Alberto Castro

Intuições erradas

A intuição e a ciência económica nem sempre convivem bem. Esta semana, por exemplo, falou-se nos pagamentos, do Estado, aos laboratórios privados à conta dos testes covid. Tanto bastou para logo se aventar que o Estado deveria integrar essa capacidade no SNS. A ajudar nessa argumentação estavam desde os custos mais baixos apresentados por um hospital, até aos lucros extraordinários de dois desses laboratórios. "Fazer dentro fica mais barato, porque não tem de se dar lucro aos outros" é a intuição. Ignoremos a hipótese de se estarem a comparar alhos com bugalhos no que toca aos custos: estes variaram ao longo do ano - a comparação haveria de ser feita em datas iguais; os custos totais integram não apenas os custos variáveis, mas também as amortizações. Ainda assim, subsistiria uma perplexidade: se aquela afirmação fosse correta, qual a razão para as chamadas "cadeias de valor" serem tão fragmentadas, constituídas por um grande número de agentes especializados, relacionados entre si por contratos de compra e venda sucessivos? Não acredita que todos eles sejam incompetentes, pois não? Especialização e compra e venda são algumas das palavras-chave. A primeira, permite uma eficiência e eficácia que originam custos mais baixos. A compra e venda pressupõe mercados e concorrência, porventura globais, mas também agentes informados e com capacidade de negociar. Tudo conjugado, resulta que quem compra o faz a um preço (integrando o lucro de quem vende) mais baixo do que se produzisse internamente.

Alberto Castro

Bacalhau basta?

A crise pandémica teve impacto setorial muito diferenciado. As atividades ligadas ao turismo foram das mais afetadas. Nos últimos anos, o seu desenvolvimento havia sido responsável por um aumento nas exportações (as vendas a estrangeiros, mesmo que ocorram no país, são assim classificadas) que muito ajudou nas contas nacionais e no crescimento económico. Atividades intensivas em trabalho deram emprego a muita gente, parte da qual imigrante. O boom refletiu-se nos resultados, com o Banco de Portugal a colocar o setor da hotelaria e restauração no topo da rentabilidade. A euforia nem sempre foi boa conselheira, como se viu aquando da contestação de alguns "empresários" da restauração, vários dos quais associados a aplicações ostentatórias dos ganhos.

Alberto Castro

Inédito e exemplar

A reação do ministro Siza Vieira à insolvência da Dielmar tem tanto de exemplar, como de pouco comum. Confrontado com a justificação da administração, invocando os efeitos da crise pandémica, clarificou que a empresa acumulava prejuízos há 10 anos. Quanto ao papel do Estado, esclareceu que havia já 8 milhões de apoios acumulados, recusando mais ajudas a uma unidade que "não tem salvação". Num, e noutro caso, foi notório o desencanto com a gestão a quem acusou de não ter aplicado as medidas de reestruturação necessárias, nem ter capacidade para inverter a situação.

Alberto Castro

O bolso é que paga

Um destes dias, o Financial Times analisava os cuidados de saúde, entendidos no sentido lato, na perspetiva do investidor privado. Uma das recomendações mais enfáticas é inesperada: empresas que ajudassem a reduzir as despesas de saúde, referindo, em particular, uma empresa especializada em fisioterapia ao domicílio, pré ou pós-operatória, a uma fração do custo no hospital ou em serviço ambulatório. Não está em causa tecnologia sofisticada, apenas capacidade de organização, gestão e qualificação. Um grande "apenas".

Alberto Castro

Poucochinho

Ao anunciar a provação do PRR português, António Costa sublinhou o impacto positivo que o mesmo traria para a economia portuguesa. Discurso, no essencial, repetido à tarde em Madrid por Sanchéz e, no dia seguinte, pelo primeiro-ministro (PM) grego. Com um detalhe: ambos puderam anunciar valores mais altos, bastante mais, no caso grego. Se nada de novo acontecer, quando se esgotarem os fundos do PRR estaremos mais longe talvez não da média europeia, um lugar vazio, mas dos nossos semelhantes. Continuaremos a crescer poucochinho.

Alberto Castro

Campeonato europeu

Sem termos de comparação, afirmações como "somos bons" tanto pode revelar complacência, presunção ou ignorância. Em pleno campeonato europeu de futebol, mesmo sujeita a alguns sortilégios, veremos quão boa é a nossa seleção. Na economia, ter sorte dá trabalho. Há países a quem a natureza dotou de múltiplos recursos, sem que daí adviesse boa fortuna (por exemplo, Angola). Na atual pandemia, somos penalizados por dependermos muito do turismo, mas essa foi uma opção e um risco que quisemos correr.

Alberto Castro

Nem um pio!

Já ouviu falar da "Europa Startup Aliança das Nações"? Não é engano, a designação é mesmo essa! Presumo que terá sido traduzido para "português" por algum adepto ferrenho da novilíngua promovida pelos burocratas em Bruxelas. Esqueça a designação. Sabe do que se trata? É natural que não. A sua criação foi anunciada, como se da coisa mais natural deste mundo se tratasse, por António Costa, numa daquelas inúmeras conferências de imprensa a que a presidência do Conselho da União Europeia obriga. Trata-se de uma estrutura europeia, mais uma, para promover o empreendedorismo, mais uma vez!

Alberto Castro

A Oeste nada de novo

O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) foi precedido pelo desenho de uma Visão Estratégica para a década 20-30, da autoria de António Costa Silva. Ambos os documentos foram amplamente discutidos, embora não seja óbvio quantas das sugestões vieram a ser incorporadas no PRR. Parece legítimo dizer, ainda, que este acabou por gerar a expectativa de ser um programa para o curto prazo - a imagem da bazuca ajudou. Vai-se a ver e, pelo menos no nosso caso, a componente recuperação destinada às empresas parece secundarizada em favor do Estado e da resiliência.

Alberto Castro

Conveniências

Sabia-se, há muito, quando Portugal iria assumir a Presidência do Conselho da União Europeia. Sabe-se que tal exige um conjunto de contratos para fornecimento de equipamentos, serviços e materiais específicos e circunstanciais. É, por isso, difícil compreender que quase tudo tenha de ser adquirido, em cima da hora, por ajuste direto. Escrutina-se a lista e conclui-se uma outra coisa: com poucas exceções (vinho do Porto; algum mobiliário) tudo é atribuído a pessoas e empresas que se situam na Grande Lisboa. Eu sei que é lá que decorre grande parte dos eventos, mas não haveria fornecedores de bandeiras ou de máscaras, só para usar dois exemplos, no resto do país? Quando se fala em escrutinar a "bazuca", como o PT 2020 ou 2030 é, também, destes serviços complementares, destas assessorias as mais diversas, de que estamos a falar. Será conveniente, mas tal proximidade gera teias que facilitam a proliferação de "consultores" que se gabam de nunca ter tido um projeto recusado e, por tal, cobram. À mulher de César...

Alberto Castro

Os privados

1) Durante a campanha para a Presidência da República, um candidato insistiu em dividir os portugueses em bons e maus. Que se tenha, simultaneamente, auto classificado como católico, diz da sua seriedade intelectual. Entre os críticos, como seria de esperar, destacaram-se os candidatos da chamada esquerda radical, os mesmos que, a propósito de tudo e de nada, dividem, eles próprios, os portugueses entre maus (os privados) e bons (os dependentes do Estado). Vá lá que não se reclamam católicos!

Alberto Castro

Haverá coragem?

A crise pandémica tem tido efeitos devastadores na generalidade dos países (na China, as estatísticas obedecerão ao líder supremo?). Em termos dos rendimentos, há perdedores, neutros e ganhadores. O primeiro grupo integra empresas e trabalhadores ligados aos vários setores de atividade que, por força da pandemia, viram a procura desaparecer ou minguar drasticamente. Toda a fileira do turismo. O comércio não alimentar. A fileira da moda. A cultura. Uma lista infinda. Uma característica comum: iniciativa privada. Pelo contrário, a crise pouco afetou funcionários públicos e pensionistas, dependentes do Estado. Tal como os perdedores, também os ganhadores estão no setor privado e incluem desde empresas farmacêuticas ou de tecnologias de informação, até às empresas de logística.