Turismo religioso

Quebra no número de peregrinos em Fátima faz tremer economia local

SANTUÁRIO DE FATIMA.
(Paulo Spranger/Global Imagens)
SANTUÁRIO DE FATIMA. (Paulo Spranger/Global Imagens)

Por ano, pelo menos sete milhões de pessoas passam pelo Santuário de Fátima, alimentando pequenos negócios. Este ano, menos peregrinos é sinónimo de queda de receitas e provável efeito sobre o emprego. O Santuário enfrenta também uma redução de donativos e recebe cada vez mais pedidos de ajuda.

Poucos em Portugal não saberão o que é o Santuário de Fátima. E poucos nunca terão visto imagens de multidão no recinto. Mas, ao contrário do que aconteceu até 2019, este ano, o retrato é outro. A fé continua a levar muitos a Fátima, mas muito menos do que nos últimos anos, o que se traduz em prejuízos grandes para a economia local, com reflexos no emprego, menos donativos para o próprio Santuário – que tem custos fixos – e mais pedidos de ajuda de famílias.

Os primeiros meses do ano são, tipicamente, uma época de menos peregrinos. Os que chegam a Fátima são sobretudo grupos organizados de regiões como a América Latina e Ásia. Mas este ano, com a emergência sanitária – e consequentes limitações de movimentos aplicadas na Ásia – esses grupos não vieram a Portugal. Com o alastrar da pandemia à Europa, a maioria dos grupos organizados, com explica fonte oficial do Santuário, “aqueles que se registam no Santuário, e a partir dos quais podemos falar em números concretos, deixaram de vir a Fátima”.

De 13 de março e até 30 de maio foram suspensas as celebrações religiosas com a participação de peregrinos. Este período abrangeu dois momentos importantes para os católicos: a Páscoa e o 13 de maio. “Quando retomámos as celebrações a 30 de maio, verificámos um aumento progressivo da presença de peregrinos. Criámos condições de segurança para os acolher e estes, à medida que se vão apercebendo disso, estão também a regressar. Mas é bom sublinhar que este regresso está a ser muito gradual; as multidões continuam ausentes de Fátima e este ano será um ano muito atípico no mundo inteiro e Fátima não será exceção”, diz ao Dinheiro Vivo fonte oficial do Santuário.

A economia local, centrada em negócios para prestar apoio aos peregrinos, sente os efeitos da ausência dos fiéis. “Tal como o Algarve, Fátima tem uma dependência do turismo internacional muito elevada (mais de 70%), o que no contexto atual muito agrava a situação e dificulta a retoma. O turismo é o motor desta região e sem turismo a economia local ressente-se de forma muito acentuada”, explica Purificação Pereira Reis, presidente da Associação Empresarial Ourém-Fátima (ACISO).

As empresas da região estão a “atravessar gravíssimas dificuldades. Embora os portugueses estejam lentamente a regressar e a visitar Fátima, a imensa maioria (cerca de 70%) dos hóspedes do milhão de noites que se registam em Fátima é internacional. Acresce que uma parte substancial tem origem em países como a Coreia do Sul, o Brasil e os EUA, territórios que estão basicamente sem operação turística para a Europa. Se somar outras origens importantes como a Polónia (que proibiu voos para Portugal) e a Irlanda (com Portugal na lista não segura de destinos), a catástrofe é evidente”, acrescenta Alexandre Marto Pereira, diretor da Fátima Hoteles Group (cadeia de dez hotéis independentes em Fátima).

Entre os meses de março a maio, a hotelaria em Fátima registou 21 mil dormidas, uma quebra significativa face às 270 mil dormidas registadas no mesmo período de 2019, aponta ainda o gestor. Junho não deverá ter sido muito melhor. Por isso, muitas das empresas em Fátima ainda não abriram portas. Aguardam por mais movimento que o justifique.

Alexandre Marto, que é também vice-presidente da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), adianta que “a maioria das empresas recorreram ao lay-off simplificado por forma a tentarem manter os seus trabalhadores” e, por isso, “os despedimentos são ainda marginais. Mas o desemprego no município de Ourém já cresceu 50% (de fevereiro para julho), num território tipicamente com desemprego muito baixo”. Nota que os concelhos mais próximos “principalmente Leiria, também serão afetados. Fátima confina com o concelho de Leiria e uma parte substancial dos trabalhadores tem residência ali”.

A ACISO não têm, para já, dados sobre o desemprego no concelho de Ourém. Ainda assim, não esconde que “os números tornados públicos apontam, no entanto, para uma subida expressiva do desemprego no concelho”.

Agosto com menos migrantes
Agosto é tipicamente o mês que os emigrantes regressam a Portugal e é quase certa a passagem de muitos por Fátima. Mas, e devido à pandemia, muitos não virão. Os portugueses deverão ser assim quem mais passará por Fátima nas próximas semanas.

Nos últimos anos, o número de peregrinos oscilou entre os seis e sete milhões – dados obtidos através do número de grupos que se registam -, neste será muito inferior. Em 2019, o Santuário acolheu 4384 grupos, dos quais 2854 eram estrangeiros e 1530 portugueses. Até julho, “registámos pouco mais de uma dúzia e meia de grupos, sendo que a peregrinação que tem até ao momento mais grupos registados é a de agosto, com sete grupos, todos estrangeiros”. O registo é voluntário pelo que pode haver mais alguns grupos.

“A atividade económica de Fátima depende do Santuário (…), o Santuário compreende muito bem a angústia dos agentes económicos que têm muita dificuldade em honrar os compromissos que têm, desde logo, com os seus trabalhadores. Nós próprios também o sentimos”, sublinha fonte oficial. “Não há peregrinos, não há donativos no Santuário e o Santuário depende desses donativos, pois é daí que vêm as receitas para a Instituição. Mas, não havendo peregrinos, sobretudo de grupos estrangeiros que são os que pernoitam em Fátima, maioritariamente, não há turistas. Sem receitas nenhuma empresa, seja de que ramo for, consegue fazer face aos encargos e, por isso, são inúmeros os problemas que irão certamente surgir na sequência desta crise pandémica, nomeadamente o aumento significativo do desemprego”, acrescenta.

E se o balão de oxigénio que o lay-off simplificado representou até aqui permitiu travar o desemprego, no outono o retrato pode mudar de figura. Quem aderiu ao lay-off simplificado ficou impossibilitado de despedir durante o período de vigência do regime e nos 60 dias posteriores. A partir deste sábado entram em vigor novas regras, desta vez de apoio à retoma, com o Estado a prestar menos auxílio financeiro. O outono e inverno podem ser épocas de aumento do número de pessoas sem trabalho. Os pedidos de ajuda ao Santuário já estão a crescer e se a situação das famílias se agudizar, os pedidos podem crescer ainda mais.

“O Santuário é um dos maiores empregadores desta zona. Temos 350 colaboradores permanentes, além dos voluntários que ajudam nos diferentes serviços. Até ao momento não despedimos ninguém nem recorremos ao lay off. Mas também nós estamos a ressentir-nos desta situação. E, ainda assim, temos acorrido a inúmeras situações de carência, cumprindo a nossa responsabilidade social”, remata fonte oficial.

E nem o 13 de outubro, outra data importante para os católicos, terá um efeito muito significativo. Alexandre Marto Pereira assume que “o ponto de vista de visitas internacionais, será tarde demais – estas operações demoram meses a organizarem-se. Mas esperamos uma grande afluência de portugueses”. Já Purificação Pereira Reis é mais cautelosa, adiantando que “ainda estamos a alguma distância do mês de outubro e atentos à evolução da situação internacional”, embora admita que o ano de 2020 “estará seriamente comprometido”, devido ao atraso na retoma do turismo internacional.

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