Inês Teotónio Pereira

Pt tou aki

Uma pessoa quer que eles se mexam. Quer que eles se mexam e que se sentem diretos nos sofás. Já agora, que não estejam sempre a olhar para os telemóveis. Os telemóveis - alguém devia escrever um livro sobre a era dos telemóveis à qual chamam erradamente era da globalização. Adiante. E essa pessoa, que são todos os pais do mundo, também quer que eles conversem, quer que dialoguem, que façam perguntas. No fundo quer que construam frases com sujeito, verbo, complemento direto e já agora indireto. Só que eles não conseguem. Hoje, os nossos filhos verbalizam o menos possível: eles nem sequer tocam à campainha da casa dos amigos não vá alguém atender - enviam mensagem por Instagram para lhes abrirem a porta: "pt tou aki". O outro responde com uma série de palavrões em abreviatura e a porta abre-se. Sei disto porque já vi e porque não respeito a privacidade dos meus filhos quando eles deixam as contas abertas no meu telemóvel. São uma delícia aqueles diálogos que não recomendo a pais sensíveis.

Inês Teotónio Pereira

Viver sem as pessoas

Lembro-me de achar que era uma fantasia, histerismo até, e dois meses depois estávamos fechados em casa. Hoje, temos todos imensas histórias incríveis para contar. Lembro-me de o meu filho mais velho informar que ia para um lar de idosos em Foz Côa, com uma missão recém-criada chamada Convidas: era preciso substituir os funcionários que estavam infetados e os velhinhos estavam isolados, a precisar de quem cuidasse deles. Foi como se estivesse a enviar um filho para a guerra. Passou lá os seus anos, a fazer de cuidador e mandava-nos fotografia vestido como um astronauta. Depois disso ainda fez mais duas missões, cresceu, divertiu-se, fez obra. Veio melhor e bem. E a fumar.

Inês Teotónio Pereira

O problema do não

Miguel Esteves Cardoso é que tinha razão, todas as crónicas deviam ser sobre o problema: é tudo sobre um problema qualquer. O nosso problema de pais são os filhos, está claro, e o grande problema dos filhos é o não. Dizer-lhes que não é todo o retrato de uma geração de pais e nada tem que ver com os coitados dos filhos. E são várias as razões que se prendem com esta incapacidade de dizermos que não. A primeira e a mais estúpida de todas é não conseguirmos ver os filhos sofrer, não estamos habituados a fazer isso aos animais quanto mais aos filhos. Negar-lhes um desejo é provocar-lhes sofrimento e isso dói-nos. Tira-nos a paz. Já nos chega o dia-a-dia, as guerras no mundo, a pandemia e as incertezas das globalização para nos tirarem a paz, por isso, ao menino dizemos que sim.

Inês Teotónio Pereira

Mimo do bom 

O que eu gostava mesmo era de ouvir a minha mãe ao telefone com a minha avó a relatar em pormenor as andanças da minha gripe. A falar de mim: "Ela hoje já se sente melhorzinha, com a tosse mais solta", contava tudo ao pormenor. "Já comeu melhor e vamos lá ver como passa a noite". Eu enroscava-me nos cobertores conforme aquela conversa me aquecia a alma. No meio daquela família barulhenta e de tanto que havia para a fazer, era a maleita ligeirinha que me fazia faltar às aulas que a preocupava. Por mim, ficaria de gripe, a ser o tema das conversas da minha mãe para o resto da vida.

Inês Teotónio Pereira

Das minorias, para as minorias e pelas minorias

É assim que funciona a democracia, é desta forma que são forjadas as novas ideologias e, como sempre, estas aventuras políticas têm a educação como recreio e as escolas como parques de diversões. A recente história da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que a tornou conhecida pelas piores razões, é a prova do quão infelizes são as minorias que mandam na maioria dos alunos portugueses, assim como são infelizes as minorias que contestam a existência da disciplina.

Inês Teotónio Pereira

A escola e os pais: a relação de amor

A escola: não conseguimos viver sem ela e não conseguimos viver com ela. Há coisas na escola que nos irritam assim como o portal das finanças; no entanto, não há dia mais feliz do ano do que aquele reencontro em setembro, depois de uma ausência prolongada que tanto nos atormenta e aperta o coração com saudade. Só percebemos o valor das coisas quando elas nos faltam - ou seja, quando a escola nos fecha os portões na cara durante os meses de verão, é quando nos apercebemos quanto a amamos. Mas ela também nos incomoda, também a detestamos. E é nessa altura, quando os maus sentimentos nos invadem e os momentos de desespero tomam conta do juízo e da razão, que nos apetece atirar tudo ao ar e os livros ao lixo, e desistir - trocar a escola por um barco para dar volta ao mundo e levar os miúdos dali para fora (versão divórcio em linguagem escolar). E isto porque a escola sabe ser mesquinha, metediça, autoritária, exigente e fria. Ela não reconhece o nosso valor, o nosso esforço e não perde um minuto para conversar: comunica por email. Querem falar com o professor de matemática? Não dá: envie o email ao diretor de turma. Não gostam da disciplina de Cidadania? Temos pena, é o que há. Deste modo é difícil, e nenhuma relação de amor sobrevive a esta forma de tratamento entre as partes. Ela não dialoga, decide unilateralmente.

Inês Teotónio Pereira

Filhas

Não sei fazer tranças. Nem tranças, nem lacinhos, nem ponto de cruz, nem crochet, nem lavoures, como se dizia durante séculos. A minha mãe demorou anos a fazer um tapete de Arraiolos sem adivinhar o suplício que seria quando chegasse à fase de encher o dito de tantos metros quadrados que enchem uma sala grande. Mas fez. Também faz tricot ao mesmo tempo que acompanha um filme e fala ao telefone; ainda cozinha na perfeição e quase todos os livros que lê são em francês, mas não toca piano - o que seria um cliché.

Inês Teotónio Pereira

A realidade paralela onde vivem os pais

A educação já não é o que era. Antigamente ninguém fumava ou bebia, obedecíamos aos pais, estudávamos quando chegávamos a casa e existiam poucas crianças e jovens com más notas. E as poucas que existiam com más notas, compensavam a falta de sucesso escolar com humildade seguindo a máxima, hoje em desuso mas muito citada pelos pais de todo o mundo, "se não estudas vais trabalhar para as obras como no meu tempo". Se soubessem as pessoas que trabalham nas obras devido à falta de sucesso escolar, estudavam mais, é o que ainda digo aos meus filhos. Era costume as pessoas não se deitarem nos sofás - sentavam-se de costas direitas, em ângulos próximos dos 90 graus como as suas avós e bisavós; também não mordiscavam as almofadas enquanto assistiam a séries ou telenovelas e levantavam-se cedo. Assistiam a programas culturais e sabiam o que se passava no mundo: a clássica crise do Médio Oriente, o saudoso Muro Berlim, o IRA, a ETA e a fome em África que tantas consciências abalaram. Aos 10 anos toda a gente tinha lados, hoje têm Instagram.

Inês Teotónio Pereira

Uma lei para pais e mães

Não tenho nada a ver com isto, mas se fosse meu filho andava na linha - aí andava, andava. Já viste como o miúdo fala com a mãe? Deus me livre de ter um filho assim. Também com a vida que aqueles pais levam: põem filhos no mundo mas não mudam a vida deles, é como se nada fosse. Não há regras; regras dão trabalho e quem é que quer ter mais trabalho? Pelo que vejo, um deles ainda vai bater na mãe. Havia de ser comigo! Há pessoas sem vocação para serem pais.

Inês Teotónio Pereira

Grupos de mães: a deep web maternal

Sabem para que serve a semanada? Para se poder tirar a semanada: más notas, tira-se a semanada; desobedeceu, mentiu, pimbas, fica sem semanada; telemóvel desligado de madrugada e não dá sinal de vida há horas, uma semana sem receber um tostão. E sabem qual a melhor forma de pôr os filhos a arrumar a roupa? Deitar a roupa amontoada nas gavetas para cima da cama e assim forçá-los a arrumar tudo. Ah, mas eles podem voltar a pôr a roupa toda nas gavetas desarrumada. Pois podem, e repetimos a operação.

Inês Teotónio Pereira

E agora aos pais que não choram quando deixam os filhos na creche

Caros pais que não choram quando abandonam os vossos filhos nas creches ao cuidado de desconhecidos, vocês são humanos? Dois anos. Estamos a falar de crianças de dois ou três anos. Crianças que ainda mal sabem pegar nos talheres, que limpam mal o rabo sujo de cocó, muitas delas ainda usam fraldas e nenhuma sabe dizer frigorífico. Crianças que ainda ontem saíram da cama de grades, meu Deus, e vão ser agora despejadas numa creche sem saberem porquê, sem terem feito mal nenhum para merecerem tamanho castigo.

Inês Teotónio Pereira

A minha avó

Estou eu a viver com a minha avó, já se contava mais de um ano de estadia, quando ela me pergunta o que é que eu faço na vida. Eu não dava muitas explicações para não me fazerem muitas perguntas - regra de sobrevivência para viver em liberdade -, por isso a minha avó raramente me fazia perguntas. "Sou jornalista avó", respondi com orgulho do alto dos meus 21 anos e a tropeçar num curso de Direito onde não sabia bem quais as cadeiras em que estava inscrita e muito menos o horário. A minha vida era confusa e a minha avó não tinha paciência, idade ou educação para grandes confusões. Almoçava-se às 13h e jantava-se às 8h em ponto, com pratinho para o pão, copos de água e vinho, sopa, prato e sobremesa e demorava-se a jantar o tempo que a conversa demorasse. Quem chegasse cinco minutos atrasado sem avisar jantava na cozinha. "Mas jornalista daquele tipo de jornalista que pendura o lápis atrás da orelha?". Profissional, quer avó dizer? Claro que sim. Coisas sérias, fazia eu: falava com membros do Governo, entrava em sítios onde só os jornalistas e pessoas importantes entravam e assinava textos que iriam alterar o mundo, textos esses que estão hoje encadernados com argolas e capa de plástico numa prateleira em casa dos meus pais e que nem me atrevo a folhear. A minha avó fez um sorriso condescendente que a minha mãe herdou e mudámos de assunto. A minha avó não me levava a sério, mas como eu achava que a minha avó era de outra época - tinha passado pela implantação da República, duas revoluções, duas guerras mundiais, a guerra civil de Espanha e a guerra colonial - não me amolguei. O meu orgulho era muito maior do que a sua história.

Inês Teotónio Pereira

Aos pais que deixam os filhos na creche pela primeira vez

Ouvi dizer que hoje em dia não são os filhos que choram por ficar na escola, são os pais. Pais que sofrem por uma dor insuportável que estrangula o peito quando deixam os filhos na creche pela primeira vez. Pais que não aguentam o sofrimento e trazem as crianças de volta para casa ainda não passou meia hora desde o abandono, que não dormem de véspera, tal a angústia. Ora estes pais devem ser melhores pais do que eu alguma vez fui e, sem dúvida, pais muito mais sensíveis: os seis dias em que eu depositei as minhas seis crianças na creche foram seis dos dias mais felizes da minha vida. Foram raros os momentos em que experimentei tão grande sensação de liberdade, é o que vos tenho a confessar. E é por não querer guardar para mim o segredo de tal felicidade que vos dedico estas palavras.

Inês Teotónio Pereira

O meu rico menino é que não

O meu rico menino é que não, que ninguém o conhece como eu. É um anjinho, é o que lhe digo. Tem um coração de ouro, mas é preciso saber levá-lo. É daqueles que se pega de cernelha, sabe como é: de lado, sem o bicho reparar. Tem feitio, o rapazinho, ou não fosse cá dos nossos. Somos todos assim, sabe? Cá em casa ninguém nos leva por parvos, somos gente fácil que gosta das pessoas, mas não somos tolinhos, isso é que não. Não abusem da gente que quando nos pisam os calos é melhor fugirem logo. O meu menino sai aos seus, como lhe disse, é brincalhão e não gosta de fazer mal a ninguém, mas quando lhe passa uma coisa pela cabeça, até cega. Como o pai.

Inês Teotónio Pereira

Não digam nada à minha mãe

Lembram-se dos primeiros cigarros? O fumo custava a engolir e sabia mal que se farta. Tenta mais uma vez e vais ver que depois sabe bem, dizia a minha amiga. No meu caso, os primeiros cigarros foram dois SG Gigante que tínhamos roubado ao irmão dela e que fumámos no fundo de uma quinta encostadas a um muro, com medo da polícia, dos pais, das pessoas, de sermos presas. Ela tinha razão, esforcei-me para gostar e acabei por conseguir. Não vos digo a idade que tinha que a minha mãe não sabe.