Inês Teotónio Pereira

E agora aos pais que não choram quando deixam os filhos na creche

Caros pais que não choram quando abandonam os vossos filhos nas creches ao cuidado de desconhecidos, vocês são humanos? Dois anos. Estamos a falar de crianças de dois ou três anos. Crianças que ainda mal sabem pegar nos talheres, que limpam mal o rabo sujo de cocó, muitas delas ainda usam fraldas e nenhuma sabe dizer frigorífico. Crianças que ainda ontem saíram da cama de grades, meu Deus, e vão ser agora despejadas numa creche sem saberem porquê, sem terem feito mal nenhum para merecerem tamanho castigo.

Inês Teotónio Pereira

A minha avó

Estou eu a viver com a minha avó, já se contava mais de um ano de estadia, quando ela me pergunta o que é que eu faço na vida. Eu não dava muitas explicações para não me fazerem muitas perguntas - regra de sobrevivência para viver em liberdade -, por isso a minha avó raramente me fazia perguntas. "Sou jornalista avó", respondi com orgulho do alto dos meus 21 anos e a tropeçar num curso de Direito onde não sabia bem quais as cadeiras em que estava inscrita e muito menos o horário. A minha vida era confusa e a minha avó não tinha paciência, idade ou educação para grandes confusões. Almoçava-se às 13h e jantava-se às 8h em ponto, com pratinho para o pão, copos de água e vinho, sopa, prato e sobremesa e demorava-se a jantar o tempo que a conversa demorasse. Quem chegasse cinco minutos atrasado sem avisar jantava na cozinha. "Mas jornalista daquele tipo de jornalista que pendura o lápis atrás da orelha?". Profissional, quer avó dizer? Claro que sim. Coisas sérias, fazia eu: falava com membros do Governo, entrava em sítios onde só os jornalistas e pessoas importantes entravam e assinava textos que iriam alterar o mundo, textos esses que estão hoje encadernados com argolas e capa de plástico numa prateleira em casa dos meus pais e que nem me atrevo a folhear. A minha avó fez um sorriso condescendente que a minha mãe herdou e mudámos de assunto. A minha avó não me levava a sério, mas como eu achava que a minha avó era de outra época - tinha passado pela implantação da República, duas revoluções, duas guerras mundiais, a guerra civil de Espanha e a guerra colonial - não me amolguei. O meu orgulho era muito maior do que a sua história.

Inês Teotónio Pereira

Aos pais que deixam os filhos na creche pela primeira vez

Ouvi dizer que hoje em dia não são os filhos que choram por ficar na escola, são os pais. Pais que sofrem por uma dor insuportável que estrangula o peito quando deixam os filhos na creche pela primeira vez. Pais que não aguentam o sofrimento e trazem as crianças de volta para casa ainda não passou meia hora desde o abandono, que não dormem de véspera, tal a angústia. Ora estes pais devem ser melhores pais do que eu alguma vez fui e, sem dúvida, pais muito mais sensíveis: os seis dias em que eu depositei as minhas seis crianças na creche foram seis dos dias mais felizes da minha vida. Foram raros os momentos em que experimentei tão grande sensação de liberdade, é o que vos tenho a confessar. E é por não querer guardar para mim o segredo de tal felicidade que vos dedico estas palavras.

Inês Teotónio Pereira

O meu rico menino é que não

O meu rico menino é que não, que ninguém o conhece como eu. É um anjinho, é o que lhe digo. Tem um coração de ouro, mas é preciso saber levá-lo. É daqueles que se pega de cernelha, sabe como é: de lado, sem o bicho reparar. Tem feitio, o rapazinho, ou não fosse cá dos nossos. Somos todos assim, sabe? Cá em casa ninguém nos leva por parvos, somos gente fácil que gosta das pessoas, mas não somos tolinhos, isso é que não. Não abusem da gente que quando nos pisam os calos é melhor fugirem logo. O meu menino sai aos seus, como lhe disse, é brincalhão e não gosta de fazer mal a ninguém, mas quando lhe passa uma coisa pela cabeça, até cega. Como o pai.

Inês Teotónio Pereira

Não digam nada à minha mãe

Lembram-se dos primeiros cigarros? O fumo custava a engolir e sabia mal que se farta. Tenta mais uma vez e vais ver que depois sabe bem, dizia a minha amiga. No meu caso, os primeiros cigarros foram dois SG Gigante que tínhamos roubado ao irmão dela e que fumámos no fundo de uma quinta encostadas a um muro, com medo da polícia, dos pais, das pessoas, de sermos presas. Ela tinha razão, esforcei-me para gostar e acabei por conseguir. Não vos digo a idade que tinha que a minha mãe não sabe.

Inês Teotónio Pereira

Vida triste de uma banhista 

Mas eu não vou à praia por causa do sol, vou até lá apesar do sol. É uma coisa de mim e das praias onde vou - ao meio-dia, ou levanta ou arrepia, diz-se. Aquilo que me leva à areia são os banhos no mar e as pessoas. Já apanhei praias de todo o tipo e idades: praias que começam tarde porque a manhã é para curar a noite de véspera e ver as pessoas às claras; praias com o sol ainda estremunhado e areia húmida apenas pisada por gaivotas, porque as crianças acordam cedo e não podem apanhar sol; e a praia de agora.

Inês Teotónio Pereira

Assim como o asno africano 

Segundo o Censos de 2021, somos cada vez menos, há cada vez menos nascimentos e regista-se uma crescente emigração de jovens (parece que afinal, ao fim de dez anos, não são a troika, o Passos e o neoliberalismo que os põe a correr daqui para fora). O número de estrangeiros que escolhem Portugal para viver e trabalhar não é o suficiente para equilibrar a balança e a variação é negativa (apesar de Campo de Ourique ser um bairro luso-francês). A verdade dos números é que Portugal é apenas um ponto de passagem para melhores destinos. Os portugueses e o asno selvagem africano (a espécie animal que sofre a maior ameaça de vir a desaparecer em breve), estão em vias de extinção, como bem explica João Miguel Tavares nesta crónica. Se nada for feito e se nada acontecer de extraordinário, nós, tal como o asno, deixaremos de existir em algumas décadas.

Inês Teotónio Pereira

O cospe e a distopia das férias 

Um pãozinho com fiambre, uma fruta e lá vão eles. Havia sempre alguém que fazia melhores sanduíches, mas demorava mais tempo e o importante era ir. Um dia de férias durava uma eternidade e acontecia de tudo sem querer e sem ninguém saber. Ninguém queria saber de nós. Agora vamos ali e depois um mergulho, e depois ali ao fundo, depois subir não sei onde, tipo Verão Azul mas com bicicletas mais manhosas. Ninguém saber onde estamos é o contrário de estarmos presos. De repente, com fome ou frio do fato de banho molhado, entrávamos em casa e dávamos um ar de graça, de férias bem vividas. Era tudo de repente, sem programação e só porque apetecia. Quem estava fazia parte do grupo, tipo bando. primos de primos, amigos de amigos, irmãos de todas as idades, fosse quem fosse que ali estava, ia ficando sem critério. Havia os rapazes giros que deixavam de ser giros se ligassem ao facto de serem giros, as raparigas giras, que tinham de ser burras porque assim não vale, os gordos, de quem todos gostavam, os cómicos, que nasciam assim e normalmente usavam óculos, os malucos, que nos ensinavam o que era uma asneira e uma parvoíce bem feita e os tímidos, que faziam das tripas coração para irem em bando e eram respeitados pela coragem e pelo voto de silêncio. As idades eram mais ou menos desconhecidas, assim como os talentos, as notas, as marcas, o dinheiro que se tinha ou de onde se vinha. Éramos um bando em plena liberdade num espaço limitado pelas ruas com carros. Os carros e os desconhecidos com ar suspeito de nos levarem dali raptados eram os perigos.

Inês Teotónio Pereira

Meus queridos filhos 

A minha mãe diz que as coisas boas, os elogios, devem ser ditos em vida e não em cima do púlpito, entre a comunhão e a bênção final, quando as pessoas já cá não estão para ouvir. É como na história do Tom Sawyer, quando o herói rebelde chora piedosamente ao ouvir o comovente elogio fúnebre que lhe fazem julgando-o assassinado pelo índio. Ele não sabia que era tão querido apesar de tudo, nunca lhe tinham dito, e comove-se sem desconfiar que é ele o morto por quem todos choram.

Inês Teotónio Pereira

O mais mimado possível

Tenho um filho mimado. Em seis, só tenho um mimado. É uma novidade e confesso que estou a adorar a experiência de ter um filho mimado. Para quem não sabe, um filho mimado é uma criança que tem caprichos e que vê esses caprichos satisfeitos em segundos ou então chora e faz birras. Faz cara de amuado e cruza os braços como os miúdos mimados dos filmes e bate com os pés sempre que é contrariado. Não tem medo de nada, apenas de não ter aquilo que quer e vai à luta com toda a má-criação que encontrar dentro de si. Sem vergonha das figuras que faz e sem medo das consequências porque raramente as birras que faz têm consequências.

Inês Teotónio Pereira

O futuro que a eles pertence

Tenho um filho que não quer saber de roupa de marca, de marcas em geral, e tem como ambição ter o mínimo de coisas possível. Por exemplo, eu é que peço para lhe dar um fato de banho novo e ele concede. Quem não gostava de ter um filho assim? Uma maravilha de vos fazer inveja. Por outro lado, não sabe ter dinheiro nem percebe bem para que serve. Gosta mesmo é de amigos, de poder ir onde lhe apetece, de fumar e de comer bitoques acompanhados a imperiais, ao som de discussões sobre a vida, Deus, valores e desígnios. Estuda quando não tem mais nada para fazer e trabalha quando faltam os cigarros. Tiram-lhe isto, tiram-lhe a vida.

Inês Teotónio Pereira

Não porque não

Gosto de dizer não porque não. Dizer não porque não é o maior exercício de liberdade que existe. Não porque não: nem é porque não me apetece ou porque não posso, é porque não e ninguém tem nada a ver com o meu não. Os meus filhos pedem-me coisas todos os dias, sobre tudo, a toda a hora e com a insistência de uma mosca que não sai de cima de uma colher de mel; se soubessem as coisas que lhes passam pela cabeça pedir-me, vocês riam-se. Diz a minha mãe que "faz parte; eles pediram e faz parte nós dizermos que não". O "faz parte" da minha mãe é uma enciclopédia de educação - a minha mãe sabe todas as coisas que fazem parte de cada idade e as respetivas formas de lidar com essas coisas.

Inês Teotónio Pereira

Minhas queridas amigas

Uma das minhas melhores memórias é de vocês a pegarem os meus bebés ao colo e os apertarem como se fossem vossos. "Ah, este cheirinho a bebé, que saudades" - não havia uma que não dissesse isso. Ficava vaidosa. Fui das últimas de nós a ter filhos e tive sorte por isso. Não pus mel nas chuchas como tu, M., mas encharquei os berços com Aero Om para eles se calarem com o mesmo desespero. E era vê-los a acordar de manhã com a cara e os lençóis cor-de-rosa como marcas de uma guerra entre o sono e o choro que durou a noite toda. Foi uma de vocês que me ensinou a não ligar à bula do remédio que aconselha duas gotas três vezes por dia, porque connosco era aos esguichos, até eles se calarem de exaustão e nós também. Estão inteirinhos e sem maleitas, é o que dizemos orgulhosas ao mundo quando nos falam de Aero Om. E a nossa Carminho também, apesar do mel.

Inês Teotónio Pereira

Não tenho vocação para ser mãe

Adoro os meus filhos, dava (dou) a vida por eles, todos os dias agradeço a Deus as suas vidas, o seu amor, saúde... blá, blá, blá. Mas se me perguntarem se eles são as pessoas do mundo com quem eu mais gosto de estar, respondo honestamente que não, tenho muita pena mas não são. Por exemplo, se eventualmente alguém me perguntasse: Gostas mais de jantar com os teus amigos ou com os teus filhos? E diria, honestamente, os amigos. E porquê? Os amigos portam-se bem à mesa, pagam o jantar deles, não têm de ir para a cama cedo e têm idade para beber álcool - o que faz toda a diferença quando se janta fora. E viajar? Também, claro. Viajar com filhos ou com amigos é a diferença entre comprar um bilhete para uma zona de guerra ou para Maldivas. Viajar com os filhos de carro é insuportável, de avião é caríssimo e gasta-se uma fortuna em alojamento e comida. Depois, eles não gostam de museus nem de teatros, não entram em bares, perdem-se a toda a hora e são consumidores e pedinchões compulsivos. Já viajar com os amigos, seguindo a regra sagrada do "amigo não empata amigo", é uma maravilha.