Turismo

Turistas britânicos? “Há outros mercados a explorar. Porque não pensar nisso?”

(Global Imagens)
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Jorge Mangorrinha, historiador do Turismo, fala sobre os efeitos da covid-19 e da falta do corredor aéreo neste verão para Portugal.

Ficou surpreendido com a decisão britânica de obrigar a quarentena no regresso os turistas que visitarem Portugal? Morre-se muito menos de covid-19 no Algarve do que em Londres.
Este é um dado estatístico concreto mas, como em tudo na vida, os números não são a única variável que orienta as decisões humanas. A minha surpresa transforma-se em resignação, porque creio na escassa comunicação eficaz, que tivesse apostado no apelo aos dados e valores qualitativos e numa ação diplomática que antecipasse a realidade presente. Mais um sinal de que se aposta numa governação reativa e não por antecipação.

Depois dos elogios iniciais, Portugal passou a ser visto com desconfiança por vários países pela persistência do número de infetados, sobretudo na Grande Lisboa. É um exagero motivado por uma guerra discreta pelo mercado turístico?
Esta guerra não é apenas um jogo de mercados, mas faz parte de uma guerra mais vasta, por episódios e por setores. Esta guerra configura uma hipotética III Guerra Mundial, com contornos diferentes das anteriores. Mas seria importante que, ao voltarmos a ter turistas a chegarem por exemplo do Reino Unido, da Alemanha e de Itália, cada um dos países já tenha a sua situação interna resolvida, no que à covid-19 diz respeito.

JORGE MANGORRINHA (Foto: Paulo Spranger)

JORGE MANGORRINHA (Foto: Paulo Spranger)

Acredita que o mercado interno português, com menos portugueses a ir para fora, conseguirá minimizar impacto da quebra de turistas estrangeiros?
Creio que sim. Mas o turismo será dos setores mais difíceis de recuperar a breve prazo, embora eu creia que, se não houver uma segunda vaga da covid-19, a recuperação será menos lenta do que a que muitos agentes apregoam. Num e noutro cenário, urge a criatividade de todos e a manutenção das práticas deste período difícil.

O Reino Unido é um dos grandes mercados emissores para Portugal, sobretudo para o Algarve e a Madeira. Quando começou esta tradição?
Na Madeira começou na segunda metade do século XIX e no Algarve a partir dos anos pós-II Guerra Mundial.

Que tem achado da estratégia de comunicação do turismo de Portugal?
Genericamente bem, embora eu desconfie que os conteúdos, instrumentos e meios diferentes entre Áreas Promocionais e Turismo de Portugal possam confundir o novo e mais jovem turista estrangeiro.

O primeiro-ministro António Costa reagiu com força ao anúncio britânico de excluir Portugal dos países confiáveis. Também o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, zangado, falou da velha aliança entre os dois países. Deveriam ser mais diplomáticos para tentar inverter a decisão?
Há uma clara sintonia política entre eles, uma espécie de nova gerigonça, com vantagens pessoais. Se o país ganha com isso, a ver vamos nos próximos tempos. Há outros mercados a explorar. Porque não pensar nisso?

Fronteiras com Espanha estão reabertas. Serão os espanhóis a salvação do nosso turismo em 2020?
Conforme os destinos. Se houver uma distribuição pelo território, melhorará o retorno para Portugal como um todo. Mas mais importante é o contexto geopolítico onde ambos os países se situam. O mais importante é conseguirmos, nós europeus, adotar medidas que abranjam todos os países, em que se promova e anuncie que a Europa é um destino seguro, porque segue regras importantes. Todos os países ganharão com isso.

Acredita que 2021 poderá ser o regresso à normalidade no mundo do turismo ou nunca mais regressará à facilidade de viajar?
Desejo uma normalidade diferente, ou seja, com aportes positivos apreendidos neste tempo. O turismo é uma das atividades que exigirá mais criatividade e inovação para poder recuperar a sua trajetória não só de crescimento mas sobretudo de desenvolvimento, em articulação com outros setores. O turismo é uma roda de disciplinas. Quem vir o turismo apenas pelos números, muito próprio de economistas e gestores, tanto no ensino como nos investimentos, com exceções, claro, não estará a contribuir para o caminho mais sustentável. Portanto, será um tempo de estratégia transdisciplinar. Há que dar garantias nos transportes públicos. No turismo, há diferentes mas convergentes apostas. O gestor da oferta deve ser capaz de criar o destino e o produto mais surpreendente, dado o conhecimento antecipado que o turista tem deles, com as possibilidades digitais. As empresas, mais do que nunca, devem incorporar o digital na sua atividade e reforçar o comportamento ético de todos. O Estado português e as associações devem convergir para a existência de incentivos fiscais, para uma legislação do trabalho mais flexível, para uma maior qualificação e valorização dos trabalhadores e das profissões do turismo e para uma convergência em relação à rede nacional de aeroportos. E para todos deve essencialmente haver liberdade. Liberdade para escolher, mas é uma escolha mais cautelosa e exigente a partir de agora.

(Entrevista originalmente publicada no Diário de Notícias)

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