Joana Petiz

Quem o barco leva e quem leva o barco

Se há cada vez mais certezas sobre o valor e o papel fundamental dos trabalhadores nas empresas, nestes tempos têm-se também multiplicado ideias de jerico sobre quem deve pagar uma crise que chegou a todos e não é culpa de ninguém. Dando razão ao povo quando diz que em casa onde não há pão todos ralham sem razão, alguns conseguem, infelizmente, roçar a insanidade. Como quando se pretende que é uma boa ideia castigar quem não perdeu rendimentos. Que paguem eles a crise!, dizem, sem ver que essa foi uma conquista de quem teve a sorte de poder continuar a trabalhar e quis dar o litro para ultrapassar todas as dificuldades decorrentes da pandemia e dos necessários confinamentos.

Joana Petiz

Comparar as crises é misturar alhos e bugalhos

Pretender estabelecer comparações entre a crise provocada pela pandemia de covid - que arrasa o mundo inteiro, com efeitos variáveis consoante a intensidade das vagas e a especificidade das sociedades, mas que chega a toda a parte, sem exceção e sem aviso - e a crise financeira e económica com a qual a Europa lidou há quase uma década é, na melhor das hipóteses, desonestidade intelectual. Não que isso impeça cada vez mais frequentes comparações e cantares de galo sobre como desta vez se decidiu, a nível europeu e nacional, abrir os cordões à bolsa em vez de castigar com austeridade.

Joana Petiz

O que restará quando a covid passar

Um fim de semana de Páscoa cheio de avisos, mas com demasiadas pessoas a aproveitar o teletrabalho para fugir mais cedo para as casas de campo e celebrar a festa em família - quantas vezes em versão alargada, como no Natal... E a luz da reabertura das esplanadas ao fundo do túnel em que estamos fechados há meses. É já garantida esta nova fase que ajudará algumas das empresas sufocadas a voltar a ter ar, mesmo que estejam longe de respirar fundo. Mas não haja ilusões: é de esperanças e de figas que se faz o desconfinamento.

Joana Petiz

O Estado cego que dá e tira

Preços impraticáveis, porque abaixo até do mínimo custo possível, concorrência desleal e volume incomparável são queixas recorrentes de quem tem de concorrer com produtos chineses no mercado. Normalmente, os Estados europeus lutam contra essa desigualdade, protegem os seus negócios e indústrias e também o consumidor - abaixo de determinado nível de preço, dificilmente a qualidade é garantida. O que há de curioso - e lamentável - no caso que aqui contamos é que é o próprio Estado (o português) que está a empurrar-nos para o abismo.

Joana Petiz

A faca, o queijo, a mesa e os convites na mão de Costa

Quase cada cêntimo da enorme bazuca que Bruxelas vai disparar sobre a economia portuguesa vai ter como alvo o Estado. O governo de António Costa decidiu agilizar os fundos que permitirão dar um empurrão para uma retoma que cada vez se adivinha mais difícil - pela crise sanitária, pelo prolongamento e repetição de confinamentos, pelo receio que leva à retração do consumo, pelo desemprego e perspetivas de não reabertura de centenas de empresas - e se materializará sobretudo através de investimento público.

Joana Petiz

Calendário-espetáculo

Em palco, com luzes e bonecada a acompanhar, um primeiro-ministro, quatro ministros e um secretário de Estado anunciaram, nas últimas horas, novos apoios para o "desconfinamento possível, com cautelas e a conta-gotas", num discurso armadilhado de avisos de que tudo pode recuar se voltarmos a portar-nos mal. Continua lá o dedo apontado na ponta da língua de António Costa, certo da obediência dos portugueses e pronto a dar-lhes ralhetes quando a coisa se descontrola - como quem abre aos filhos o bar lá de casa para os repreender quando apanham uma bebedeira.

Joana Petiz

A fatia de leão tem de ser das empresas

É o próprio governo que afirma e repete a necessidade de proteger as empresas para salvar o emprego e garantir a capacidade de recuperação da economia. Não há dúvidas no discurso - que os restantes partidos à esquerda continuam a rejeitar em nome de um Estado-todo-poderoso providenciador, omitindo que sem receita não há o que redistribuir e que o dinheiro público não tem geração espontânea, antes é retirado do bolso dos contribuintes. Mas se a mensagem é clara, os métodos não coincidem. Basta ver que a fatia de leão do Plano de Recuperação e Resiliência é adjudicada a programas e instrumentos públicos.

Joana Petiz

A nova pobreza envergonhada

À porta do supermercado voltou a haver mãos estendidas. Já não é só o casal que habitualmente ali fazia vida, revezando-se no pedido de uma sandes e um sumo e na procura de estacionamento para quem o encontraria sem problema de forma a assegurar uns trocos no bolso no regresso a casa. A esses, juntaram-se outros, uns mais óbvios, outros menos, estes ainda a tentar esconder a necessidade na busca autónoma de sobras, quando ninguém parece reparar neles, a adiar o pedido declarado que guardam para último recurso.

Joana Petiz

Se é para ficar pior, que sejam todos

Aos miúdos da escola, num ensaio de valores de partilha enquanto se ensinava que não era bonito mascar pastilha nas aulas, dizia-se: "Se não tem para todos, também não pode comer." E a mensagem certamente ficou colada na alma de muitos dos nossos governantes. O que explica a permanente necessidade de nivelar tudo, o paternalismo implícito na tentação constante de tornar tudo igual e não entender que a equidade vale mais; que tratar todos por igual traz injustiças tremendas; que o papel do Estado é desenhar as condições para todos terem oportunidades semelhantes, mas deixar que os melhores sejam premiados e tirem benefício do esforço acrescido - levando os demais a ambicionar essa vantagem pelo próprio empenho e resultados, não por simplesmente existirem.

Não peça um ano melhor, faça-o

Diz-se que em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão - ou todos têm um pouco, mas não há equilíbrio que se consiga atingir de barriga vazia, ou adivinhando o desastre que aí vem nos próximos meses. Somos disso testemunhas ao ver criarem-se barricadas de lados opostos quando todos enfrentamos o mesmo inimigo: a crise provocada pela pandemia que nos atirou ao chão. Senhorios e inquilinos, empresários e trabalhadores, instituições de crédito e endividados, Estado e contribuintes, estamos - devíamos estar - todos a remar para tentar fugir do remoinho que ameaça engolir-nos.

Cereja estragada em bolo-rei podre

A época devia ser de esperança, mas num ano como 2020 é verdadeiramente difícil ver luz ao fundo do túnel sem pensar que é o comboio que vem contra nós. Nem mesmo o frágil alívio que o governo deu aos portugueses para passarem em família os dias de Natal - de máscara posta, sem afetos nem ajuntamentos, sem a tentação de se alegrarem e perderem de vista a ameaça da covid - ajuda, quando as condições são tantas e as restrições apenas suspensas pelo mínimo.

Joana Petiz

Levar Portugal mais longe

Há sinais de esperança no horizonte. Ultrapassado o bloqueio, a bazuca europeia pode finalmente ser disparada e podem começar a chegar às economias os meios para suavizar os efeitos de uma crise sem precedentes. O arranque da vacinação contra a covid no Reino Unido - nosso maior cliente no turismo - permite-nos também começar a antecipar os ventos de mudança tão necessários a que Portugal volte a perspetivar o crescimento possível. E as novas medidas aprovadas pelo governo para apoiar as empresas permitem ao menos olhar com maior benevolência o futuro. Mas há ainda tempos muito difíceis pela frente - os mais difíceis talvez -, com anunciados fechos, falências e desemprego a cair em 2021 e a prolongar-se por muito mais tempo do que inicialmente se previa. A letra que melhor definirá a recuperação ainda está por descobrir, mas uma coisa já parece certa: antes do verão dificilmente seremos capazes de inverter o ciclo depressivo no país - provavelmente levará ainda mais tempo em setores como o turismo, a restauração, os eventos, o comércio. E a presidente do BCE, Christine Lagarde, aponta já um prazo de dois anos para que a verdadeira recuperação aconteça no plano europeu. E como sabemos pelo que a experiência, até recente, nos tem ensinado, para Portugal ela deverá custar mais a chegar: em tempo, em meios e em grau de dificuldade.