Web Summit 2018

A voz que denunciou Cambridge Analytica exige mais regulamentação na tecnologia

Lisboa, 06/11/2018 - Decorre esta semana no Parque das Nações o Web Summit 2018
Christopher Wylie
(Diana Quintela/ Global Imagens)
Lisboa, 06/11/2018 - Decorre esta semana no Parque das Nações o Web Summit 2018 Christopher Wylie (Diana Quintela/ Global Imagens)

“Trabalhei numa das empresas onde vi um dos maiores abusos éticos a serem feitos”, aponta Christopher Wylie, na Web Summit.

Há quase um ano, Brad Parscale, director digital da campanha de Donald Trump, o atual ocupante da Casa Branca, subiu a um dos palcos da Web Summit para explicar como Donald Trump ganhou a corrida para a presidência. Na altura, Parscale falava em analítica e data targetting (utilização dos dados para direcionar a mensagem a um público específico), fazendo chegar a determinados eleitores uma informação a condizer.

Um ano depois desta passagem há um nome que ainda faz soar campainhas: Cambridge Analytica.

Esta terça-feira, Christopher Wylie fez o rescaldo dos últimos seis meses, após a denúncia do escândalo que abalou a confiança que os utilizadores depositam em empresas como o Facebook. Perante uma Altice Arena bem composta, Wylie sentou-se com o pivot do britânico Channel 4, Krishnan Guru Wurthy, para explicar como é que os dados de utilizadores comuns das redes sociais foram explorados para influenciar acontecimentos políticos em 2016.

O cabelo cor-de-rosa pode já não existir, mas o discurso incisivo mantém-se. “O Facebook autorizou isto [a utilização de dados para influenciar a campanha], sabiam exatamente aquilo que estava a acontecer”, assegura Wylie. “Eles sabiam disto desde o início e não fizeram nada”.

“O Facebook tem tanto poder, está a fazer um clone digital da nossa sociedade. O que é que vai acontecer quando os sistemas de inteligência artificial começarem a comunicar entre si?”, pergunta o principal rosto que trouxe o escândalo de privacidade a público. “Isto é uma história de colonialismo”, onde as grandes tecnológicas estão a desempenhar o papel de colonizadoras e os cidadãos de colonizados. “Os nossos governos não estão preparados para lidar com isto”, aponta Christopher Wylie.

Wylie não é o único que lamenta as políticas governamentais. Adam Hadley, o diretor da Tech Against Terrorism, organização criada há dois anos pelas Nações Unidas, aponta na mesma direção. “O cruzamento entre Internet e política vai ser ainda mais notório. Hoje já vemos questões ligadas a mensagens nacionalistas, desinformação… Isto é um problema que não vai desaparecer. E isto vai ser a questão mais crítica da Humanidade, sem qualquer dúvida”, disse em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Hadley não é apenas diretor da Tech Against Terrorism, é também CEO da QuantSpark, empresa que também opera no campo dos dados. Por isso, era impossível não questionar quem trabalha com dados qual é a sua posição relativamente à questão Cambridge Analytica. “Uma das questões da Internet é mesmo a questão da transparência e, no caso do Christopher Wylie, parece que aquela empresa [a Cambridge Analytica] era muito boa na parte de direcionar os anúncios para as pessoas certas. A questão é que eram anúncios negativos, mas com mecanismos que eram muito difíceis de se conseguir perceber”, recorda Hadley.

“Aquilo que queremos ver acontecer é que os governos não aprovem apenas legislação porque parece bem ou que comecem a retirar conteúdos impróprios da Internet de uma forma mais rápida. Vamos melhorar, a um nível internacional”, explica o diretor da organização, que refere também que os governos europeus deveriam liderar nesta questão. “Nenhum país europeu publica um relatório anual sobre a quantidade de informação que pede ao Facebook para retirar da Internet, por exemplo”, indica.

“A lei está neste momento a ser desafiada pela Internet. E isto é uma questão muito profunda e que não está a ter resposta. Acho que o ponto aqui nem é tanto a Internet, tem mais a ver sobre o nosso sistema legal”, reconhece Adam Hadley.

Se Hadley indica que as empresas de tecnologia estão a ter de tomar decisões sensíveis, quando “não foi para isso que foram criadas, [dado que] essa responsabilidade pertence também tribunais”, Christopher Wylie não iliba as gigantes da tech de responsabilidade. E, para o ‘whistleblower’ do escândalo de privacidade do ano, há também que começar a pensar eticamente na linha da frente de quem concebe tecnologia. “Tocamos a vida das pessoas de uma forma tão profunda, que precisamos de ter códigos, de regulamentar o código. Estamos a brincar com o fogo e quando isso acontece, as pessoas magoam-se”, avisa Wylie.

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