Óscar Afonso

Ética e Política: a imperial necessidade de rotatividade nos cargos

Os escândalos sobre corrupção praticada pela Elite Política portuguesa têm sido frequentes, reinando, com muito raras exceções, a impunidade. A meu ver, o que impulsiona a disseminação da corrupção é a dissociação existente entre a Política e a Ética, sendo que crescentemente as questões Éticas têm vindo a ser relegadas para segundo plano, aparentemente para que seja possível controlar a sociedade pelo Poder. Para demasiados políticos, o Poder, para ser concretizado na sua plenitude, atingindo os fins (particulares) desejados, requer que a Ética seja marginalizada, o Direito desconsiderado e órgãos de informação controlados.

Joana Petiz

Quem o barco leva e quem leva o barco

Se há cada vez mais certezas sobre o valor e o papel fundamental dos trabalhadores nas empresas, nestes tempos têm-se também multiplicado ideias de jerico sobre quem deve pagar uma crise que chegou a todos e não é culpa de ninguém. Dando razão ao povo quando diz que em casa onde não há pão todos ralham sem razão, alguns conseguem, infelizmente, roçar a insanidade. Como quando se pretende que é uma boa ideia castigar quem não perdeu rendimentos. Que paguem eles a crise!, dizem, sem ver que essa foi uma conquista de quem teve a sorte de poder continuar a trabalhar e quis dar o litro para ultrapassar todas as dificuldades decorrentes da pandemia e dos necessários confinamentos.

Inês Teotónio Pereira

Não tenho vocação para ser mãe

Adoro os meus filhos, dava (dou) a vida por eles, todos os dias agradeço a Deus as suas vidas, o seu amor, saúde... blá, blá, blá. Mas se me perguntarem se eles são as pessoas do mundo com quem eu mais gosto de estar, respondo honestamente que não, tenho muita pena mas não são. Por exemplo, se eventualmente alguém me perguntasse: Gostas mais de jantar com os teus amigos ou com os teus filhos? E diria, honestamente, os amigos. E porquê? Os amigos portam-se bem à mesa, pagam o jantar deles, não têm de ir para a cama cedo e têm idade para beber álcool - o que faz toda a diferença quando se janta fora. E viajar? Também, claro. Viajar com filhos ou com amigos é a diferença entre comprar um bilhete para uma zona de guerra ou para Maldivas. Viajar com os filhos de carro é insuportável, de avião é caríssimo e gasta-se uma fortuna em alojamento e comida. Depois, eles não gostam de museus nem de teatros, não entram em bares, perdem-se a toda a hora e são consumidores e pedinchões compulsivos. Já viajar com os amigos, seguindo a regra sagrada do "amigo não empata amigo", é uma maravilha.

Rui Martins

Um protocolo automático entre SNS e privados para as Emergências Hospitalares

Em Janeiro de 2021 apresentei à Assembleia da República a petição "Por um protocolo que permita a transferência automática de doentes urgentes do SNS para hospitais privados" onde se pode ler que o texto surgiu depois de passar muitas horas (por vezes mais de dez) a acompanhar familiares nas urgências hospitalares (ainda em tempos pré-pandémicos) e reforçado pela "notícia de um idoso que faleceu à espera de ser tratado no hospital de Santarém" e por notícias de "vários hospitais à beira ou já em plena ruptura por causa do crescimento explosivo dos casos COVID (de Santa Maria a Torres Vedras)" algo que havia tornado urgente a "criação de um protocolo permanente (além da actual Pandemia) que permita que os serviços de emergência (bombeiros, ambulâncias particulares ou INEM/CODU) remetam os doentes em ambulância para um hospital de "reserva" (privado ou de uma IPSS)".

Segundo propunha "este protocolo deve ser activado também para os doentes em sala de espera numa urgência hospital a partir de uma quantidade determinada de horas de espera (numa métrica dinâmica automática calculada a partir da pressão nos serviços de urgência)" acreditando que "o Serviço Público de Saúde não tem que ser prestado apenas em unidades públicas de Saúde e porque existe capacidade instalada por aproveitar nos privados deveria existir um mecanismo que pudesse salvaguardar vidas humanas e poupar sofrimento através desses protocolos estabelecidos entre privados e Estado central". O texto terminava apelando ao Parlamento que legislasse nesta direcção.

Esta semana fui contactado pelo Parlamento, em nome do Relator da Petição n.º 221/XIV/2.ª - «Por um protocolo que permita a transferência automática de doentes urgentes do SNS para hospitais privados», Sr. Deputado Álvaro Almeida, do PSD, para a audição que teve lugar a 14 de abril.

A instalação deste tipo de protocolos não é algo que não tenha sido debatido noutros países. Singapura teve esta questão em janeiro deste ano quando alguns doentes em ambulâncias para um hospital público foram enviados para hospitais privados. Foi no decurso deste debate neste país asiático que se reconheceu que estes hospitais não têm - por regra - serviços de emergência, nem especialistas nesta área. Com efeito cerca de 95% destes especialistas, em todo o mundo, trabalham no Serviço Público de Saúde. Consequentemente, este tipo de protocolos teria que incorporar um financiamento público permanente a estes privados por forma a manter esta capacidade de reserva e a garantir a existência de uma rede suficientemente densa destas "emergências hospitalares de segunda linha".

Alguns casos, identificados enquanto tal na fase de triagem ou pela equipa de emergência no local, não poderiam ser transferidos para estas urgências de segunda linha, mas existem muitos tipo de traumas e doenças, e alguns dos casos mais ligeiros poderiam ser tratados nestas emergências privadas de reserva (p.ex. fracturas simples) libertando recursos e tempo preciosos nas emergências públicas mais especializadas e melhor equipadas e criando um sistema, ágil e flexível, de comunicações (telemedicina) entre os médicos nas urgências públicas e os das privadas que pudesse colmatar algumas lacunas de conhecimento ou experiência.

Este modelo de integração automática entre serviços de saúde públicos e privados que proponho na petição poderia libertar carga dos primeiros e permitir que os pacientes recebessem cuidados melhores e mais rápidos, rentabilizando toda a capacidade de reserva no privado sem realizar grandes investimentos. O desafio foi lançado no Parlamento (Comissão de Saúde): aguardo agora desenvolvimentos.