Web Summit 2019

Vestager. Tecnológicas estão “diferentes” mas continuam com “ambições maiores”

Web Summit 2019
(Filipe Amorim / Global Imagens)

Na sua terceira passagem pela Web Summit, Margrethe Vestager deixou uma mão cheia de recados às tecnológicas, desde o Facebook até à Google.

É conhecida por ser uma mulher que agita as águas e que tem pautado o seu percurso no papel de comissária Europeia para a Concorrência por avultadas multas a grandes tecnológicas, com a Google como um dos exemplos mais conhecidos. Na Web Summit, deixou recados aos “suspeitos do costume”.

O primeiro recado é uma lição que tem sido repetida ao longo dos anos. “A primeira prioridade serão sempre os humanos”, avisa a política dinamarquesa. “Os desafios que temos são para tornar a tecnologia humana. Podemos ter tecnologia nova, mas os nossos valores continuarão a ser os mesmos”, destaca Vestager, referindo-se aos direitos humanos.

Relativamente às práticas das tecnológicas, cujas práticas tem vindo a manter debaixo de olho, reconhece algumas mudanças. “Em primeiro lugar, estão diferentes, na sua abordagem, na forma como estão a unir-se. Mas, se vejo alguma mudança, é basicamente para terem ambições ainda maiores.”

A divisão das grandes tecnológicas, que muitos acusam de terem crescido demasiado e terem hoje um poder extremo, também foi abordada durante a intervenção de Vestager. “Do ponto de vista da concorrência, era preciso acontecer alguma coisa que fizesse com que a divisão das big tech fosse o último recurso. Até agora, não temos um problema assim tão grande que faça com que isso seja a única solução”, aponta.

Além disso, Vestager explica que não quer correr o risco de a divisão das grandes tecnológicas ganhar contornos de contos tirados da mitologia grega. “Há o risco de, sempre que cortamos uma cabeça a achar que vamos resolver um problema, poderem aparecer outros dois ou três.”

Recados para o Facebook

Assim que a criptomoeda Libra foi anunciada, em junho, chegaram poucos dias depois os relatos de que a Comissão Europeia estaria interessada em verificar o que esse lançamento poderia representar para a concorrência. Na altura, a Comissão revelou-se especialmente interessada em perceber se esse lançamento poderia representar eventuais restrições ao negócio de outros concorrentes. Na Web Summit, Vestager repetiu algo que já tinha dito na conferência de imprensa, horas antes de subir ao palco da cimeira tecnológica. “Em primeiro lugar, ainda estamos a tentar perceber o que é [a Libra]. Mas isto não é um desafio só para mim, é um desafio para toda a Comissão Europeia. Há colegas meus que estão a colocar questões de como é que isto poderá ser usado para lavagem de dinheiro ou para financiamento de terroristas”, enumera a comissária.

Mas não é só sobre a moeda digital que Vestager tem algo a dizer ao CEO do Facebook. O tema dos anúncios políticos nas plataformas digitais tem sido amplamente discutido no mundo tecnológico – e também na Web Summit. Vestager refere que há “importância em mostrar quais são os valores das empresas.” “Não sou o CEO do Facebook e não estou aqui para julgar, mas acho que chegou a hora de as empresas também sustentar as suas palavras com ação.” Sobre a decisão do Twitter, saúda a tomada de posição mas avisa que ainda há trabalho por fazer nessa plataforma. “Em algumas companhias, como o Twitter, não vamos ter discurso político mas claro que isso não é o fim da história, porque ainda podem existir bots e “fábricas” de desinformação e tudo isso.”

Vestager reforça que é importante que as questões democráticas sejam discutidas de forma aberta e em espaço público. Além disso, defende que o tópico dos anúncios políticos deve ser alvo de discussão e ter regras. Temos discutido em profundidade aquilo que vamos aceitar e não vamos aceitar. “Andamos há anos a discutir isto e não percebo como é que as regras do mundo digital são diferentes das regras políticas no mundo real. Temos de perceber o que é que isto pode fazer à democracia.”

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Foto: Paulo Spranger (Global/Imagens)

Fisco deteta erro em 10.000 declarações de IRS e exige devolução de 3,5 milhões

Foto: Paulo Spranger (Global/Imagens)

Fisco deteta erro em 10.000 declarações de IRS e exige devolução de 3,5 milhões

João Cadete de Matos, presidente da Anacom

Fotografia: Vítor Gordo/D.R.

Anacom “considera essencial” redução de preços no acesso à Internet

Outros conteúdos GMG
Vestager. Tecnológicas estão “diferentes” mas continuam com “ambições maiores”