados em manter e desenvolver soluções remotas?

Penso que a digitalização e a introdução de soluções remotas são já uma realidade que se vai consolidar num futuro muito próximo. Obviamente que esta tendência foi acelerada por este contexto de pandemia. Como venho dizendo, a Medtronic é pioneira neste caminho, aliás a digitalização e monitorização remota já fazem parte das nossas soluções tecnológicas há muitos anos e irão cada vez estar mais presentes. Estas soluções são neste momento inevitáveis pois constituem uma forma de oferecer mais agilidade às equipas clínicas, de modo a diminuir as entradas evitáveis nas urgências e minimizar o crescimento das listas de espera para consultas de especialidade. Os doentes não podem esperar para serem tratados, pois o sistema de saúde ficará mais dispendioso quanto mais tarde for diagnosticada e tratada uma patologia. Os hospitais estão cada vez mais recetivos a estas soluções, pois sabem que além de eficácia terapêutica ganham eficiência na aplicação dos seus recursos.

  1. Tem exemplos de que forma sistemas inteligentes centralizados de gestão de hospitais faz a diferença tanto a nível de eficiência financeira, de tempo e de deteção mais eficaz de doenças – o chamado IoT associado à medicina?

Creio que se confunde muitas vezes a centralização da gestão hospitalar apenas com a centralização de compras, que muitas vezes se mostra morosa e ineficaz. Na tentativa de cobrir todas as necessidades dos hospitais, a compra a nível nacional para o SNS tornou-se mais complexa e difícil de concretizar. Cada hospital sabe qual é a sua capacidade de resposta e consegue escolher a tecnologia que mais se ajusta à sua logística e aos seus recursos.

No entanto, parece evidente ser necessário haver mais protocolos a nível nacional e que, por vezes, a escolha tecnológica deverá cumprir princípios que favoreçam a integração de serviços e particularmente o registo de dados dos doentes para que estes possam ser rapidamente assistidos em qualquer ponto do país. A mobilidade internacional também requer alguma uniformização neste aspeto. A nossa experiência é que alguma centralização de hospitais oferece vantagens mas a compra a nível nacional em muitos casos não favorece o sistema de saúde nem a concorrência entre os fornecedores, acabando a escolha por recair na proposta mais barata, que não é necessariamente a proposta economicamente mais vantajosa.

Por outro lado a existência de Centros de Responsabilidade Integrada (CRI) poderá trazer mais eficácia e eficiência ao sistema que muitas vezes precisa de escala para poder dar a devida resposta às necessidades de saúde. Temos pouca experiência ainda com CRI’s mas poderá ser uma boa opção para hospitais médios e grandes.

  1. De que forma o SNS com soluções tecnológicas remotas pode tornar-se regra no futuro? Sentem abertura nesse sentido? O investimento para isso acontecer seria difícil para o Estado português?

Em algumas áreas clínicas têm-se apontado como soluções para resolver as necessidades a telemedicina, a monitorização remota, entre outros termos mais ágeis no combate ao crescente aumento das listas de espera. Esta pandemia fez acelerar a necessidade de desenvolver ferramentas e projetos que sigam esta linha de orientação. A inovação e a tecnologia não podem ser avaliadas apenas pelo seu custo inicial, até porque há sempre formas de encontrar formas de financiamento.

Torna-se urgente haver capacidade de análise para avaliar se o investimento em inovação tem um turnover positivo. A forma de avaliar esse investimento tem que ter em conta o resultado clínico. Ou o resultado clínico é positivo e vale a pena o investimento em termos de aplicação de recursos num prazo razoável de amortização ou não valerá a pena a introdução de inovação não positiva. Como tal, a aplicação de conceitos como o Value Base Health Care é fundamental pois a avaliação da tecnologia torna-se contínua e o preço contratado é ajustado havendo partilha de risco entre o Hospital e o fornecedor de tecnologia.

O exemplo da monitorização remota permite compilar mais informações relativamente ao comportamento de uma determinação doença face a um determinado tratamento, o que permitirá aumentar o conhecimento sobre aquela doença em particular, reduzindo também, e por consequência, o número de exames médicos necessários, o número de internamentos desnecessários e, acima de tudo, permitirá ter doentes tratados de forma eficaz. Ou seja a aplicação de tecnologia pode aumentar o conhecimento e, através da utilização de inteligência artificial, trará mais soluções terapêuticas e definirá a sua eficácia, facilitando a estandardização dos tratamentos mais eficazes. A Medtronic tem já alguns projetos contratualizados na base do VBHC e achamos que o futuro da contratação pública e privada irá seguir este caminho.

  1. Há soluções como as da Babylon Health, que criou um ecossistema baseado em consultas remotas que inclui também compra imediata de medicamentos pela mesma app onde se faz consultas remotas e já é usada pelo SNS do Reino Unido. Têm alguma solução deste tipo em teste em Portugal?

A Medtronic tem, desde há algum tempo, soluções para monitorização remota e teleconsulta de doentes nas patologias onde está presente. Exemplos são a monitorização remota de doentes com dispositivos cardíacos implantados, caso de estudo na Harvard Medical School, e a monitorização remota de doentes com Diabetes Tipo I.

No âmbito da pandemia por covid-19, a Medtronic adaptou e disponibilizou gratuitamente aos hospitais, durante o estado de emergência e calamidade, uma solução para seguimento remoto de doentes em isolamento domiciliário, que incluía uma app para o doente e um dashboard para os profissionais de saúde. E o facto de ser considerada extremamente útil, é que esta solução está a ser analisada neste momento por alguns hospitais.

Uma das áreas de aposta da Medtronic, através do departamento de IHS (Integrated Health Solutions), é a introdução no mercado nacional de soluções digitais de suporte à monitorização e acompanhamento remoto de doentes em diversas patologias, e que visam simultaneamente ajudar o Sistema Nacional de Saúde a ser mais eficiente, mais centrado no utente e a ter melhores resultados clínicos.

Uma consulta que possa ser feita no conforto do lar ou com uma interrupção de apenas 20 minutos no local de trabalho, sem que o doente tenha de aguardar horas numa sala de espera, que não acrescente perda de produtividade laboral e custos de deslocação ao hospital, tem que se tornar uma realidade pois é uma necessidade mais do que evidente

  1. De que forma o futuro da medicina será recorrer aos serviços presenciais muito raramente? Pode uma consulta remota resolver boa parte dos casos? Quando acha que isto pode acontecer de forma mais generalizada e o que teremos a ganhar e perder com isso?

Estamos numa altura propensa à reavaliação e reorganização dos cuidados de saúde, o que poderá resultar em mudanças a médio ou longo prazo, caso as medidas implementadas nesta fase venham a demonstrar ser eficazes para os doentes e eficientes para os hospitais. O facto é que a pandemia veio resolver um problema há muito identificado: as constantes enchentes nos serviços de urgência.

A triagem prévia através de uma maior e melhor aposta na linha SNS24 pode ser uma forma de implementar, mais permanentemente, o conceito de consulta remota, que tem tudo para ser positivo. Uma consulta que possa ser feita no conforto do lar ou com uma interrupção de apenas 20 minutos no local de trabalho, sem que o doente tenha de aguardar horas numa sala de espera, que não acrescente perda de produtividade laboral e custos de deslocação ao hospital, tem que se tornar uma realidade pois é uma necessidade mais do que evidente. Obviamente que os médicos deverão ser dotados de outras ferramentas que lhes permitam substituir a prática presencial de auscultação ou verificação de um doente, e este último terá de ser educado numa perspetiva de auto responsabilização face à importância de não omitir informações importantes sobre a sua condição ao profissional de saúde.

É um caminho que nasceu de uma necessidade mas que marca também uma viragem há muito discutida e que, com o contributo de todos os intervenientes neste sector, pode começar a tornar-se uma realidade cada vez mais presente na nossa sociedade.

O risco de se perder o contacto presencial, tão importante na relação médico-doente, de retrocedermos no que diz respeito às relações interpessoais criadas com quem desempenha um papel tão importante na nossa saúde, pode ser contornado, exigindo por exemplo que a primeira consulta seja presencial e que o número de consultas remotas sejam limitado.

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