Inês Teotónio Pereira

Não tenho vocação para ser mãe

Adoro os meus filhos, dava (dou) a vida por eles, todos os dias agradeço a Deus as suas vidas, o seu amor, saúde... blá, blá, blá. Mas se me perguntarem se eles são as pessoas do mundo com quem eu mais gosto de estar, respondo honestamente que não, tenho muita pena mas não são. Por exemplo, se eventualmente alguém me perguntasse: Gostas mais de jantar com os teus amigos ou com os teus filhos? E diria, honestamente, os amigos. E porquê? Os amigos portam-se bem à mesa, pagam o jantar deles, não têm de ir para a cama cedo e têm idade para beber álcool - o que faz toda a diferença quando se janta fora. E viajar? Também, claro. Viajar com filhos ou com amigos é a diferença entre comprar um bilhete para uma zona de guerra ou para Maldivas. Viajar com os filhos de carro é insuportável, de avião é caríssimo e gasta-se uma fortuna em alojamento e comida. Depois, eles não gostam de museus nem de teatros, não entram em bares, perdem-se a toda a hora e são consumidores e pedinchões compulsivos. Já viajar com os amigos, seguindo a regra sagrada do "amigo não empata amigo", é uma maravilha.

Inês Teotónio Pereira

Mas ele é bom em quê?

Quem nunca olhou para um filho com alguma tristeza, como quem olha para um cãozinho abandonado, e pensou: "mas este miúdo tem jeito para quê?" Quem nunca se perguntou qual o talento, o jeito especial, a inclinação para determinada área ou o gosto particular do filho, e depois concluiu: "Olha, nada. Não tem jeito para nada de especial." Esta é uma das regras de ouro da parentalidade moderna: um filho não pode ser normal, tem de ser especial, tipo animal de circo. O jeito para quê, é a grande questão do século XXI. Há a perceção de que o jeito representa sucesso, realização pessoal e, por isso, felicidade. E que, quanto mais cedo se descobrir o jeito, mais garantido será o sucesso. A quantidade de jovens e crianças que existem atualmente com jeito não tem paralelo na história da humanidade. É uma multidão de jeitosos. Reparem que os pais dos filhos que questionam todas as regras imaginam para um filho um futuro de advogado de sucesso em vez de uma criança malcriada.

Inês Teotónio Pereira

O carro 

Existe hoje uma estúpida tendência de desvalorização dos carros, como se os carros fossem apenas bens utilitários sem qualquer valor para além do material. Mas um carro é uma casa. Aliás, o carro é mais do que uma casa: é um quarto, um templo, uma discoteca, uma escola, uma sala de leitura, um escritório, um consultório de psicologia, um caixote de lixo e, em alguns casos, uma arrecadação. No carro a vida acontece, é o que é. Deveriam existir mobiliárias para os carros tal como existem imobiliárias para as casas: os stands retiram toda a dignidade e o encanto aos carros. Uma pessoa vai comprar um carro e o vendedor só nos fala do motor, dos quilómetros, da cilindrada e dos cavalos, como se essas coisas interessassem. Os carros são muito mais do que isso.

Inês Teotónio Pereira

A todas as Margaridas do mundo

A Margarida deu algumas vezes aulas ao meu filho com o bebé dela ao colo. Era ela de um lado com o bebé e eu do outro com o meu filho. Foram horas e horas disto. Estreitámos uma relação para a vida, eu e a Margarida: o que passámos juntas nas trincheiras do ensino à distância não se conta, vive-se. A Margarida, na batalha das aulas quando o ruído aumentava e o desespero nos começava a arranhar a coragem, mantinha a serenidade contra toda a lógica do mundo. "Vá, minhas pestes, agora pouco barulho e desliguem o som, sff. Já ninguém mostra mais nada." Dizia isto num tom maternal e firme, naquele timbre certo que revela autoridade. A estratégia de ataque das crianças é de uma complexidade notável: elas começam por mostrar um desenho - só um, depois vem o cão, depois o coelho, depois é só contar uma coisa, até que, sem darmos conta, a destruição da aula e a derrota estão iminentes. Mas a Margarida vê mais longe, conhece a tática do inimigo e, num contra-ataque sereno, neutralizava as pestes e encorajava as tropas (nós, pais) a não desistirem. A Margarida consegue calar as duas dezenas de crianças apenas abrindo os olhos por detrás do computador. Quando eles se calam ela sorri e continua a aula. E às vezes faz isto com o bebé ao colo, desafiando o perigo e sem que escorra pela sua testa uma gota de suor.

Inês Teotónio Pereira

A covid comeu a língua à esquerda

Eu, se fosse de esquerda, assumiria várias lutas a propósito desta maldita pandemia. Daquelas lutas mesmo boas que estão para a esquerda como as gomas estão para o meu filho mais novo e o meu carro para os meus filhos mais velhos. Começaria pela luta da igualdade de género (não sei se ainda se chama assim mas vocês percebem). Os cartazes seriam quase poéticos: "Somos mães, não somos reféns"; "A luta continua, miúdos para a rua"; "Pais, vão cozinhar; nós queremos trabalhar". Tudo com pontos de exclamação. Isto, porque a pandemia veio mostrar que, no final do dia, quem se trama são as mães, as mulheres, a maioria. Os pais que acidentalmente tropeçarem nesta crónica podem barafustar o que quiserem e puxar dos vossos galões de pais exemplares e modernos do século XXI, mas sabem tão bem quanto eu que tirando 20% dos casos (no máximo dos máximos), é às mães que os miúdos perguntam o que é o raio jantar e são as mães que andam pela casa a mandar calar os filhos porque o "pai está em reuniões". Já as nossas reuniões são na casa de banho ou trancadas num sótão escuro enquanto a sopa está a aquecer.* E pior: são as mães que estão nos grupos de WhatsApp das turmas do filhos. (Sim, existem esses grupos).

Inês Teotónio Pereira

O plano é não ter plano

Todos os meses tento o planeamento doméstico: "Vou dividir tarefas por cada um e regras para se cumprirem senão......senão..." O senão, fica para mais logo. Eles ficam a olhar para mim denunciando alguma compaixão na expressão e encolhem os ombros -- sabem há anos que a minha capacidade para planear está ao nível da minha capacidade para fazer tricô. Em minha casa tudo vai acontecendo sem planos. São milagres, uns atrás dos outros. E porquê? Ou porque os planos mensais que fazemos são demasiado exigentes e, por isso, ficam na gaveta ou porque simplesmente não os fazemos por falta de paciência. As melhores férias, por exemplo, são as não planeadas, as minhas melhores recordações são de programas não planeados. Planear chateia-me. Retira a imprevisibilidade da vida, a maravilha que é não ter nada no frigorifico e sermos forçados a encomendar pizas, o nervoso miudinho que vem da dúvida sobre o que nos espera no dia seguinte. A vida sem planos é como uma série viciante que não tem fim. Sem guião. Além disso não há nada pior do que "as coisas não saírem conforme o planeado" - é o princípio da frustração. E no meu caso os planos saem sempre furados. É por estas e por outras que nem sequer tenho agenda - a principal inimiga das pessoas sem planos.

Inês Teotónio Pereira

A crise dos meus jovens turcos

Uma das coisas mais desagradáveis que acontecem quando os nossos filhos crescem é começarem a ter opinião. Há várias coisas desagradáveis que vão surgindo com o crescimento deles, como os exponenciais e desproporcionais aumentos da desarrumação, dos gastos, do espaço que ocupam e da comida que ingerem. Mas são as opiniões próprias que me matam. E aí tenho alguma compreensão pela forma de atuar do nosso primeiro-ministro: democracia, meninos, só até à minha.

Inês Teotónio Pereira

Dez dias com a covid e um filho único

Durante dez dias, fui mãe de um filho único. Fui eu, ele e a covid, apenas e só. Forçada a sair de casa por causa do bicho, levei o mais pequeno na mala e retirei-me por dez dias. Dez longos dias a viver com uma criança de 7 anos que tem como interesse quase exclusivo os dinossauros. Sonho agora com dinossauros monstruosos, como o T-Rex, o Estegossauro ou o Pterodáctilo, e no meu cérebro ecoam a toda a hora as vozes esganiçadas dos desenhos animados. Ao fim do terceiro dia de confinamento já parecíamos marido e mulher casados há 40 anos a embirrar um com o outro.

Inês Teotónio Pereira

À meia dúzia é mais caro

Dinheiro e filhos são duas realidades incompatíveis - os dois conseguem viver na mesma casa. Os filhos desprezam o dinheiro, não lhe dão o devido valor e não descansam enquanto não acabam com ele. Há os consumistas e depois há os instigadores dos consumistas: os filhos. Eles convertem qualquer tostão num saco de gomas e acham que as verdadeiras provas de amor paternal são as que custam um balúrdio de massa, como viagens, toda a secção de jogos, telemóveis e informática de uma mega loja, jantar fora todos os dias e tudo o resto que os amigos têm ou gostavam de ter, mais os primos dos amigos e outros de quem ouviram falar. Por eles, nós falíamos para os enriquecer. Como? Vão levantar dinheiro, seus forretas. Há caixas com dinheiro espalhadas por todo o país, e nós, pais, só não compramos tudo o que eles querem porque somos do contra, egoístas ou simplesmente porque somos pais - dizemos não, porque sim.