Não peça um ano melhor, faça-o

Diz-se que em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão - ou todos têm um pouco, mas não há equilíbrio que se consiga atingir de barriga vazia, ou adivinhando o desastre que aí vem nos próximos meses. Somos disso testemunhas ao ver criarem-se barricadas de lados opostos quando todos enfrentamos o mesmo inimigo: a crise provocada pela pandemia que nos atirou ao chão. Senhorios e inquilinos, empresários e trabalhadores, instituições de crédito e endividados, Estado e contribuintes, estamos - devíamos estar - todos a remar para tentar fugir do remoinho que ameaça engolir-nos.

Cereja estragada em bolo-rei podre

A época devia ser de esperança, mas num ano como 2020 é verdadeiramente difícil ver luz ao fundo do túnel sem pensar que é o comboio que vem contra nós. Nem mesmo o frágil alívio que o governo deu aos portugueses para passarem em família os dias de Natal - de máscara posta, sem afetos nem ajuntamentos, sem a tentação de se alegrarem e perderem de vista a ameaça da covid - ajuda, quando as condições são tantas e as restrições apenas suspensas pelo mínimo.

Joana Petiz

Levar Portugal mais longe

Há sinais de esperança no horizonte. Ultrapassado o bloqueio, a bazuca europeia pode finalmente ser disparada e podem começar a chegar às economias os meios para suavizar os efeitos de uma crise sem precedentes. O arranque da vacinação contra a covid no Reino Unido - nosso maior cliente no turismo - permite-nos também começar a antecipar os ventos de mudança tão necessários a que Portugal volte a perspetivar o crescimento possível. E as novas medidas aprovadas pelo governo para apoiar as empresas permitem ao menos olhar com maior benevolência o futuro. Mas há ainda tempos muito difíceis pela frente - os mais difíceis talvez -, com anunciados fechos, falências e desemprego a cair em 2021 e a prolongar-se por muito mais tempo do que inicialmente se previa. A letra que melhor definirá a recuperação ainda está por descobrir, mas uma coisa já parece certa: antes do verão dificilmente seremos capazes de inverter o ciclo depressivo no país - provavelmente levará ainda mais tempo em setores como o turismo, a restauração, os eventos, o comércio. E a presidente do BCE, Christine Lagarde, aponta já um prazo de dois anos para que a verdadeira recuperação aconteça no plano europeu. E como sabemos pelo que a experiência, até recente, nos tem ensinado, para Portugal ela deverá custar mais a chegar: em tempo, em meios e em grau de dificuldade.