Joana Petiz

Tirar o debate de 1980, trazer o país para 2022

Salário mínimo de achómetro, sem olhar ao estado da economia e aos fatores que o deveriam nortear. Condições laborais dos funcionários públicos discutidas sem atentar ao serviço que prestam nem diagnosticar onde são mais necessários - e com que perfil. Progressão nas carreiras dos professores reclamada sem gastar um minuto a pensar no envelhecimento da classe e na sua desadequação à revolução digital e às características dos jovens e crianças de hoje.

Joana Petiz

Ano novo hoje, vida nova daqui a 30 dias

Na viragem do calendário daquele que para muitos de nós parece ter sido o 24.º mês de um ano de 2020 de má memória, é a esperança no regresso à vida que marca este primeiro dia de 2022. Esperança alimentada em muito pela aparente transformação da pandemia em endemia - com conhecimento, vacinação e medicamentos iminentes como fatores-chave. Basta ver que, se os contágios de covid batem recordes diários, os casos graves e as mortes estão numa fração da fasquia de há um ano, quando em vez dos mais de 28 mil casos diários atuais lidávamos com 6 mil, mas registávamos três vezes mais doentes internados do que hoje e cinco vezes mais mortes.

Joana Petiz

Desejo de Natal

O dia do nascimento de Cristo, que há mais de dois mil anos é celebrado pelos cristãos em todo o mundo, marca a esperança em tempos melhores. Tempos de paz e prosperidade, de justiça e de coragem, de solidariedade e de entrega - de que hoje precisamos mais do que nunca. Que essa mensagem esteja bem viva e possa ser partilhada e praticada. Assim tenhamos nós a capacidade de entrega que marcou a vida de Jesus e dos que o seguiram e lhe seguem o exemplo. Mesmo os que não acreditam.

Joana Petiz

Campanha de Natal em preparação eleitoral

Há dois anos, foi cozinhar uma cataplana de peixe ao programa que Cristina Ferreira tinha na SIC, agora foi mostrar a sua humanidade na Casa Feliz. E se em setembro vincou que um chefe do executivo deve "distinguir muito bem" estas funções das partidárias e não pode "estar em campanha de manhã à noite", António Costa não é de deixar créditos por mãos alheias. O governo pode estar à beira do fim, mas o seu líder está bem consciente de que vai de novo a exame, que ainda tem as valências de quem governa e que a covid o afastará dos abraços distribuídos em arruadas de janeiro. E por isso, enquanto a oposição esbraceja nos respetivos caos internos, pôs já toda a lenha no assador da campanha eleitoral que ainda não o é, chegando-se através do ecrã aos que vão às urnas dia 30 de janeiro e enviando os seus nomeados para anunciar boas novas em matérias a que nunca antes deu projeção.

Joana Petiz

Está bem? Mude-se. Isto é Portugal

Se algo vai bem em Portugal, então alguma coisa está errada. E há que acabar rapidamente com isso. Nem que seja preciso rever regras, criar leis e erguer barreiras burocráticas para acabar com a pouca vergonha daqueles que têm sucesso. Veja-se o escândalo da Via Verde, nascida para digitalizar o pagamento de portagens mas que foi deslizando para outras áreas e nos pôs a usar o pequeno identificador para pagar parques, comida, gasolina e até entradas no ferry. E agora, ao fim de décadas a desenvolver tecnologia que nos torna a vida mais fácil, decide cobrar uma taxa mensal 50% superior à atual. São 99 cêntimos - por um serviço que só usa se quiser! Um escândalo, claro. Bem fez a Deco em revoltar-se e denunciar que só fazem estas coisas porque não têm concorrência no mercado - estivesse a geringonça em condições e acabava já com esta pouca vergonha; nem que para isso tivesse de criar mais uma empresa pública deficitária.

Joana Petiz

Medidas "casual strict" para salvar o Natal

Estamos muito melhor do que há um ano, estamos muito melhor do que os outros países, graças ao sucesso da vacinação - leia-se, aos esforços conduzidos por Gouveia e Melo, desde que a ministra da Saúde largou os comandos da operação. Os casos estão a subir mas é natural, será assim todos os invernos, dizem os especialistas, concluindo que a covid está já em situação endémica (não pandémica). Casos graves e mortes são poucos relativamente ao número de contágios - subiram os óbitos, sim: pelo documento do governo que suporta as medidas, de 9 para 15...

Joana Petiz

O PS a que nos entregam os que não se lhe opõem

Na última década, a política transformou-se, pela mão dos seus representantes - eleitos pelos cada vez menos portugueses que ainda sentem ser seu dever participar na escolha -, numa batalha campal em que o que importa é esmagar o adversário. Já lá vai o tempo em que um governante empenhava o futuro próprio a bem do país. O "que se lixem as eleições" virou "que se lixem os eleitores", num processo em que ninguém estranha, questiona ou critica afirmações que radicalizam e extremam posições sem contemplação.

Joana Petiz

O orçamento Melhoral enterrou a geringonça

António Costa, os que ao lado dele se sentam no governo e os seus ex-aliados agora feitos inimigos estão juntos na crença de que não vem mal ao mundo executivo numa liderança política que não tenha uma base orçamental sólida para se apoiar. Desde que o chumbo orçamental se concretizou e a geringonça se escaqueirou de vez, é a única coisa que une as esquerdas, essa tentativa de, mesmo sem acordo mínimo, evitar as eleições que têm tudo para deixar o parlamento verdadeiramente partido ao meio.

Joana Petiz

À beira do precipício, o passo em frente

A teimosia de António Costa em, após seis anos a liderar governos minoritários, recusar ver e considerar todo o espetro político pode sair-nos cara a todos. Se no momento pós-troika a viragem à esquerda pode ter-lhe sido fundamental para capturar o poder e devolver à sociedade o que esta reclamava, seria de esperar que a capacidade de entregar mais e mais, orçamento após orçamento se fosse esboroando. E naturalmente, entre conquistas de BE e PCP e até alguns rebuçados atirados ao PAN, a margem financeira para responder às sucessivas exigências da extrema-esquerda foi-se - como se vê neste "Orçamento bom para Portugal e bom para os portugueses, que na verdade pouco ou nada entrega"; como se vê no anúncio conjunto feito na quinta-feira pelas ministras da Presidência do Conselho de Ministros, do Trabalho, da Saúde e da Cultura. Por um lado, proclamam-se medidas para mudar o contexto laboral cuja negociação caberia à Concertação Social, esvaziando esse fórum fundamental em nome da capacidade governativa - sem resultados - e impondo o que não agrada nem a sindicatos nem a patrões. Por outro apresentam-se medidas gerais para captar médicos para o SNS que numa leitura não especialmente atenta se revelam vazias e ineficazes - a exclusividade paga-se, é simples. E 17 euros por hora contra os 70 conseguidos por quem faz o trabalho por encomenda especial não são atrativo nenhum. Mas acenar com o vil capital não é mel que atraia a extrema-esquerda.

Joana Petiz

Os sindicatos  ficaram sozinhos

Milhares de pessoas despedidas na banca, centenas de famílias a receber avisos de corte de serviços essenciais, cada vez mais pequenos negócios a fechar, incapazes de sobreviver a confinamentos e restrições sem fim à vista e com subsídios anémicos e tardios (quando chegam). É este o retrato de muitos portugueses. Pouco nos chega, porém, em imagens, relatos ou notícias. Mesmo que os sindicatos se mantenham ativos e as greves, manifestações e ações de luta tenham ganho escala e número nos últimos tempos. A pandemia domina a atualidade e os partidos acreditam que opor-se a quem decide não lhes trará nada de bom enquanto essa luta maior existir. A verdade é que, com a vacinação avançada como está e os números de contágios e casos graves a amaciar, com a bazuca decidida e os apoios imediatos distribuídos, essa centralidade já há muito que deixou de fazer sentido.