Joana Petiz

Os sindicatos  ficaram sozinhos

Milhares de pessoas despedidas na banca, centenas de famílias a receber avisos de corte de serviços essenciais, cada vez mais pequenos negócios a fechar, incapazes de sobreviver a confinamentos e restrições sem fim à vista e com subsídios anémicos e tardios (quando chegam). É este o retrato de muitos portugueses. Pouco nos chega, porém, em imagens, relatos ou notícias. Mesmo que os sindicatos se mantenham ativos e as greves, manifestações e ações de luta tenham ganho escala e número nos últimos tempos. A pandemia domina a atualidade e os partidos acreditam que opor-se a quem decide não lhes trará nada de bom enquanto essa luta maior existir. A verdade é que, com a vacinação avançada como está e os números de contágios e casos graves a amaciar, com a bazuca decidida e os apoios imediatos distribuídos, essa centralidade já há muito que deixou de fazer sentido.

Joana Petiz

Os nazis do refeitório em duas rodas

Os nossos miúdos não hão de ser obesos. Podem congelar todos os invernos e assar no verão em salas de aula que deixam entrar a chuva, em escolas até hoje cobertas de amianto cancerígeno e cujos pavilhões desportivos estão fechados a cadeado há anos, redefinindo-se o desporto escolar em aulas de teoria do basquete ou regras do salto de trampolim. Podem ter de fintar ratos e baratas no recreio e ter vómitos só de pensar numa urgência que os obrigue a utilizar as casas de banho imundas, tantas vezes sem sabonete, papel higiénico ou condições de limpeza mínimas. Podem não ter material escolar porque o dinheiro dos pais, ainda mais encolhido pela crise pandémica, tem de servir para fazer face a outras contas e o Estado só garante apoio aos miseráveis letrados, aqueles que sejam capazes de preencher tanto os requisitos de pobreza extrema quanto os formulários exigidos para receber apoios. Pelo menos têm os manuais escolares de graça... desde que frequentem o ensino público, que isso do privado é coisa de capitalistas que não merecem nada. Podem até passar um ano letivo inteiro sem professores de certas disciplinas, sem meios digitais que garantam que as lições lhes são passadas se a covid voltar a impedi-los de ir para a escola e sem profissionais de apoio psicológico capazes de os ajudar a refocar-se depois de dois anos de pandemia. Mas obesos não serão!

Joana Petiz

O país visto da bolha e decidido na bolha

Queremos incentivar o uso de transportes públicos, mas somos incapazes de pôr autarquias vizinhas a conversar pela integração e complementaridade de condições que permitam evitar, por exemplo, os mais de 300 mil carros que diariamente entram em Lisboa. Apregoamos a eletrificação da economia, mas criamos leis que castigam quem opta por veículos híbridos, empurrando-os para os que se movem a combustíveis fósseis. Queremos cortar o custo destes, mas mantemos impostos brutais no seu preço - como queremos que os patrões subam salários, mas penalizamos o valor que chega aos trabalhadores com uma carga fiscal brutal. Queremos incentivar a iniciativa privada, mas temos cada vez mais pessoas a engordar a máquina pública. Queremos captar indústria e investimento para o país, mas mudamos constantemente as regras a meio do jogo, complicamos licenciamentos e revoltamo-nos contra os impactos dessa mesma indústria. Queremos baterias, queremos produzir e exportar com mais-valia para o resto da Europa, mas minas e fábricas de lítio aqui, nem pensar. Queremos energias renováveis, mas sem estragar a paisagem, sem barragens, sem painéis solares que aquecem o ambiente e sem aerogeradores que estraçalham passarinhos. Queremos atrair talento qualificado para o interior, mas não asseguramos que essas regiões sequer tenham serviços básicos de saúde, educação e infraestruturas digitais.

Joana Petiz

Não foi manif, foi futebol!

Dois meses depois, anunciou o governo, com pompa e circunstância, uma descoberta de leão: afinal, o evento político com que a Juve Leo justificou a instalação de um ecrã gigante à porta do estádio José de Alvalade, onde o jogo que fez do Sporting campeão foi transmitido, não foi nada disso. Palavra de ministro da Administração Interna, que tinha até na mão o relatório oficial que comprovava as conclusões: a festa foi "abusiva", não houve "cooperação" com a polícia e o palco montado no estádio foi "abuso do direito à manifestação". Vejam lá que parece que tudo aquilo foi montado para os adeptos conseguirem ver o jogo e celebrar a vitória... não há direito!

Joana Petiz

O país de Costa e o dos outros

A Filipa organiza eventos - festas privadas, como a que fez no batizado da filha, mas sobretudo ações de ativação de marca, conferências, feiras, projetos de design. A empresa do marido, Jorge, onde trabalham os dois, está há mais de um ano sem poder funcionar, condenada a dispensar as oito pessoas que já empregava e com os rendimentos reduzidos a pouco mais de um salário mínimo e o extra ocasional de algum desenho que apareça. Esgotadas as linhas de apoio e a esperança de que as coisas mudem muito nos próximos tempos, a Filipa juntou-se a uma imobiliária, a ver se consegue levar mais qualquer coisa para casa enquanto a Brand Energy não volta a arrancar.

Joana Petiz

Sardinhas no comboio e o trabalho remoto

Ir às compras, pode. Almoçar fora, pode. Jantar também, desde que seja cedo. E até a praia, os eventos culturais e os convívios, mesmo que mantendo certos cuidados, já voltaram a ser possíveis. Demorou demais, mas chegou o momento de retomar a vida - pessoas e empresas. Pouco a pouco, regressamos à normalidade - muito graças à capacidade e competência do vice-almirante Gouveia e Melo, que pôs a vacinação a correr sobre rodas depois de uma primeira abordagem caótica. Em pequenos passos, as empresas voltam a conseguir andar para a frente e a perspetiva de um verão mais aberto e com via verde para os britânicos - nossos melhores clientes no turismo - anima.

Joana Petiz

Juntos e a uma só voz

Nos primeiros tempos desta pandemia houve, brevemente, a ideia de que estávamos mais solidários, todos juntos contra um inimigo comum. Mas das restrições de saída de ventiladores ao açambarcamento de papel higiénico e enlatados, passando pela monopolização de vacinas que pôs até aliados de sempre uns contra os outros, essa ilusão depressa se desfez. Infelizmente, porque é uma verdade comprovada que ao juntarmo-nos ganhamos força, escala, capacidade de nos fazermos ouvir.

Joana Petiz

À deriva

António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa entenderam a euforia dos adeptos que quebraram todas as regras por eles impostas para controlar a pandemia, em nome da celebração de um campeonato de futebol. Compreenderam mesmo a incapacidade do ministro da Administração Interna e do presidente da Câmara de Lisboa para antecipar e conter a loucura que os levou à rua aos magotes. E desta vez, ao contrário do que aconteceu no Natal, até contiveram a tentação de culpar as pessoas pelo descontrolo que a eles cabia evitar.

Joana Petiz

A Memória e outras preocupações

Nuno Artur Silva está preocupado com os jornalistas do Global Media Group. Ouvimo-lo da sua própria boca nesta semana, solidário com as convulsões que este grupo, a que pertence o Dinheiro Vivo, tem sofrido nos últimos anos e que obrigaram a cortes duros sucessivos em nome da estabilização de uma empresa privada. É uma realidade que o hoje secretário de Estado que tutela os media conhece um bocadinho. Para quem não sabe ou não se recorda, antes de ingressar no governo de António Costa, Nuno Artur Silva foi durante um ano curador do anterior suplemento do Diário de Notícias, 1864, cujos temas ajudava a definir semanalmente, já num período desafiante do GMG.